Rio de Janeiro, 25 de abril de 2013.
Processo Romeu e Julieta – Diário de Bordo I
Ontem foi o
terceiro dia de ensaio já com marcação de cena, todos reunidos e Romeu e
Julieta na perna-de-pau. Sinto como se fosse a primeira vez que monto um
espetáculo do zero e de certa forma é mesmo.
Tenho medo. Não estou no tom, mas ao mesmo
tempo começo a ver uma possibilidade de caminho. A necessidade de estudar é
mais latente do que nunca. Descobrir Shakespeare; fazer uma imersão em seu
tempo e ler outros de seus textos teatrais se tornou tão fundamental quanto
encontrar a postura; desenvolver a voz e pensar como Romeu.
Sinto um espécie de
responsabilidade em montar Romeu e Julieta e parece que carrego o peso de uma
bagagem que ainda não me é familiar. Preciso me relacionar mais com a história
de amor mais famosa do mundo. Ao mesmo tempo, preciso me descobrir como ator.
Desafiar-me, testar meus conhecimentos, perder meus medos do erro e do
ridículo.
Amar é ridículo e
aqui amo multiplamente. Amo ao Teatro, amo o fazer coletivo, amo atuar, amo o
amor e suas histórias. Agora penso que preciso assumir os riscos desse amor.
Encontrar o equilíbrio em meio a tanto desequilíbrio.
De ordem prática,
quero, no mínimo, aprender bem a perna-de-pau, entender melhor sobre a biografia
de Shakespeare e estudar mais o texto de Romeu e Julieta.
Tudo que posso
saber, falar sobre ou intuir é apenas meu ponto de vista. No teatro (e na vida)
não há verdades absolutas e nesse instante não estou em condições de enxergar
uma verdade com clareza a respeito do processo de montagem, do meu processo criativo.
Às vezes me acho num outro ritmo do grupo. Por vezes mais lento, por vezes mais
acelerado. A sensação de muita informação simultânea e pouco espaço interno
vazio para digerir, agir e decidir.
Andar de perna-de-pau, decorar texto, protagonizar, entender e montar
Shakespeare e cantar. Tudo isso parece a reunião dos maiores tabus do meu
processo artístico num só fazer teatral. Tem sido difícil, doloroso, mas
altamente edificante.
Já passei pela fase do desânimo, da vontade de desistir, de me achar
incapaz. Mas no “vai ou racha” ou decidi ir. Fui. Agora não vou e não quero
abandonar o navio nem nadar para morrer na praia. Só me resta tentar o meu
melhor!
Estudar. Tentar. Praticar. Insistir. Resistir. Amar, como eu e como
Romeu.
Saulo Gomes Rocha
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