quarta-feira, 7 de dezembro de 2011

Ludo Lopes / 2010

Nas primeiras etapas da oficina de Máscara expressiva, confesso não consegui enxergar uma possibilidade de sucesso no processo. Foi decidido queutilizaríamos bexigas como molde para as máscaras e, como as bexigas eram muito pequenas e compridas, me causou certo incômodo quanto ao formato da máscara.
Os primeiros momentos do processo das oficinas de máscaras sempre me pareceram como um pesadelo, embora eu tenha habilidades manuais para a confecção das mesmas; não tenho paciência para recortar papel em pequenos quadrados(quanto menos, melhor).
Depois, vem a parte de colar tais quadradinhos de papel sobre a bexiga, outro suplício, são várias camadas de papel colado que parecem nunca chegar ao fim. Nessa época, a disformidade e a falta de cor das máscaras me faziam duvidar de que tal processo iria dar em alguma coisa.
Quando começamos a pintar as máscaras, decidi por criar um personagem negro, daí surgiu a idéia de moldar e pintar um integrante de uma tribo aborígene australiana.Enquanto a máscara estava pintada de preto, não tinha expressividade alguma, mas já não mais parecia uma máscara disforme: começava a sinalizar um propósito, porém isso só ficou bem marcado quando pintei os grandes olhos, a boca vermelha e as pinturas características daqueles povos. Após colar o cabelo (um naco de palha de aço), a máscara me parecia bem mais viva e só então pude pensar em uma anamnése para ela e, pra mim, ela não poderia seguir outro caminho, qualquer que fosse.
Quando fizemos o “mercado de máscaras”, meio que a Célia juntamente conosco decidiu distribuir as máscaras, fiquei por demais induzido a pegar muito mais algumas máscaras do que outras, no entanto acabei ficando com uma das que eu menos gostaria de pegar. Isso por conta da dificuldade que eu imaginava ter quando tivesse que dar vida a ela. A máscara confeccionada pela Márcia Cazér me parecia, desde o início do processo uma das mais difíceis de capturar seu “espírito”.Senti uma dificuldade enorme em entender a máscara e liberá-la! É bem verdade que não gosto de máscaras. Sempre me sinto sufocado, tenho a impressão de que minha respiração está dando pra ser ouvida há metros de distância e, embora entenda a limitação de visão atrás da máscara, não consigo me acostumar.
Apesar de todos os contras, que partiram muito mais de mim do que de todo
o resto do processo, fiquei satisfeito. Embora tenha alguns problemas técnicos em relação ao uso da máscara, no geral acredito ter alcançado o objetivo da oficina.
Me surpreendi muito ao ver as uniões entra as máscaras em cenas criadas
pelos próprios atores. Percebi que toda a disformidade das máscaras haviam ficado pra trás e que era possível trazê-las à vida. Gostei muito de algumas cenas e fiquei surpreso com a expressão das máscaras. Senti falta de uma troca de máscaras entre os atores. Assim iríamos experimentar outras possibilidades.
A ideia de escrever sobre determinada prática teatral sempre me pareceu de certo modo
um contrasenso. O exercício do teatro para mim esteve sempre entre dois polos opostos
e ao mesmo tempo complementares: um, básico, de uma vivência física e sensorial muito
primitiva, e portanto aquém da linguagem; outro, indevassável e a que eu chamaria –
não sem certo horror e algum pudor – de transcendental, e portanto além da linguagem.
Anteriormente, diante da tarefa de ter escrever um diário de bordo acerca de uma
determinada montagem de leitura dramatizada, retive meu esforço em anotar a dinâmica
física mais evidente, limando toda a complexidade do que seria um esforço de tradução deuma percepção pessoal. Foram páginas e páginas de anotações praticamente mecânicas ecom poucos juízos de valor – ademais, desimportantes – aqui e ali situados. A experiência serviu somente para confirmar para mim que o fundamental, o que eu poderia perceber como teatro, de fato, não pode ser dito. Convidado algumas vezes, pela diretora, a retomar a atividade, sempre resisti em silêncio convicto. Não sei precisar exatamente por que, e nem diria que minha crença anterior em algum momento foi abalada, mas o início do processo de trabalho com máscaras pré expressivas e expressivas me deu certo desejo devoltar a tentar a tarefa – até prova contrária – impossível.
Na verdade, repassando mentalmente, tentando rememorar exatamente de onde vem esse
desejo de escrita, me encontro diante do desconforto inédito com uma máscara. O fato
de o processo de construção ter sido completamente novo – trabalhamos com jornal, ao
invés de utilizarmos papel machê, massa corrida, etc. como tínhamos feito com a máscaraneutra – tinha me feito sentir certo incômodo. E embora tenha deixado em alguns colegasa impressão de não ter gostado e de ter ficado insatisfeito, apenas me comportei da formacomo é comum à minha personalidade se comportar diante de novos desafios ligados ahabilidades manuais: com certa desconfiança e duvidoso das possibilidades de um resultado satisfatório. Todavia, ao fim do trabalho, fiquei surpreso em ver que fiz uma máscara que, se não se pode considerar um primor de execução técnica, era suficiente para queum trabalho fosse desenvolvido. Descobri isso compondo a sua anaminese a partir dassugestões de algumas de suas marcas físicas.
Não foi, entretanto, a máscara que fizemos que utilizamos. Na verdade, desde o
princípio sabíamos que essa seria a única opção vedada. A dinâmica do leilão de máscaraspossibilitou chances de escolha e de determinações do acaso. A que me coube foi umm isto de ambos, pois era a segunda na minha lista de preferências. Curiosamente, o que me incomodava nela era justamente a anaminese apresentada pela atriz que tinha confeccionado a máscara – remetia a uma mulher popular e absolutamente voltada para uma vivência festiva marcada pela alegria. Os tons roxos, fechados, da cor da máscara me sugeriram desde sempre algo mais sinistro. A diretora, para meu alívio, esclareceu que não necessariamente precisaríamos seguir o perfil delimitado previamente pelo autor.
O primeiro momento de contato confirmou minhas impressões iniciais: o tamanho do
rosto era absurdo, os olhos – feitos de barbante – assemelhavam-se a protuberâncias como olheiras sobrecarregadas de sono de modo antinatural. E aquela cor roxa com pintinhas cor lilás sobre as bochechas me sugeria qualquer coisa que estivesse no polo oposto do que consideramos um aspecto saudável. A simulação de cabelo verde na extremidade não chegou a me sugerir mais do que a lembrança de uma berinjela, e nem sei se levei muito isso em conta. Ao colocar a máscara, senti meu rosto se afundar como se estivesse me esforçando para banhar numa bacia sem água – boiava naquela imensidão que, pela largura do elástico, oscilava sem permitir que eu me aproximasse de sua superfície. Ao abrir os olhos e enxergar pelos dois pequenos furos – algo obstruídos pela malha utilizada para evitar o contato direto com a superfície, misto de jornal e cola – todas as vontades do mundo em mim silenciaram. A indolência que eu sentia não sabia dizer se vinha da máscara ou do modo como eu a percebera no contato visual e tátil com ela. Sei que era preciso abrir pouco os olhos, perceber o incômodo da luz que infiltrava a máscara,
ouvir a respiração aparentemente amplificada e só. Como se tudo que se quisesse dizer
fosse estou aqui em meu canto. Esse é meu canto. E só.
Talvez pela necessidade de obrigação do exercício, tentei explorar o espaço. Ficar em
pé, contudo, revelou-se impossível. Movimentar diversas partes do corpo ao mesmo
tempo não fazia sentido dentro da cadeia de sensações enredadas, de modo que fui
levado a proceder em partes: firmar apoio de um braço, outro, apoio de um pé, outro.
Fazer impulso. Não havia impulso, não o suficiente. E talvez aqui esteja o problema
fundamental de como escrever sobre teatro: o uso do corpo ao mesmo tempo em que é o
foco do trabalho – logo, o ator deve dominar uma gama de possibilidades de repertórios de movimentos, equilíbrios, etc. – não é jamais percebido da forma cotidiana porque o corpo aparece como algo que tem vontade própria. Claro que diversas funções corporais cotidianas nos aparecem como sendo impossíveis de serem abarcadas de modo completo pela nossa vontade (as funções fisiológicas, os desempenhos motores automáticos e os automatizados, as ações que estão no limiar entre o psíquico e o físico, como a ereção, o riso, o choro, etc.), figurando alguma resistência a nossa consciência. Todavia, poucas coisas são semelhantes à experiência de que o corpo tem uma vontade própria, melhor
dizendo, que o corpo tem ânimo próprio.

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