Do Projeto de Extensão
O presente projeto visa a desenvolver uma pesquisa cultural, no âmbito da linguagem teatral, a partir do aperfeiçoamento de técnicas e linguagens que possibilitem a ampliação da dramaturgia clássica adulta ao universo infantil.
A avaliação de projetos que tratam de textos dramatúrgicos, e portanto, necessitam ser experimentados não só na forma escrita como em uma vivência prática, depende da reação ao resultado concreto apresentado, o espetáculo teatral.
Nesse sentido, sustentamos que a adaptação de texto clássico adulto para a linguagem infantil obteve êxito, uma vez que os depoimentos apreendidos do público apontam nessa direção.
Em relação às atividades que envolveram a realização do espetáculo “As Artimanhas de Moliére” e às demais ramificações do projeto de extensão, as metas e objetivos propostos foram alcançados apesar dos obstáculos que representam a insuficiência de recursos financeiros e a limitação que impõe o espaço físico impróprio.
A minimização das dificuldades possibilitou promover a integração entre a UERJ e a comunidade externa, como podem ser extraído da avaliação específica das atividades. A sistematização e difusão do projeto ressaltam sua inegável relevância social.
Das Atividades
1) O Processo de Pesquisa e A Construção do Espetáculo “As Artimanhas de Molière”
A atividade experimental realizada nos diversos campos da atividade cênica teve como objetivo, preliminarmente, fazer a leitura objetiva e aprofundada da obra de Molière, ressaltando seus aspectos históricos, políticos e sociais, a fim de preservar todo o conteúdo crítico e o potencial satírico de sua dramaturgia..
Toda a pesquisa teórica dos textos de Molière e a busca das circunstâncias históricas que constituíram o arcabouço fático e moral de sua obra foram fundamentais para o trabalho de adaptação e encenação do espetáculo, na medida que permitiram uma releitura revestida de máxima fidelidade à essência de sua comédia.
Com efeito, desenvolveu-se o aprofundamento de questões relacionadas à comicidade e ao riso, a partir de trabalho teórico e prático, aliando a técnica clawnesca de ampliação da realidade em situações irônicas e sarcásticas e a técnica corporal desenvolvida com base na teoria da Antropologia Teatral, direcionada para o alcance da presença e do domínio do espaço cênico; através de exercícios envolvendo equilíbrio precário, movimentos extra-cotidianos e precisão gestual.
Esse trabalho integrado permitiu a construção de personagens e de cenas, tendo em mente o direcionamento do processo para a linguagem infantil, incorporando às situações dramáticas, ações e reações facilmente identificáveis pelo imaginário da criança.
Isso ficou plenamente perceptível na resposta do público infantil, durante as apresentações do espetáculo, que puderam alcançar todo o potencial cômico do texto escrito e não escrito, reagindo ativamente às situações, demonstrando além do interesse no que era assistido, sensações antevistas em diversas ações, tais como riso, satisfação, aversão e compaixão.
Paralelamente, pretendeu-se desenvolver o lado criativo e artístico dos atores/aderecistas na confecção de adereços que recriassem os arquétipos presentes no teatro de Molière.
Para tal, foi utilizado materiais alternativos e reciclados na confecção de adereços cênicos, tais como máscaras representativas dos Comediantes do Rei do século XVII; chapéus, bolsas, sapatos e acessórios das personagens de época; malas detalhadamente construídas, representativas das características pessoais e da trajetória de trabalho de cada ator; tecidos pintados a mão para a feitura de capas; candelabros de madeira; velas e baús utilizados na encenação; além do adereçamento dos próprios figurinos concebidos.
Essa experiência complementar à encenação do espetáculo propiciou a consolidação do suporte estético do texto, além de ser de suma importância para o alcance do objetivo principal do projeto na adaptação da dramaturgia adulta para a linguagem infantil, pois esta se compõe não só pelo texto escrito, mas por toda composição audiovisual que lhe anima.
Os resultados obtidos em relação à construção do espetáculo “As Artimanhas de Molière” foram, portanto, plenamente satisfatórios, tendo sido alcançados os objetivos propostos pelo Projeto de Extensão, não só ao que se refere à perfeita adequação da dramaturgia clássica à linguagem infantil, perceptível principalmente pela resposta do público no momento da realização do espetáculo; pelos depoimentos apreendidos mediante registros fonográficos ; e pelos trabalhos de avaliação posteriormente realizados com os alunos do Colégio de Aplicação da UERJ.
Ressalta-se, assim, que o projeto tem conteúdo interdisciplinar, abarcando as áreas de Artes, História, Comunicação, direcionadas à educação e ao ensino. Além disso, a composição da equipe inclui duas atrizes formadas pela Uni Rio e uma aluna da Universidade Federal Fluminense, o que evidencia a integração entre universidades.
3) Divulgação do Espetáculo através de Convênio com as Empresas e Escolas
A divulgação do espetáculo em questão objetivou torná-lo mais acessível ao público em geral e à comunidade, através da celebração de convênios com empresas e escolas.
Os convênios com as empresas credenciadas ao teatro SESI e com escolas selecionadas em suas proximidades consistiam na entrega da proposta de convênio e do material de divulgação, contendo convites e cartazes e panfletos.
No que diz respeito a esses métodos de divulgação, precisamente quanto à celebração de convênios com as empresas, podem ser apontadas possíveis causas do afastamento dos resultados em relação àquilo que era esperado.
A mais evidente é, sem dúvida, a constatação de que mais de 50% das empresas contatadas por telefone sequer apresentaram interesse em receber o material de divulgação e a proposta de convênio. Essa realidade denota a falta de interesse: de um lado, das Empresas, em promover acordos e convênios que ampliem e enriqueçam a formação cultural de seus funcionários e contribuam para capacitação profissional dos mesmos, na medida em que desenvolvem a criatividade o raciocínio crítico; e de outro, dos próprios funcionários, por não aproveitarem as restritas oportunidades a que têm acesso, conseqüência da pouca informação e da desvalorização da atividade teatral nas sociedade brasileira. Essa situação preocupante pode ser sintetizada na resposta constantemente obtida dos contatos firmados “Peão não vai ao teatro”.
Soma-se a esse quadro o fato de pouquíssimas empresas terem associação de funcionários ou um órgão destinado a defender os seus interesses, prescindindo o local de trabalho, na maioria das vezes, de um meio de veiculação de informações, tais como jornais internos, boletins e murais informativos, o que inviabiliza a divulgação de eventos sociais e cultuais.
Finalmente, o trabalho de divulgação centrado na entrega de material nas escolas obteve um resultado abaixo da expectativa, ressaltado pelo pouco retorno dos panfletos de descontos distribuídos, o que demonstra a falta de iniciativas da maioria das escolas de incluírem em seu projeto educacional atividades extracurriculares que despertem o interesse dos alunos para os movimentos artísticos que contribuem tanto para a formação intelectual quanto a social.
Exceção se faz às unidades acadêmicas do colégio Pedro II, e às escolas em que os próprios atores têm atuação direta, como profissionais, ou indireta, que adotam tal atividade (ir ao teatro) como complemento pedagógico e cultural.
4) Atividades teatrais oferecidas à Comunidade
A partir da experiência prática dos atores da Companhia Teatral Nosconosco, abriram-se, ainda, outras frentes de pesquisa relacionadas diretamente à comunidade. tais como o oferecimento da Oficina de Bonecos- O Mundo Mamulengo, tendo por fim a construção e manipulação do mamulengo, elemento típico da cultura popular brasileira; e o monitoramento do Curso de Iniciação ao Teatro, como forma de despertar o interesse comunitário pelo Teatro e proporcionar a formação de novos atores.
4.1) Monitoramento do Curso de Iniciação ao Teatro
A atividade consiste na participação dos alunos/atores/bolsistas no curso de teatro, observando e colaborando no desenvolvimento dos exercícios teatrais propostos, a fim de fomentar o interesse dos alunos e explicitar os objetivos a serem alcançados, utilizando-se da experiência prática e teórica adquirida no incentivo ao jogo cênico.
Dessa positiva interação com a comunidade foi possível a difusão de conhecimentos produzidos pela Companhia Teatral Nosconosco ao longo de sua trajetória, principalmente extraídos dos projetos de pesquisa e investigação engendrados e das experiências interpessoais deles decorrentes.
Nessa busca por difundir um conhecimento amplo de todas as fases de montagem do espetáculo teatral, direcionou-se o trabalho para a realização da peça “A História de Todomundo” extraído de um texto da Idade Média, fazendo uma incursão no folclore nacional, especificamente Folia de Reis e Pastoreio. A partir de então, foram atribuídas aos alunos/atores/bolsistas as funções de Assistente de Direção, Orientação Musical e Sonorização. Isto representou para os bolsistas ampliação de suas capacidades profissionais no que se refere a orientação direta quanto à representação e composição das características próprias de cada personagens.
4.2) Oficina de Bonecos- O Mundo Mamulengo
A oficina de bonecos, oferecida gratuitamente à comunidade pelos alunos/atores/bolsistas é a concretização da vontade de estender o trabalho da Companhia Teatral Nosconosco, aumentando seu campo de atuação e diversificando seu público alvo com a importante tarefa de reviver a cultura popular por meio de uma das mais antigas formas de representação do humano, o teatro de bonecos.
Para essa finalidade, aprofundou-se a pesquisa sobre o boneco., que é o termo usado para designar um objeto, que representando a figura humana, ou animal, é dramaticamente animado diante do público. Optou-se, então, pelo mamulengo, nome dado ao teatro de bonecos em Pernambuco, uma brincadeira com mão molenga, por poder ser apresentado em qualquer parte, desde os salões da realeza até as feiras e casas mais pobres, o mamulengo é para todos, sem distinção de idade, credo religioso ou classe social. Sério ou cômico, paródia ou símbolo, concreto ou abstrato, o boneco é uma analogia. É o reflexo do homem.
Aliado a isso, a origem do interesse despertado se funda na dramaturgia específica desse tipo de teatro, uma vez que as histórias feitas com mamulengos são quase sempre improvisadas a partir de temas da tradição oral, na forma de enredos curtos, também denominados passagens, que vão tomando forma na mão do mestre durante o espetáculo. Os temas das histórias recordam o cotidiano: são situações pitorescas, namoros, brigas, traições, confusões políticas, furtos, conflitos com autoridades, disputas de terra, bailes, nascimento de crianças, assombrações, duelos com bichos, desafios de cantoria.
A experiência foi estimulante pelo diálogo de inventividade e por ter sido atingido o resultado pretendido de ampliar a imaginação, valorizar o trabalho em grupo, desenvolver a coordenação motora e valorizar a reutilização de diversos materiais. Além disso a participação dos usuários foi intensa, pois os ingredientes são de forte apelo popular, e de fácil assimilação. É um estilo de teatro muito espontâneo e ativador do processo criativo.
6) Participação em Eventos
6.1) 53ª Reunião Anual da SBPC
A participação na SBPC abrangeu a apresentação do espetáculo “As Artimanhas de Moliére” e da palestra “. Nota-se que a precariedade da organização do evento constituiu um obstáculo a um melhor aproveitamento das atividades, já que as unidades da UFBA destinadas a este fim eram distantes e a divulgação dos eventos, deficiente.
Esse fato gerou uma situação contraproducente, já que o público da palestra sobre o espetáculo era diverso daquele que o assistiu, participando, com isso, da discussão sobre um objeto do qual desconheciam. A respeito disso, alguns atores fizeram algumas pequenas demonstrações de suas atuações nas cenas. De todo modo, o nível de interesse no projeto de extensão e no processo de desenvolvimento de uma linguagem corporal própria da Companhia Teatral Nosconosco foi surpreendente, acontecendo, inclusive, entusiasmadas troca de relatos e propostas de levar o espetáculo a outros estados e universidades brasileiros. Aliás, a interação entre acadêmicos foi o aspecto de maior relevância na Reunião da SBPC.
A iniciativa da UERJ em apoiar programas e eventos que contribuam com o aprofundamento e diversificação do conhecimento científico é extremamente importante e louvável.
6.2) 8º Festival de Teatro do Rio
O espetáculo “As Artimanhas de Moliére” foi selecionado, dentre inúmeros outros de todo Brasil, a participar da mostra competitiva. A apresentação foi muito aplaudida e elogiada e no debate realizado, o grupo pode expor parte do caminho trilhado em seu processo de pesquisa e construção da peça. Na Premiação, onde estiveram presentes personalidades do cenário teatral, inclusive o homenageado da 8ª edição do Festival, o espetáculo recebeu a indicação de melhor iluminação. Não foi, no entanto, premiado nesta e em outras categorias visivelmente por não se adequar ao padrão preestabelecido e privilegiado pela comissão julgadora, tanto no que se refere ao potencial comercial quanto à valorizada linguagem naturalista.
6.3) UERJ sem Muros e Mostra de Extensão
A reunião dos eventos UERJ sem Muros e Mostra de extensão na mesma ocasião nesse ano de 2001 ficou aquém da expectativa, notadamente pela organização e divulgação deficientes. A apresentação do Projeto de Extensão ao invés de proporcionar aos escassos ouvintes uma compreensão integral da pesquisa e das atividades desenvolvidas, mais se assemelhou à uma avaliação oral dirigida exclusivamente aos orientadores pela mesa examinadora.
7) Pesquisas atuais : O Teatro Antigo; O Corpo e o Movimento e O teatro Brasileiro.
No segundo semestre de 2001 foram iniciadas três frentes de pesquisa. Uma delas é o Teatro Antigo, principalmente as Antiga e Nova Comédias Gregas, cujos principais representantes foram Aristófanes e Menandro e a Comédia Romana, que teve Plauto como seu maior expoente. Esse estudo visa a aprofundar o conhecimendo da comicidade e do riso em suas origens, dando continuidade a esse enfoque, já presente em Moliére.
Outra frente de pesquisa é O Corpo e O Movimento que é, para a Companhia, fundamental ao aperfeiçoamento das técnicas do ator, no que tange a consciência de seu corpo, de suas possibilidades de movimento e de sua expressão, conferindo maior habilidade e precisão do gesto e da linguagem.
Por fim , O Teatro Brasileiro, que surgiu da própria necessidade recorrente da Companhia de identificação com o elemento nacional, desde do estudos anteriores sobre folclore até o a atual busca pelo texto e por formas genuinamente brasileiras de representação. Chegou-se à Comédia de Arthur Azevedo, o Teatro de Revista e a Geração Trianom como temas que despertam maior interesse.
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O trabalho de pesquisa no qual se baseia a Companhia Teatral Nosconosco para a construção de seus espetáculos, o aperfeiçoamento dos seus atores, a transmissão do conhecimento adquirido, através de eventos e atividades nos quais participam a comunidade, é o centro gerador da existência e do engrandecimento de nosso objetivo de fazer teatro de qualidade no Brasil. Portanto, o apoio de instituições como a UERJ é indispensável para que projetos de extensão como este, de relevante interesse social, se concretizem.
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