O processo de construção de KARAVANÇARAI foi iniciado no início do ano de 2003 e terá como resultado a apresentação do espetáculo em dezembro de 2004.
A palavra chave dessa montagem é o movimento. O movimento do corpo em relação a outro corpo, em relação ao espaço, em relação a diferentes objetos e aos outros corpos presentes, estejam eles parados ou também em movimento. O tempo todo o movimento do corpo conduziu o processo. Primeiro através do simples andar pela sala solto, sem pensar em nada, apenas respirando e conhecendo o ritmo do seu caminhar do seu respirar tentando encontrar um ponto de encontro entre eles. Depois experimentando diferentes formas de andar, deslocando o equilíbrio do nosso corpo, impondo à ele algumas dificuldades de se locomover. O andar dos bichos também foi uma forma de analisar as diferentes formas que o nosso corpo poderia imprimir. Utilizamos os planos, alto, médio e baixo, tudo o que pudesse ser interessante para observar o que o nosso próprio corpo pode fazer e também as suas limitações. A dança das articulações foi uma forma bem interessante de começar a mexer o corpo bem devagar deste os dedinhos do pé até enlouquecer com a dança movimentando o corpo inteiro.
Numa segunda etapa, introduzimos os objetos em nossas experimentações. Coisas simples: alguns panos, um filó, uma esponja, uma pena, saias, enfim. Então agora deveríamos observar que tipo de movimento nosso corpo poderia fazer com a presença desse objeto. No meu caso foi um pouco difícil. Meu objeto era a esponja e por ser rígida, por não ser muito maleável, essa descoberta tornou-se complicada, mas não impossível. Acho que não tive êxito na escolha do objeto, mas foi interessante perceber justamente a dificuldade.
Ainda com os objetos, nos foi proposto um caminhar com eles, uma viagem onde deveríamos imaginar um caminho a seguir, traçar um objetivo e ir até ele se movimentando com o meu objeto. Foi bastante interessante fazer e ver as formas de andar, de se locomover, já que agora não era apenas o meu corpo. Havia um objeto que provocava algumas limitações e ao mesmo tempo me apresentava novas possibilidades de locomoção. Tudo o que havia sido feito antes, todo o nosso estudo dos movimentos do corpo, pôde ser perfeitamente empregado neste exercício.Conhecendo bem os movimentos do nosso corpo e também os movimentos do objeto que estávamos utilizando, deixamos o objeto de lado e a proposta era agora ser o objeto. Foi realmente a mais difícil das etapas. Realizar os movimentos que a minha esponja realizava foi bem complicado. Depois dessas etapas iniciais, de conhecimento do corpo e dos objetos, foram apresentados novos objetos e dessa vez escolhi um pano de organza preto, que apresentava características exatamente opostas à esponja anterior. Foi bem mais fácil realizar movimentos com ele e sendo ele também. Ficamos bastante tempo experimentando movimentos, formas de se locomover, nos relacionando com os outros corpos em movimento e com os objetos usados por eles.
Até então, eu não tinha certeza do que seria o resultado desse processo nem de que forma seria utilizado tudo o que experimentamos e observamos, e confesso que não via como encaixar esses exercícios a algum espetáculo.
Quando conhecemos a história do espetáculo, achei meio estranho, inovador é verdade, mas estranho. Mesmo assim me propus a tentar e a me esforçar para fazer o trabalho dar certo. Imaginar ser um pássaro, se movimentar como ele e encontrar o som desse pássaro, tudo isso sem ser caricato, é bem difícil. Foi um processo árduo construir o meu pássaro e depois falar como ele falaria.
Passei por uma época de desilusão em que a dificuldade de encontrar algo que fosse realmente bom, que funcionasse na cena, culminou com a incerteza do bom desfecho do trabalho. Não digo nem pela aceitação do público, mas por satisfação pessoal. Nessa fase, a música tornou-se importante, no espetáculo, para mim, pois ela eu tinha a certeza de estar dando certo.
Ao longo do espetáculo, os pássaros passam por diversos caminhos e eu experimentei alterar um pouco os meus movimentos e a voz e o som do meu pássaro. Foi prazeroso e significativo estabelecer algumas mudanças para que eu mesma sentisse as diferentes sensações do meu pássaro.
Ser coro neste também não é tão simples. É preciso impor uma voz, um tom que muitas vezes não agrada e por isso desestimula momentaneamente onde se perde a vontade de continuar.
Chegando ao final do espetáculo, e olhando para todo o processo, mesmo ainda sem um desfecho, acho que os resultados são favoráveis, baseando-se na forma como ele foi conduzido. Acho que a proposta foi diferente, mas para mim não foi estimulante no início. Agora, com o trabalho quase pronto, existe a vontade de ver o resultado, de poder analisar o que deu certo e que poderia ter sido descartado. Confesso que a minha postura hoje é diferente da que eu tinha anteriormente. A descrença no espetáculo não existe e a aceitação do público não é mais uma preocupação. Não sei se o objetivo do espetáculo foi alcançado, mas acho que o processo em si, foi importante para o grupo. Não somos só atores, não vivemos do teatro, e por isso torna-se difícil a realização de uma proposta que exija mais do que podemos render. E exatamente por isso acredito que trabalhar uma proposta diferente daquilo que é de costume fazer, foi muito favorável e me ajudou a conhecer novas formas de fazer teatro.
Em 2004, continuamos com o processo de montagem do espetáculo “Karavançarai”. A dança das articulações foi mantida como etapa de aquecimento (concentração e integração), e também, como instrumento de “rememoração” dos movimentos e gestos característicos dos pássaros que cada ator interpreta. Estes movimentos característicos foram conseqüentes do processo de utilização do objeto como limitador e/ou potencializador de ações não cotidianas (processo realizado em 2003, que possibilitou o domínio e conhecimento do movimento, resultando na criação de personagens/pássaros).Os estímulos sonoros (percussão) e a “luz baixa“, utilizados na dança das articulações, se estenderam para a fase de montagem e se mostraram de grande auxílio no ambiente de criação das cenas.O texto foi dividido em unidades que foram trabalhadas de modo a valorizar o jogo cênico, nas quais se alternavam propostas direcionadas pelos diretores com experimentações dos atores (improvisações).
Neste período de montagem, ocorreram dificuldades na associação das falas determinadas do pássaro com seu movimento, como também, na mudança de personagem (pássaro) durante as cenas. A unidade de coro ainda está sendo buscada.
Todo o processo de montagem se mostrou desgastante fisicamente para a maioria dos atores, e, como também ocorreram muitos casos de doença, resolveu-se passar a oficina para somente um dia (às quartas-feiras), deixando a segunda-feira como opção de reposição.
O pouco tempo em que nos encontramos não possibilitou um estudo teórico coletivo, entretanto recebemos dos diretores dois textos que abordam a origem do sama (dança giratória dos dervixes mevlevi), o contexto em que esta dança está inserida e a descrição de seus movimentos, visto que, em determinado momento do espetáculo, temos de realizar um movimento giratório inspirado nesta dança.
No dia sete de maio, apresentamos parte do processo de montagem no evento “Imaginário Periférico” em Caxias e observamos a influência do espaço aberto, sem acústica e estrutura cênica, na receptividade do público.
Em junho, iniciamos outra atividade (duas vezes por semana), onde os bolsistas participam da organização de arquivos do projeto e da criação de bonecos mamulengo (concepção da estória, técnicas de manipulação...). Desta experiência, resultou uma oficina de construção de mamulengo, que está sendo ministrada na Uerj.
No dia 10 de novembro apresentamos o espetáculo “Todomundo” no hall do andar térreo da Uerj, no evento UERJ SEM MUROS.Estaremos no mês de dezembro concluindo a montagem de “KARAVANÇARAI” e nos apresentaremos nas dependências da UERJ durante três dias.
OFICINA DE CANTO
Continuamos o trabalho iniciado em 2003, trabalhando músicas voltadas para a montagem de CARAVANÇARAI. Unimos a preparação vocal individual e a harmonização das vozes com a experimentação de instrumentos, principalmente de percussão, que possibilitaram novas direções de interpretação das músicas trabalhadas. Com a inclusão de algumas delas no espetáculo, tivemos de fazer alterações de acordo com o que cada cena exigia e com os movimentos que deveríamos realizar. No mês de setembro deixamos de contar com a orientação da professora Ilana, que está de licença maternidade, e desde então, tentamos manter parte do trabalho criado, repassando as músicas que já foram trabalhadas.
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