Ensaios do espetáculo KARAVANÇARAI
No começo de 2004, já havíamos recebido o texto do próximo espetáculo da Cia. NOSCONOSCO com os personagens também distribuídos para os atores. De maneira que esse relatório acaba sendo uma continuidade do anterior. O do ano de 2003 contém análise de dois anos do processo de montagem e sua pesquisa: o trabalho com o(s) objeto(s). O desse ano em questão deve, portanto, tratar mais da construção da montagem em si.
Foram três anos. Iniciou-se a proposta com exercícios baseados na estória grega de PÍRAMO E TISBE no final de 2001. Utilizei uma corda que não me trouxe grandes desafios além do "estar em cena". No ano de 2002, remontamos três espetáculos com substituições no elenco e a atenção do grupo se dividiu também com a leitura e experimentação sem aprofundamento de alguns pontos do livro O ATOR INVISÍVEL de Yoshi Oida. Ao final desse ano, retomamos o trabalho com o objeto. Em 2003, o foco foi todo para a proposta apresentada pelo professor Roberto Dória, que estaria afim com seu projeto de dissertação de mestrado. Levei para trabalhar um pano de malha verde, um marabu branco, um tecido brilhante preto, um spray d’água. Acabando por optar pelo primeiro para uma pesquisa mais constante. Com o segundo não pude me aprofundar e ele acabou sendo utilizado por outra colega de elenco, bem como o tecido brilhante preto aproveitado por outra atriz. O spray foi descartado por todos.
Intelectualmente me parece que todos entenderam a proposta. Deveríamos criar após a manipulação aleatória com o objeto uma "memória corporal" que nos renderia um repertório para compormos não necessariamente um personagem, mas um trabalho apresentável ao público (objetivo maior do teatro). Essa relação construída com o objeto deveria nos dar também o impulso inicial para alcançarmos um estado de prontidão para o repertório citado acima. Algo paralelo com o trabalho de máscara teatral ou meia máscara que fornece a quem a utiliza uma real preparação para a cena. Além da manipulação "empirística" com o objeto, outro ponto de partida foi a chamada "dança das articulações", que acompanha o aquecimento do grupo há muitos anos.
Quando pedido aos atores que escolhessem objetos de outras pessoas, "caiu em minhas mãos" um pequeno círculo azul feito de espuma. Da relação criada com esse objeto senti claramente a proposta apresentada teoricamente. Ou melhor, senti o que seria o começo desse trabalho. Essa relação me permitia encontrar em minha memória algo interessante para ser explorado cênicamente, porém devido à proposta do texto e seus "personagens" não pude seguir adiante nessa pesquisa. Acabei por me concentrar no pano verde mais pela questão do texto da peça e seus "personagens". Embora tenha começado a manipular também o marabu branco, ele não despertou o mesmo impulso primitivo que o pano verde ou o círculo de espuma. Se continuasse com ele, deveria pesquisar muito mais minha relação com esse objeto.
"Na turbulência não está o perigo, mas na estagnação e na indiferença."
Rachel de Queiroz
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