Assim que recebemos a proposta do novo espetáculo da companhia, a aceitei de bom grado. Experimentaríamos algo nunca trabalhado com os atores da NOSCONOSCO e faríamos nosso "primeiro adulto". Embora a proposta do grupo tenha sido sempre a de um teatro para todas as idades.
Apesar da aparente e pequena contradição dessa proposta, achei uma conseqüência quase natural após tantos anos de trabalho. Seria um desafio e como tal, não combinaria com respostas fáceis ou orientações não definidas.
Aceitei de bom grado, pois vislumbrei que ali se aprofundaria mais no ofício do ator e sua pesquisa, corroborando a simples e fantástica frase de Etienne Decroux: "O teatro é a arte do ator.". Esse desejo de se aproximar de trabalhos mais consistentes de técnica de interpretação muito me animou. Meyerhold, Decroux, Grotowski, Lume, Barba. Ou seja, amantes do trabalho do ator. Mergulharíamos nesse universo respaldados nas pesquisas anteriores de grandes mestres.
Fui com gana e vontade, porém não encontrei o espaço aberto para continuar a exploração, já que o ator carece de um olho (quando está se preparando) que o oriente, que aponte caminhos perceptivos e não somente de observador-crítico. Já que dizer que está belo ou horrível não ajuda na busca do ator. O que me remete às palavras de Luis Otavio Burnier: "Trabalhar um ator é, sobretudo e antes de mais nada, preparar seu corpo não para que ele diga, mas para que ele permita dizer. Não mostrar o que ele é, mas revelar o que, por meio dele, se descobre ser.".
O "fim", portanto, não me satisfez. Nunca me senti sem estímulo no fazer teatral. Primeira vez que tive que buscá-lo nas relações de respeito mútuo estabelecido durante anos de parceria e não no trabalho em si. Houve um desânimo visível não só da minha parte. Seria um trabalho visceral e não o sendo , se tornou maçante, castrador. Sem maior desenvolvimento, como se a orientação não nos pudesse levar mais longe. Tanto os mais experientes quanto os menos.
Foi colocado que seria um trabalho de "máscara corporal". Não senti isso. O trabalho de máscara requer um olho de fora que indica caminhos claros e precisos, estimulante, não-castrador. Uma mão que faz mais do que apontar, ela praticamente conduz o que o interior rico do ator tem a colocar pra fora. Obviamente que se dentro não houver coisas muitas, não se poderá muito tirar. Mas uma boa direção de máscaras teatrais sempre sabe tirar o máximo mesmo dentro desse pouco.
O teatro cada vez mais é espaço não de amadores, mas de amantes. Resgatando a etimologia de "amar". Somos amadores por que amamos o que fazemos. Devemos ser profissionais no empenho para sobrevivermos em nosso ofício. Não ganhamos dinheiro, ao contrário, o gastamos para estar ali. Nosso combustível é o prazer. E este andou em falta.
Lembro-me novamente de Decroux que começou sua pesquisa com algo muito simples. Mas nem por isso menos profundo. Ele sempre dizia aos seus alunos para não buscarem a originalidade. Querer ser diferente ou original, achar tudo que está aí "mesmice" não nos leva muito longe. Ser um bom pai, por exemplo, não é uma idéia original. Mas tentar sê-lo exige um esforço enorme. Não sacrificante, não desatrelado ao prazer. Mas exigente.
Na minha estada na companhia jamais me senti fazendo "mesmice". Esse nosso passeio por algo que se pretendia "original" me faz lembrar a viagem dos pássaros que saem de onde estão para se encontrarem justamente no mesmo lugar: dentro deles. Exemplos não faltam dessa estória: O ALQUIMISTA de Paulo Coelho, um simples parágrafo de Clarice Lispector em LEGIÃO ESTRANGEIRA resume esse conto, O PÁSSARO AZUL procurado por Shirley Temple é o que mora em seu jardim e para ser bem atual o ponto de chegada de O CÓDIGO DA VINCI é o ponto de partida. Minha sensação é que nos juntamos a uma legião: saímos, pesquisamos, para descobrir que já tínhamos algo bem original.
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