segunda-feira, 27 de maio de 2013

Victor Ribeiro / 2013.1

18/04/13
Foi nossa segunda semana de trabalho focado em Romeu e Julieta. Nas semanas anteriores, trabalhamos alguns pontos de teoria, lendo um texto de um discípulo do Grotowski, mas tivemos de interromper o trabalho diversas vezes, seja por razões médicas, pessoais ou mesmo por feriados e feriadões esporádicos. Tenho a impressão de que passamos os primeiros meses de trabalho sem “engrenar” de verdade.
Senti nesse tempo muita falta de um trabalho de corpo. Ao retornarmos, todos nós notamos nossa dureza e imprecisão, causados pela falta de uma rotina de treinamentos. Reparamos que não trabalhávamos algo corporal desde há muito tempo, já que nosso trabalho se voltara para o Clown.
Nesse tempo, a falta de um espaço nosso nos desanimou. Como a sala de dança em que costumamos ficar estava em obras, sobrou-nos a sala 3 do Centro Cultural da UERJ, a qual apelidamos de “Sala da Nancy” por ser ela a suposta “dona” do lugar, já que ela foi quem conseguiu os recursos para sua construção.
Antes de começarmos o trabalho de fato, há algumas semanas fizemos uma seleção para os personagens. A partir de apresentações que preparáramos, ficou definido que Saulo seria Romeu, Pauline seria Julieta, Aline seria a Ama, eu seria o Corifeu e Márcia, Fernanda e Luiz, o coro. Foi a partir desses personagens que nosso trabalho se iniciou na semana passada.
Fomos orientados a trabalhar com formas (como em Arlequim) que nos remetessem a esses papéis. Construímos em média três formas, cada um, e demos um texto em gromelô. O pessoal da companhia apontou que eu me saíra muito bem. Eu mesmo me senti satisfeito com o trabalho que apresentei, pois ele saíra aparentemente do jeito que eu imaginava. E eu até tinha uma explicação para isso: o uso do gromelô. O que fiz, nesse trabalho, foi imaginar um pequeno texto (semelhante ao que já tinha lido de Romeu e Julieta) e improvisar o gromelô a partir disso. Essa estratégia guarda relação com textos que lemos há tempos, e que indicavam que improvisar de nada adianta sem que se tenha uma linha de estrutura. Ora, ao imaginar um texto, meu gromelô ganhava intenção (já que eu sabia o que  queria dizer), ritmo (já que não se tornava um monte de sílabas aleatórias) e uma estrutura fixa (útil caso eu precisasse repetir a improvisação. É claro que as palavras, se é que se pode chamar os sons que emiti de palavras, é claro que elas não seriam as mesmas. Mas a intenção seria a mesma, e isso fez toda a diferença.
As formas que criei também não eram de todo ruins. Guardavam alguma relação com o trabalho da Simone (o Corifeu da primeira montagem de Romeu), mas eu sentia que ainda tinham um toque meu. O único problema era não deixar esse toque se transformar num vício. O trabalho de ator é, antes de tudo, desconstruir. Tenho certeza de que tenho formas “clichê” no meu corpo, mas às vezes vejo isso até mesmo no pessoal da companhia. Não poucas vezes nós mesmos externamos isso. Luiz parece ter dificuldade em sair da Rainha de Alice; Marcinha, do Humpty Dumpty de Alice e do seu palhaço Pipi.
Ainda na semana passada, levamos o texto inicial de Romeu e Julieta decorado, e organizamos um esboço da entrada. Foi nesse momento que me deparei com minha primeira grande dificuldade: conjugar atuação e música no acordeão. Andar, tocar, cantar e olhar pareciam atividades de execução simultânea impossível. Célia me alertou para que eu “deixasse de ser músico e passasse a ser ator”. Lembrei-me da crítica que recebi, a mesma, exatamente, no momento do cortejo ao fim do trabalho com a perna-de-pau. Preciso atentar para esse ponto. Preciso tomar cuidado.
Repetimos e limpamos a estrutura nesta semana, e de um modo geral nos safamos, apesar de uma ou outra dificuldade (Aline não conseguia gritar do mesmo jeito da primeira vez, Saulo e Pauline ainda não conseguiam se manter na perna-de-pau, eu não conseguia repetir exatamente o que fizera nas primeiras vezes...). Ao menos meu treinamento caseiro valeu a pena: já conseguia me preocupar muito menos com tocar o acordeão do que com a atuação.
Hoje nos reunimos na sala da Célia, para discutir questões do texto, que teve acréscimos e mudanças. Nosso texto é escrito quase simultaneamente à construção. Embora conheçamos a peça e seu enredo (e seu final, é claro), estamos recebendo o texto a prestações. Ouvimos músicas do Quinteto Armorial, cantamos as cantigas “Se essa rua fosse minha” e “Alecrim” e ainda sugerimos outras músicas. Precisamos nos afastar de nossa fonte inspiradora, o Romeu e Julieta do Grupo Galpão. Sendo as músicas um dos pontos fortes do espetáculo, é nossa missão procurar uma trilha sonora que não remeta tanto ao trabalho daquele grupo, mas que também se relacione com nossa montagem. Preferencialmente, devemos procurar obras que não sejam tarifadas pelo ECAD, cuja função nos foi explicada hoje. Roubo violento.
Aproveitei um pouco do tempo para afinar com o Rodrigo (nosso mais novo músico, junto da Camila) a primeira música do espetáculo. Acho que vamos fazer um trabalho bonito. Talvez, se tivéssemos melhores cantores, criaríamos uma entrada mais forte. Mas será que isso será possível mesmo com atores que não cantam tão bem assim? A própria Célia falou: não somos cantores. Somos atores que estão usando a música para contar uma história. Isso é diferente.
Ao final do encontro, recebemos o texto modificado, enfim, e o lemos. Foi-me apontado que eu deveria também abandonar ao máximo a voz do último personagem que fiz (Paulo, em “Senhora dos afogados”), e que a fala, embora versificada, não deveria ser dita desta forma. Será um grande desafio para mim achar um bom ritmo para esse narrador.
Nossa palavra-chave é: subtexto. Precisamos dele para dar uma intenção boa para cada fala. E nosso subtexto mais imediato é o de que estamos contando uma história.
Há trabalho demais pela frente.

25/04
Por conta do feriado de São Jorge, não nos reunimos na segunda.
Hoje eu estava inspirado. À tarde, tinha lido toda a parte do relatório - melhor, tinha devorado toda a parte do relatório - do Galpão sobre a montagem de Romeu e Julieta. Havia tantas passagens que repercutiam em mim, sobretudo as que se relacionavam às dificuldades dos atores! Sei que não sou parâmetro de universalidade para nada, mas acabei acreditando (por ver espalhadas por atores tantas dificuldades que acredito serem as minhas) que são problemas de todos. Mas o que mais me chamou atenção foi a forma como o diretor, Gabriel Vilela, teria apontado esses problemas: medo. Medo de errar, medo de arriscar. “Enlouqueça, Inês!”, e parecia que ele estava gritando para mim. Às vezes acho que o teatro é isso: enlouquecer para não embrutecer na vida real. A Célia sempre diz que teatro não é terapia. Eu discordo. Não tem como não ser. Impossível não mexer no mais de dentro da gente e não achar que se faz algum bem - e algum mal, em alguma medida. Atentei também para as partes em que o Gabriel se direcionava ao ator que fazia o narrador da história, meu personagem na nossa montagem. Do que ficou, guardei o momento em que ele dizia que o narrador deve contar a história “como quem a conta aos amigos, na mesa do bar”. Junto dos conselhos da Célia (“não recite; conte”), acho que comecei a entender um pouco mais do meu corifeu.
Havia também tantas passagens bonitas sobre a compreensão do texto. Inicialmente, eu concordava com a Célia quando dizia que o Romeu era um adolescente idiota. Achava que, de fato, a precipitação dele e da Julieta eram uma grande bobagem e que os dois eram umas crianças. Talvez não sejam. Talvez o Romeu seja uma antítese do que a gente tem vivido, de um amor que não tem (e lá vem a palavra de novo): medo. Que se joga, se precipita. Todas essas reflexões, e mais alguns vídeos que vi do trabalho que pode ser feito em teatro, tudo isso me deixou muito animado. Fora o cansaço do dia, fui para o ensaio muito feliz. É bom estar feliz com o que se faz.
No ensaio, a Célia chegou um pouco atrasada, o que nos permitiu passar nossos textos e nos mexer um pouco para entrar no clima. Quando ela chegou, recebemos rapidamente as orientações do que fazer (deveríamos trabalhar individualmente ou em grupos nossos textos até então). Antes disso, ouvimos as músicas do baile e do Romeu.
Começamos o trabalho individual, mas ela pediu que passássemos o texto em grupo, para darmos as intenções dele antes de trabalhar o corpo. O resultado não foi como gostaríamos, mas ... passou. Nas palavras da própria Célia: “uma merda”. Por alguma razão, senti que não desanimamos, como geralmente acontece.
Ao trabalharmos o corpo, senti alguma dificuldade em associar a intenção do texto com o corpo. A falta do adereço que eu vou usar (o guarda-chuva), mas consegui encontrar algum caminho. O que preciso agora é adaptar o que fiz às novas realidades que forem se inserindo (adereços, mudanças, caminhares) e não perder o que já tenho. Essa deve ser a parte mais difícil do nosso trabalho: guardar.
Estou com medo (mais uma vez, o medo?) das responsabilidades que venho ganhando. Ao mesmo tempo, sinto-me confiante e preparado para assumi-las. Estou, junto com o Rodrigo, o estagiário-músico do grupo, encarregado da parte musical (ajudando a escolher músicas e tendo que aprendê-las e tocá-las ao vivo). Para se ter uma ideia, só entre o ensaio de hoje e o próximo tenho que aprender a cantar uma música, aprender a tocar uma outra e recuperar a prática com a escaleta. Isso sem contar decorar o texto, falá-lo com a intenção correta, cuidar da movimentação corporal, os três trabalhos nada fáceis. Mas é um trabalho bom. Há responsabilidades muito gostosas de se assumir.

Estou confiante, mas sem acreditar que serei perfeito. Não preciso ser perfeito; preciso ser louco o suficiente para encontrar caminhos interessantes e racional o bastante para me lembrar deles. Questão de manter a cabeça fria, aceitar os erros (e acolhê-los!), compreender as mudanças e incorporá-las o máximo o possível. Morrer pelo trabalho. Estou ansioso pelos próximos ensaios.

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