quarta-feira, 23 de janeiro de 2013

Victor Ribeiro / 2012


Relatório de experiência
Oficina de perna de pau
“Fazer da queda um passo de dança, do medo uma escada (...)”
(Fernando Sabino)

Talvez tenha sido nossa experiência mais metafórica ao longo da aventura da Nosconosco. Digo metafórica porque aprendemos uma série de lições no ar que levamos e quisemos levar para a vida em terra firme. Já no início das aulas eu previ isso, de alguma forma. Lembro-me de dizer aos colegas ao descer da perna pela primeira vez: agora parece que eu sou outro. Ao fim do processo, tive a certeza de que eu era outro, assim como eram outros os meus colegas, alguns já mais cheios de coragem, outros já menos cheios de medo. Mas é melhor recomeçar esse relato do início, mesmo que as coisas venham, meses depois, um pouco em desordem.
Foi com grande empolgação que soubemos da ideia de fazermos oficinas diversas durante o tempo em que a Célia estaria ocupada no Proiniciar. Queríamos tudo: dança, circo, teatro, novas experiências, novos rostos, outros caminhos. A notícia de que começaríamos uma oficina de perna de pau não foi bem recebida por todos. Eu, particularmente, adorei. Tenho predileção por qualquer coisa ligada a circo, e, apesar do jeito travado, ainda acho que tenho vontade de arriscar. Outros, porém, assumiram o próprio temor. Mas seria inevitável.
Uma semana antes do começo da oficina, uma notícia ruim: a Luana deixaria o grupo. Mesmo assim, a Célia sugeriu que ela ao menos fizesse a oficina com os membros restantes. Ela aceitou e, por isso, sua falta não foi sentida de forma tão forte quanto a dos outros, muito embora lembrássemos de vez em quando que ela não estaria conosco no ano seguinte.
Começamos as aulas. Os professores em princípio seriam dois argentinos. Um deles eu já conhecia da época em que frequentei o hoje extinto Centro Integrado de Circo, na Fundição Progresso. Fizemos um bom aquecimento e subimos na perna, quatro por vez.
O primeiro movimento básico era o de levantar as pernas. Ficamos segurando uma pilastra, apenas treinando o movimento. Saulo e Pauline, mais abusados, conseguiram se apoiar na corda de segurança que os professores trouxeram, e o Saulo já conseguia andar poucos passos sozinho. Só consegui ir para a corda nos últimos momentos, mas mesmo assim considerei um grande avanço.
No segundo encontro, apenas um professor estava presente, o Eugênio. Não teríamos corda também, pois ele não sabia como montar o equipamento. Estranhamos, assim como estranhamos o alongamento excessivamente longo que ele deu. Mas aceitamos, e logo depois estávamos na perna. Fizemos avanços, mas foi somente na terceira aula que senti que engatei no andar e tive minha evolução mais proeminente, graças a uma dica do Saulo.
O segredo era não ter medo de cair. Assim sendo, experimentei me jogar uma vez. Isso fez uma enorme diferença. Sabendo que não haveria maiores perigos na queda - afinal eu tinha uma joelheira me protegendo - foi muito mais fácil arriscar. Aliás, essa é a grande palavra da perna de pau, ao menos quando se está aprendendo: arriscar. O aprendizado fica muito mais fácil quando você mesmo impõe seus objetivos, como por exemplo: hoje vou andar sem a corda, hoje vou andar para trás, hoje vou sambar, hoje vou brincar.
Além disso, a segunda dica para um bom aprendizado na perna eu descobri por mim mesmo: ritmo. Cantar uma música de ritmo marcado nos ajudava, e muito, a manter o equilíbrio. Incontáveis as vezes que repetimos “Marcha, Soldado”. É claro que, com um pouco mais de segurança, já cantávamos e brincávamos com músicas diferentes. Até dançávamos funk!
Ao longo das aulas, que foram todas ministradas apenas pelo Eugênio, os desafios autoimpostos foram aumentando. Talvez o maior deles tenha sido descer as escadas. Ainda assim, a dica valia de forma igual: era preciso arriscar. E foi assim que as evoluções foram acontecendo. Até mesmo os que tinham mais medo andaram - fiquei tão orgulhoso de ver Aline e Fernanda se equilibrando sozinhas!
Houve um momento em que pensamos que o Eugênio já não era mais tão necessário. Embora ele fosse um bom apoiador, já tínhamos desenvolvido alguma autonomia, e ele já não nos ensinava nada de novo. Aparentemente, o que tínhamos de aprender viria de nós mesmos, a partir da necessidade. Um bom exemplo disso é que aprendemos a sambar, a brincar de dançar outros ritmos, a nos equilibrar (ainda mal, devido à falta de treino) numa perna só...
No último dia, o desafio final. Ora, se passamos por toda a oficina visando ao teatro, seria impossível terminá-la sem se dedicar minimamente a ele. A missão: decorar um pequeníssimo texto, de livre escolha, dentro da peça Romeu e Julieta e declamá-lo sobre a perna. Meu desafio seria um pouco maior: além disso, eu deveria tocar acordeão!
Escolhemos adereços e tivemos dois dias para decorar os trechos.
Foi quase um desastre, apesar da Célia dizer que havia alguma coisa no que foi feito.
Fizemos um cortejo com pessoas sobre a perna e fora dela, em revezamento. Segundo a Célia, ainda nos sentíamos demasiadamente inseguros para dar um texto. Os que se saíram melhor dentre nós foram Fernanda e Saulo. Vale destacar a coragem da Aline, que, ainda que insegura, se soltou do seu acompanhante e deu seu texto. Foi uma vitória pessoal para ela.
Meu problema apontado foi a falta de intenção. Aparentemente, acabei cotidiano demais dando a fala: “Um músico”, nas palavras da Célia.
Sentimos falta de mais tempo para andar e explorar nossas possibilidades. Penso que o tempo que não praticamos nessas férias nos fará falta, mesmo que a perna seja como a bicicleta.
Ao fim da oficina, eu já podia me dizer seguro sobre a perna. Consegui tocar, consegui dar algum texto e consegui ficar parado (o que mais conseguiu fazê-lo, segundo a Célia). De tudo, fica a vontade de sempre continuar nos ares, e, mais ainda, a relação que criamos com nossos próprios medos. Olhados de cima, eles já nem pareciam tão grandes assim.

Victor Ribeiro / 2012


Foi aproximadamente na metade de 2012 que recebemos a notícia: ensaiaríamos uma peça dirigida por um de nós. Lembro-me agora com alguma dificuldade das palavras de Célia: “A Nosconosco sempre se propôs a ser uma escola de formação de atores que transitassem entre diversos ramos do teatro - inclusive a direção. É por essa razão que, conversando com o Roberto, decidi permitir ao Lucas dirigir uma leitura dramatizada com vocês”.
Não era a primeira vez. Soubemos que, havia alguns anos, a mesma tentativa fora feita, sem sucesso, com o Bruno Bessa, que assinaria a direção de A Capital Federal, de Artur Azevedo. Célia nos informou que, no meio do caminho, Bruno desistira, e ela precisou tomar as rédeas do trabalho. O que seria feito agora era uma nova aposta alta. Tendo em vista a longa carreira do Lucas na companhia, 10 anos, ela decidira dar-lhe essa chance, essa prova de confiança.
Ficamos todos empolgados. O texto seria de escolha livre, então tudo podia acontecer. O que sairia daquela cabeça? Que tipo de texto leríamos? Iríamos gostar dele? Seria chato? Bom? Como era o Lucas como diretor? Em todo caso, seria uma maneira de nos dedicarmos a outros projetos que não o teatro para crianças, como é a tradição da companhia.
Na semana seguinte, soubemos: em virtude do ano de Nelson Rodrigues, o texto que faríamos seria “Senhora dos Afogados’. Nossa primeira missão era ler o texto e procurar o que fosse necessário sobre a vida do autor - enfim, deveríamos nos informar sobre o terreno em que estávamos pisando.
Outra surpresa boa nos aguardava: Célia informou que estaria disposta a trabalhar junto conosco, atuando. As novidades eram deliciosamente animadoras.
Fomos informados de que, como na Capital, o trabalho de leitura dramatizada, para que tivesse a cara da Nosconosco, não se restringiria a uma leitura fria: haveria figurino, cenário, movimentação, sonorização. O trabalho prometia.
Chegamos ao dia da leitura com o texto , ansiosos para ouvir as vozes que sairiam do papel. Todos ficamos surpresos com a leitura da Avó pela Célia, e tivemos a certeza de que, ao menos um papel estaria definido.
Foi logo na primeira leitura que imaginei que a mim caberia o papel de Paulo. Havia três homens na peça: o pai, o noivo, e o filho. Por questões de biótipo e de voz, bem como o perfil do próprio personagem - um jovem entre 16 e 18 anos -, não me surpreendi quando recebi o papel. Era o começo de um desafio, como em qualquer experiência teatral.
Nosso processo de trabalho se daria da seguinte forma: começaríamos montando cena por cena, criando vozes e montando uma espécie de sonoridade para os personagens, bem como a sonorização de cada cena, da qual se encarregaria o grupo que não estivesse em cena.
Cada um deveria buscar a própria musicalidade de seu personagem. Lembro-me bem do conselho do Lucas: o Paulo deve ter uma voz melodiosa, afastada, como se não vivesse nesse mundo. Foi um ponto de partida - problemático para mim, mas ainda assim um ponto.
À medida que líamos, as dificuldades surgiam. Tivemos diversos problemas de desatenção e dispersão - algo sempre reclamado pela Célia. Por vezes o trabalho se tornava maçante devido ao excesso de voltas e repetições por conta de erros bobos: via-se isso nos olhos de cada um de nós. Somou-se a isso nossa falta de espaço: ensaiar a leitura na sala do programa era extremamente ruim para um grupo acostumado com a sala de dança. Mais para frente, a necessidade de um espaço maior nos levou a ensaiarmos no hall do décimo andar, durante a greve, o que também nos cansava em excesso por conta das dispersões e da acústica horrorosa.
O primeiro momento crítico se deu com a saída da Luíza, a quem inicialmente fora atribuído o papel da personagem principal da peça, Moema. Sua saída catalisou diversas alterações, as quais também nos atordoaram no começo, mas com as quais aprendemos a lidar: Célia se retirou igualmente da peça e o coro outrora imaginado foi reduzido para duas vizinhas - que se saíram, aliás, bastante bem no que se propuseram a fazer, sobretudo a Fernanda, que me surpreendeu positivamente. Foi Luana quem se tornou Moema.
A pouco menos de dois meses de nossa (única) apresentação, ainda não tínhamos o espetáculo pronto. Quando chegamos à etapa de movimentação, as dificuldades aumentaram. Se já era difícil para nós deixar constante nossa voz para um personagem (numerosas foram as vezes que Célia e Lucas apontaram que nos perdíamos na leitura e voltávamos a ter uma voz cotidiana), o problema se agravou quando precisamos nos mexer e nos posicionar.
Houve um momento em que nos encontrávamos desanimados, parecendo querer desistir. O resultado não parecia bom o bastante.
Insistir, nesse momento, foi essencial. Nessa etapa, frequentemente me lembrava de um antigo grupo em que participara, e cujo resultado fora nulo devido à falta de cara-de-pau dos integrantes de ter fé no próprio trabalho. Caio Fenando Abreu diz: “Tem coisa mais autodestrutiva do que insistir sem fé nenhuma?”. Eu respondia, em segredo: tem sim - não querer encontrar a própria fé. No meu íntimo, ir até o cabo do processo era uma questão de orgulho.
A uma semana da apresentação, na Semana de Nelson Rodrigues da COARTE, UERJ, experimentando os figurinos e a incluindo da trilha sonora a ser tocada no acordeon (escolhida por nós através de canções de Dorival Caymmi), nosso ânimo foi renovado: algo de bom sairia dali! Éramos capazes, de fato, de produzir algo interessante!
Foi também nessa época que ouvi do Lucas coisas que pretendo guardar comigo para sempre, um novo entendimento do que seja o teatro e o ensaio: “Ensaiar não é fazer tudo certinho, sempre. É criar também seu próprio repertório de improviso para o caso de imprevistos”; e ainda, “Façam tudo com o coração leve. A tragédia não deve ter o coração pesado”.
No dia da apresentação, estresse habitual, acrescido de reclamações de falta de organização na divisão do trabalho. Por não nos organizarmos direito, acabamos sem tempo de comer, e mesmo de nos arrumarmos, o que ampliou nosso nervosismo.
O espaço de apresentação era limitado. Todos concordamos que o trabalho ficaria muito mais interessante se apresentado num palco, e não numa sala. Descaracterizamos o máximo que pudemos o espaço - criando uma ambientação até interessante - e nos jogamos.
Ao fim, não penso que tenhamos feito um mau trabalho.Tivemos, eu e Luana, até mesmo oportunidade de por em prática uma improvisação por conta de um erro grotesco nosso de marcação, que acabou passando sem problemas. Saímos todos satisfeitos, e isso já é um grande passo, se considerarmos nosso estado de desânimo na metade do processo. Ouvimos elogios de pessoas próximas, de pessoas não tão próximas, e até mesmo de outras, surpresas por não esperarem esse tipo de trabalho adulto no seio da Nosconosco.
Queríamos mais. Queríamos mais tempo para ensaiar, mais tempo para criar, para nos prepararmos. Queríamos um teatro para apresentar. Queríamos iluminação.
Infelizmente, nossas ambições foram frustradas com a saída do Lucas, semanas depois do término do trabalho.
Ainda assim, penso que ao menos teremos uma boa recordação de uma experiência nova e, no fim, animadora. Conseguimos começar e terminar um processo, quase sozinhos; e isso valeu tudo.

Aline Deyques / 2012


Leitura dramatizada de “Senhora dos Afogados”

Depois da experiência “Clowns Bailarinos” surge como proposta a peça “Senhora dos Afogados”, o que particularmente achei muito bom, pois gosto de Nelson Rodrigues, e já havia tido uma experiência com o texto de Nelson em uma outra companhia de teatro que fiz parte, mas nunca consegui apresentar devido a desorganização da companhia.
Gostei desde o início das propostas sugeridas e também achei muito legal estar sendo dirigida pelo Lucas, tendo a supervisão da Célia. O Lucas sempre foi um companheiro de grupo e muito amigo de todos nós.
Talvez a questão de termos a imagem dele como amigo tenha atrapalhado um pouco no andamento, devido às conversasse piadas, mas, no entanto, mesmo com todos os contratempos, conseguimos terminar o trabalho.
Bom voltando à questão da peça, foi muito bom ter feito a personagem Dona Eduarda, gostei muito, além de outros momentos muito interessantes da montagem como, por exemplo: às criações de cena, de voz na leitura e a introdução dos instrumentos.
Era muito divertido fazer isso e também assim como em “Clowns Bailarinos”, acredito que devido a esses momentos nós crescemos como grupo e como atores e atrizes, claro que ainda a minha percepção musical é horrível, mas devido a isso, aprendi a prestar mais atenção em instrumentos e seus sons e a controlar um ritmo para poder dar a fala.
            Fazer “Senhora dos Afogados”, como tudo que tenho feito na Nosconosco, me trouxe mais uma vez uma maturidade como atriz e uma experiência nova que vai ficar sempre marcada, desde os problemas tidos como a conquista de apresentar a peça, foi muito bom e de todos os trabalhos foi o que mais me senti a vontade fazendo, talvez por já ter tido a experiência anterior na outra companhia da qual fazia parte.

Victor Ribeiro / 2012


Relato de experiência de duas apresentações de Clown
(Congonhas do Campo, MG e Teatro Odylo Costa, filho, RJ)
“Meu rosto está
maquiado, limpo de
toda singularidade,
tornado vazio
para refletir
os pensamentos
agora mutáveis
como voz e gesto”
(Bertolt Brecht)

PROFESTeatro

Para muitos de nós, era a primeira viagem no seio de uma companhia. À exceção de Lucas, Márcia, Luiz e Luiza, os atores que fizeram Alice em Ponta Grossa, não havíamos experimentado a sensação de atuar em um festival.
As condições eram adversas. A peça estava ainda sem um final definido e, por diversos problemas, não conseguíamos montá-lo. Seria praticamente uma estreia, já que nossa última apresentação de “Os clowns bailarinos” não passara de um ensaio aberto: assumíramos que a peça ainda estava em montagem, mas quisemos exibi-la na “UERJ sem muros” de 2011.
Os problemas eram diversos, e passavam por diversas cenas: Anulamos a cena da troca de roupa ao som do “Bolero” de Ravel, depois de tentar modificá-la várias vezes; tínhamos problemas de marcação na troca de roupa das meninas; encontramos dificuldades imensas na cena do balé das meninas, que ainda estavam muito inseguras com os patins e também esqueciam marcações de vez em quando, preocupadas; passamos também diversas vezes a cena do suicídio; tivemos dificuldades no momento da elaboração do final...
Já é normal sabermos que, em qualquer ensaio que se pretenda geral e no qual devamos passar toda a peça, uma única vez, corrida, nunca conseguimos fazê-lo. Há sempre tanto a se modificar e trabalhar que uma passagem direta é praticamente impossível. Por conta disso, não conseguimos fazer um ensaio geral antes da viagem, o que nos deixou um pouco inseguros.
Combinamos nossa chegada ao programa às 6h, para arrumarmos os cenários, descermos tudo e sairmos às 7h. É claro que não conseguimos. Ao chegarmos na UERJ, não havia elevadores que pudessem nos levar. Para piorar, eu não encontrava minha saia rosa, essencial para a cena do “pas de quatre”. Alguém disse: só pode estar na mala de alguém - se não estiver, azar; resolvemos na hora. Só fui encontrá-la a poucos minutos da apresentação, no momento de nossa arrumação.
Os problemas foram ficando ainda mais tensos. Nosso ônibus só saiu da UERJ às 8h30 da manhã, um atraso que, somado ao fato de não podermos entrar na cidade histórica com o veículo de dois andares, nos fez ficar sem almoço. Nossa apresentação seria às 16h. Chegamos na cidade às 15h.
Ao chegarmos, a desorganização do festival foi flagrante. Já suspeitávamos que uma coisa boa não sairia de um festival cujas peças se davam em sequência e nos mesmo teatro. Onde estava o tempo para os outros grupos se prepararem? Montarem sua luz? Tivemos uma péssima impressão. É claro que saímos do Rio já assim. Lembro-me do Saulo comentando a fala de uma amiga, que dissera que o festival era roubada. No entanto, estávamos quase todos tão animados com a perspectiva de uma viagem em grupo que penso que aceitaríamos qualquer coisa.
Mais indícios de desorganização: os atrasos dos espetáculos anteriores jogaram nossa apresentação para as 17h. Ao menos teríamos tempo para alguma arrumação.
A bagunça não parava por aí. Ao chegarmos na cidade, o festival não disponibilizava um carro para levarmos o material para o teatro - que, diga-se, também não era grande coisa.
Tínhamos a barriga colada nas costas de fome, mas ela quase se perdeu no meio de tanta coisa a fazer.
O camarim onde nos jogaram era horroroso. Havia material de outros espetáculos entulhado num canto, iluminação parca, um banheiro estranho... tudo jogava contra o festival.
(Um dado interessante: ao ver o material de uma peça guardado naquele camarim-depósito, a Célia comentou: “essa é a peça que vai ganhar o espetáculo”. Dito e feito.)
Conseguimos nos arrumar e nos concentrar, na medida do possível, ainda com o sentimento de grupo. Fizemos nossa roda de concentração, gritamo-nos um bom “merda” e nos jogamos no palco.
Saímos aliviados. Nossa maior alegria foi ter ouvido de um jurado que ele reconhecia que havia uma pesquisa em linguagem de clown. Nas palavras do Lucas, foi muito bom ter sido visto de “igual para igual”, ainda mais vindo de um jurado que detonara sem pena uma peça ruim logo antes de nossa. Ao menos os jurados pareciam sérios, no meio daquele caos. Arrumamos as coisas e fomos embora, meio corridos porque outro grupo se apresentaria logo depois de nós.
Diferente dos outros grupos, por iniciativa da Célia, ficaríamos num hotel, e não num alojamento. Foi uma das melhores coisas que poderíamos ter feito: as instalações também não pareciam das melhores e houve dificuldades no primeiro dia na distribuição das comidas, pelo que soubemos. Voltamos ao hotel e fomos a um restaurante comer (muito!), agora com tempo e cabeça para aproveitar a cidade.
No dia seguinte, tivemos uma roda de conversa com os jurados (que se atrasaram mais de uma hora por não haver quem os buscasse) e com outros atores. Dali, as coisas mais interessantes foram: (1) conhecer os atores de uma companhia familiar (Teatro Circense Andança), de Petrópolis, a qual parecia ter um trabalho lindo e que, é claro, levou a maior parte dos prêmios, infantis e adultos; (2) a discussão travada entre Saulo, Luiza e outros atores sobre formas de sobrevivência financeira em companhias de teatro; e (3) um dos atores do Teatro Circense Andança ter reconhecido o Roberto quase 20 anos depois, por ter visto Arlequim num festival, com direito a vários elogios.
Não chegamos a travar contato com muitos grupos. A estrutura do festival não dava espaço para que os atores vissem os atores. De lá, as únicas peças a que assistimos foram: uma peça de formandos de um curso de teatro (Manicômicos) de São João Del Rey - que parecia ter um bom trabalho de corpo, mas um áudio, uma trilha sonora, um enredo e uma marcação péssimos; e um grupo (se bem me lembro) da Unirio de onde se destacava uma atriz que fazia um papel masculino. Não à toa ela ganhou o papel de melhor atriz coadjuvante. Merecidíssimo.
No último dia, soubemos que nosso único prêmio do festival foi uma indicação para melhor maquiagem. Francamente, esperávamos mais. A questão, sobre a qual refletimos mais tarde, foi uma conjunção de detalhes. Primeiramente, a Célia nos inscreveu como teatro adulto. Tendo em vista a qualidade de algumas peças a que assistimos, tivemos certeza de que levaríamos algo mais se fôssemos concorrer como teatro infantil. Além disso, a qualidade do trabalho que supúnhamos ter a companhia Teatro Circense Andança, dadas as falas e o próprio perfil do grupo, não deixava dúvidas de que eles mereciam muitos dos prêmios, se comparada às demais companhias nas categorias.
Embora não esperássemos grande coisa em termos de premiação, saímos um pouco decepcionados. Não ficamos até o fim da cerimônia.
Resta no fim que, para uma primeira apresentação em festival, comportamo-nos bastante bem. Chegamos ao Rio exaustos (eu trabalharia no dia seguinte, segunda-feira!), mas orgulhosos e cientes de termos feito um bom trabalho e levado um pouquinho de nós e da nossa experiência em teatro para aquela cidade.

UERJ SEM MUROS

A energia era a melhor que tivéramos até então. Apresentando-nos no segundo maior teatro do Rio de Janeiro e tendo uma plateia de mais de 600 crianças, vindas de projeto-escola, muitas pela primeira vez num teatro, nosso resultado não podia ser diferente: foi nossa melhor apresentação como palhaços.
A estrutura intimidava. Como fazer aparecer nossos clowns num teatro tão grande? Daríamos conta dessa tarefa?
Houve inúmeras mudanças de marcação devido ao novo espaço e à ausência da Luiza. A principal delas era uma limitação do palco com as malas que alterava, em consequência, toda a entrada e alguns detalhes das outras cenas.
Houve grandes estresses. Nossa maior questão foi alguma desorganização no momento de arrumar os cenários. Por conta de atrasos do pessoal da iluminação, também ficamos com tempo reduzido para almoço (o que tem se tornado um hábito ruim para nós). Mais ainda, a saída da Luiza nos deixou um pouco apreensivo quanto ao futuro de determinadas cenas, sobretudo a do balé final e a da faxina. Além disso, no fim, acabamos enrolados para organizar e subir o material, o que gerou algumas broncas também. Atrasamo-nos um pouco para entrar em cena. Mesmo assim, tivemos a melhor recepção de todas.
Mal entramos na plateia, as crianças já gargalhavam. O público estava aberto, e isso era bom. A cada gag que fazíamos, ouvíamos uma recepção forte, mesmo às que nem considerávamos tanto.
Fiquei particularmente orgulhoso pela atuação dos meus colegas. Fernanda e Saulo têm se destacado muito positivamente nos trabalhos de clown, e isso é nítido, sobretudo na recepção do público. O Luiz também sabe se comportar bastante bem - o que tenho notado desde a saída para  a feira da FAPERJ.
Quanto a mim mesmo, ainda penso que tenho algumas dificuldades. Não sei de onde elas vêm. Talvez não me sinta muito à vontade com a minha criação da cena do suicídio. Na cena do balé, recebemos eu e Aline críticas da Célia, porque sem a Luiza a cena não funcionava. Parecia não haver brilho como antigamente (lembro-me que também foi com muito custo que encontramos a dupla certa para esse momento do espetáculo, e só depois de muitas combinações chegamos a um resultado satisfatório de uma disputa entre Luiza e eu, que fez todos rirem um bocado). Penso que essas dificuldades pessoais só vão se resolver depois de muita leitura e trabalho.
Mesmo com todos os problemas, desde os que só nós sabemos - como erros de marcação - até os que ficaram mais evidentes - como o final da cena da coxia -, saímos extremamente satisfeitos, todos. Se no trabalho do festival ainda ficamos divididos entre achar o resultado geral não tão satisfatório devido às carências de organização e achar um bom espetáculo apesar dela, dessa vez fomos unanimes em afirmar que foi nosso espetáculo mais interessante.
Tendo um resultado tão bom, animamo-nos ainda mais a entrar em cartaz. Contudo, novos projetos e os desfalques que tivemos tornaram praticamente impossível essa retomada. Sem Luiza e Lucas será um bocado difícil botar a casa na rua. Mas não podemos dizer que não quisemos.

Victor Ribeiro / 2012


06/02/2012

Sendo o primeiro encontro de 2012, sinto-me mais à vontade para (re)começar a escrever os relatórios, que tanto nos foram cobrados no ano passado, e tanto foram negligenciados por mim e pelos meus colegas.
Nosso ano, foi observado, parece ter “começado mal”. Muitos atrasos (meu, inclusive), uma ausência, a princípio injustificada.
Logo no início da reunião, recebemos a notícia de que a Juliana deixaria o grupo. Foi apontado pela Célia, após a partida da Ju, que esta realmente parecia se afastar gradualmente do teatro, desde o processo de máscara, momento que coincidiu com sua entrada na universidade rural.
Foram postos na mesa os planos do ano. Tendo recebido o edital FAPERJ, montaremos a peça de Commedia dell’Arte. Diferentemente da nossa primeira tentativa, dessa vez tentaremos nos munir de material teórico o suficiente, porque “para fazer commedia dell’arte, é preciso amar a commedia del’arte”, palavras da própria Célia. Para tanto, recebemos uma parte do livro A loucura de Isabella, de Flaminio Scala, e começamos sua leitura.
Não quero me estender sobre esse assunto no momento, mas houve passagens que me chamaram a atenção e que valem a pena ser mencionadas. Destaco a que diz que a máscara é uma forma de encontrar uma falsidade que parece mais expressiva do que a realidade - o que achei bonito de ler; a que afirma que muito do que se compreende da commedia hoje em dia mitifica em demasia o que parece ter sido, de fato, esse tipo de teatro; e, evidentemente, a passagem que nos mostra que o nome commedia dell’arte, ao contrário do que eu pensava, não tem nenhum sentido estético, e sim prático: arte, em italiano antigo, designa ofício, sendo os grupos desse tipo de teatro - se é que posso dizer isso, visto que essa denominação vem depois do surgimento do fenômeno - os primeiros a fazer do teatro profissão.
Voltando ao planejamento do ano, daremos prosseguimento (já na próxima reunião) ao trabalho de clown. Ele parece ter sido posto em segundo plano pela Célia, que parece mais empolgada com o projeto da commedia. Mas vamos terminá-lo, sim, até para termos uma experiência mais concreta em montagem antes de atacar as Venturas e desventuras da bela Isabella.
Comentários e leituras feitos, aquecemos o corpo e começamos os exercícios que tanto nos faziam falta - ao menos a mim. Fizemos um aquecimento individual (para o qual eu quis trazer os movimentos da aula experimental de dança contemporânea que fizera semanas antes, e que me ajudaram) e abrimos os canais do corpo, segundo a técnica oriental. Então, começamos os trabalhos corporais mais, digamos, pesados.
Destaco aqui que, se a Luiza posteriormente afirmou que imaginava que voltaria pior do que realmente voltara, meu caso foi seu inverso: eu achava que voltaria bem melhor. Cansei-me em demasia, tanto que passei mal e acabei tendo que me ausentar por ter sentido um forte enjoo.
Nossos exercícios consistiram em: andar em roda, com cada um propondo um caminhar diferente, a ser copiado pelos outros. Houve formas que me pareceram interessantes (dentre as quais destaco a da Luiza, a do Lucas e a do Saulo).
Depois, fizemos um exercício de diagonal, semelhante ao primeiro, mas que, agora, deveria incluir um salto. Como venho tentado há muito tempo, tentei esvaziar o máximo a cabeça para não racionalizar demais o momento de propor o movimento. Penso que consegui algo nesse sentido, mas senti que ele se assemelhava (demais para o que eu gostaria) ao primeiro, no sentido de deixar determinadas partes do corpo tensas. Tenho tentado sabotar-me nesse aspecto, e espero conseguir, propondo formas que não sejam óbvias para mim.
Foi nesse momento que passei mal. Acabei saindo e não peguei as últimas formas. Lembro-me de ter achado muitas das propostas muito cotidianas, como se estivéssemos desconcentrados. Para um primeiro dia, talvez isso seja esperado.
Tendo em vista o cansaço geral, a Célia decidiu fazer um exercício ainda de proposta, mas mais leve. Em roda, de frente para o grupo, cada um proporia um movimento leve, “de descanso”, para ser copiado.
O último exercício era o de tentarmos bater palma juntos. Ficamos um minuto inteiro sem propor nada, o que me angustiou de certa forma. Era como se todos nós tivéssemos receio de alguma coisa, medo de, não sei, tomar a iniciativa. A “energia” - foi esse o nome dado - não circulou, de modo que não houve palmas: só silêncio e um grande cansaço.
Ao fim, ouvimos as amenidades (a conquista do DRT definitivo do Lucas) e partimos, com a promessa de que leríamos alguma coisa do texto-base para o próximo encontro, e de que nos comprometeríamos a começar a procura do material de commedia dell’arte. Temo que não seja capaz de achar algo interessante, haja vista todos os meus compromissos paralelos ao grupo, mas penso que não devo preocupar-me por antecipação: dar-se-á um jeito.

08/02/2012

Começamos com dez minutos de atraso, o que foi até comemorado, visto que nossos últimos encontros chegavam a ter demoras de meia hora para começarem.
Depois da conversa inicial, e de saber o planejamento do dia, fizemos um aquecimento rápido, incluindo abertura dos canais (com adição de um novo exercício de controle da força abdominal) e um pouco do exercício cabeça-ombro-coluna-bunda, especialmente um dos meus preferidos.
Pusemos o nariz de palhaço. Queria deixar registrado aqui o quanto eu senti falta disso. Demorei um pouco para conseguir vestir a máscara, talvez um pouco com receio de não conseguir reviver o meu clown. Acho que consegui.
O que sinto, ao pôr o nariz, é algo como uma alegria tão grande, uma espécie de liberdade. Se, normalmente, tenho medo de parecer estúpido, o nariz de palhaço é o momento de deixar fluir toda minha imbecilidade acumulada. Não queria fazer do teatro terapia, mas penso que é difícil quando tratamos de algo tão íntimo quanto nossas fragilidades e medos. Parece-me que, cada vez que estou com o nariz, a frase que lemos uma vez sobre ele se mostra cada vez mais forte: é a menor máscara do mundo, de fato, mas ao mesmo tempo a que mais revela.
Imagino que, quando me permiti ser idiota (algo a que todos se negam na vida dita real), obtive uma mudança significativa na minha relação com o meu palhaço. Sinto que, talvez, o que tenha me feito falta seja essa liberdade.
E foi com essa liberdade que me diverti no ensaio de hoje. A ideia era percorrermos toda a peça, até onde tínhamos material. Como sempre, não conseguimos isso, devido às inúmeras paradas.
Elas aconteciam porque a ideia da Célia era diminuirmos a quantidade de movimento. Concordo com ela nesse aspecto. Os melhores clowns que vi, até então, eram aqueles que executavam ações precisas.
Com isso na cabeça, passamos as cenas da chegada até o final do carro.

13/02/2012

Começamos hoje sem maiores atrasos, a não ser o do Saulo. Nosso dia foi de aquecimento forte, com direito a quase todos os exercícios corporais a que estávamos acostumados, com inclusão de um novo que não consegui fazer - o que não me preocupa de fato: ninguém consegue fazê-lo de primeira. Trata-se do exercício de controlar a descida pelo umbigo.
Vestimos o nariz depois do cabeça-ombro-coluna-bunda.
Por algum motivo, me senti muito mais disperso do que os últimos encontros. Penso que por estar com a cabeça cheia, acabei não conseguindo me concentrar nos ensaios - um pouco mais no aquecimento, mas nosso trabalho não é aquecer.
Mesmo assim, participei das cenas. Começamos do ônibus, onde tentamos inserir sem sucesso a sugestão que eu dera no último encontro. Depois de repetir várias vezes a saída depois do acidente, fizemos a entrada dos meninos para a mudança de roupa. Evidentemente isso ficou prejudicado por não termos nem o figurino, nem a música de base.
Já nessas cenas eu me sentia disperso, mas consegui resolver (principalmente por não ser exatamente o foco da ação). Meu problema, creio eu, ficou mais forte na cena seguinte, a do suicídio.
Não gostei muito do nosso resultado, mas acho que isso se resolverá no próximo encontro, quando teremos um final definido.
Tivemos também uma pequena discussão acerca da atitude da Fernanda, que viajou para a Bahia hoje (segunda), e não estará conosco na quarta.
O fato nos suscitou um questionamento sobre a postura que temos em relação ao grupo, que envolve nossas prioridades e o compromisso que assumimos com o teatro. É certo que já não é novidade para nenhum de nós que o teatro, para quase todos ali, não é nosso principal meio de subsistência. Não vivemos dele: no máximo vivemos com ele, o quanto podemos.
Abdicamos de muitas coisas para estarmos ali, agora duas vezes por semana. É desconfortável saber que o trabalho que temos...

Aline Deyques / 2011 - 2012


“Clowns Bailarinos”

Quando comecei a fazer teatro e pensar em ser uma atriz (ou pelo menos uma tentativa de ser...) nunca tinha me passado pela cabeça em ser uma clown.
Eu assumo que tenho muita dificuldade em estar com uma máscara... é um tanto difícil para mim, mas tento superar essa dificuldade e quanto a construção da peça “Os clowns Bailarinos” isso em muitos momentos se torna evidente. Porém de certa forma tentei fazer o melhor. Por não ter feito um diário e por já ter se passado um período longo das construções das cenas, no momento não tenho muitas lembranças de como foram feitas e o que me acrescentava cada dia, mas o que me recordo muito bem é que quando comecei eu era uma “clown” extremamente insegura e medrosa e hoje posso dizer que já amadureci um pouco, mas ainda não muito...ainda continuo a insegura e medrosa de sempre. Mas claro que muitos momentos servirão para eu melhorar entre eles estão os momentos junto com os meus colegas de teatro, que a cada final de ensaio, quando eu saia me sentindo a pior do mundo, me incentivava e dizia para eu continuar, as nossas apresentações em especial a apresentação feita no projeto escola em 2012, que no final as crianças vieram nos abraçar, falar com a gente e passar uma energia boa daquele sobre o trabalho que fizemos foi muito bonito e também a apresentação em Congonhas, que por todas as dificuldades que tivemos, como grupo, conseguimos enfrentar tudo isso e subirmos ao palco e logo após a apresentação ainda sermos elogiados pelo jurados. 
Todas essas experiências serviram de crescimento para mim e sinto que para todo o grupo.  Infelizmente como disse não tenho muitas lembranças sobre as construções, mas o que me marcou está ai e essa experiência para mim foi de grande importância para os outros trabalhos que estamos realizando.

Victor Ribeiro / 2011


Relatório das atividades do dia 23/02

            Nosso encontro, diferente dos outros, começou pela confecção das máscaras. Pauline e eu, bolsistas do programa, chegamos muito mais cedo do que os outros para nosso trabalho, e vimos que todas as bexigas haviam murchado, deixando apenas os moldes de jornal. No entanto, isto não atrapalhou em nada o processo, uma vez que todos haviam feito pelo menos uma camada de jornal, podendo continuar trabalhando sobre ela sem o menor problema. Evidentemente, havia máscaras um pouco mais rígidas que as outras: uns haviam conseguido fazer mais camadas do que outros.
            Alguns de nós, cujos balões haviam estourado na semana anterior, trouxeram seus moldes de casa, e puderam já começar a inserir detalhes nas máscaras, tais como narizes e boca. O restante de nós, eu inclusive, preferiu reforçar as camadas – em certos casos, bastava ver as máscaras contra a luz que se evidenciava a pobreza de jornal em algumas partes, o que poderia prejudicar a rigidez do objeto.
            Passado isso, nos dedicamos à leitura do texto da semana: “A Commedia Dell’Arte no Studio de Meyerhold: um trabalho sobre o corpo”, de Beatrice Picon-Vallin. Sem nenhum comentário precedente, começamos a leitura.
            A primeira parada significante que fizemos foi no trecho em que um aluno do Studio afirma que “o propósito [do trabalho] era ‘partir da Commedia dell’Arte, não de voltar a ela’”. Foi-nos interessante reparar como essa posição é recorrente nos trabalhos com Commedia dell’Arte, uma vez que este não era o primeiro texto em que figurava uma afirmação desse tipo. A grande vontade, então, dos grupos de teatro, assim como a nossa, era e é a de tomar este ou aquele elemento da Commedia para construir uma determinada pratica teatral mais voltada para o trabalho de corpo. Até porque, e isto também fez parte de nossa discussão, não se sabe até onde conseguiríamos recuperar a Commedia dell’Arte original, sobretudo porque ela corresponderia muito especificamente a uma certa época, com personagens-tipo de uma certa região (no caso, a Itália). Porém, a pergunta continua: por que nenhum grupo “se atreve” a retomar a Commedia dell’Arte?
            Lembramo-nos ainda da experiência do grupo Moitará, que a partir da Commedia dell’Arte, construiu em um espetáculo o que se poderia chamar de uma “Comédia da Arte’: se aproveitou de tipos característicos do Brasil para confeccionar máscaras”.
            No texto de Picon-Vallin, sentimos uma enorme de dificuldade de compreender certas passagens, principalmente devido à nossa ignorância acerca dos autores russos mencionados. Por exemplo, há um trecho em que a autora fala da vontade do Studio de Meyerhold de despertar o “teatro amnésico”, ou mesmo as inúmeras referências feitas pela autora à revista “O amor das três laranjas”, da qual nunca tínhamos nem mesmo ouvido falar, não sabendo portanto nem mesmo do que tratava. Nem mesmo os tópicos enumerados por Meyerhold sobre os princípios que definem o jogo e a composição cênica fizeram muito sentido para mim. Atribuo isso a nunca ter visto em teatro nada que se assemelhasse a essa prática.
            Mas nossa discussão mais acalorada, por assim dizer, não se deu no campo do texto de Picon-Vallin.  Se houve um dia em que mais conversamos e discutimos algo, dentro daquele grupo de 16 pessoas, definitivamente foi este. O que fizemos desta vez foi menos uma discussão sobre o teatro em si, e mais sobre a nossa própria condição de grupo teatral.
            Isso começou com um comentário feito por nossa diretora, em que ela se alegrava por ter, depois de pelo menos 10 anos, um grupo que “retornava inteiro das férias”, isto é, que não desistia no meio do caminho. A partir disso, ela disse se animar a construir algo, mesmo sabendo que nosso grupo estava ali “só de passagem”. O que ela quis dizer, na verdade, foi que tinha claro em sua cabeça que todos ali tinham outras prioridades que não o teatro e, bastava que uma delas se apertasse para que o teatro saísse prejudicado.
            Falamos então do quanto o “sair do grupo” era danoso a qualquer tipo de trabalho e rememoramos alguns casos ocorridos no passado, em que alguns componentes deixaram o grupo em meio a processos importantes. A discussão que se deu a partir daí foi a seguinte: o que é se comprometer com um grupo? Afinal, houve casos em que os componentes que saíram afirmaram que queriam apenas “experimentar uma temporada” ou “experimentar um festival”, sem necessariamente se importar com todo o processo – ou seja: assim que passar a experiência desejada, abandonar o grupo, não importando o quanto a peça precisasse ser reapresentada.
            Disso, pulamos para o problema das substituições no teatro em que fazíamos em nosso grupo. Segundo a diretora, cada personagem é construído de forma a se adaptar ao ator que o faz (apesar do contrário também ocorrer), de modo que as substituições acabam por ser falhas: não funcionam tão bem quanto com os atores originais.
            Lucas nos lembrou, num certo momento, o quão angustiante é para um ator (e mais ainda para um não-ator) passar mais tempo em processo de montagem de uma peça do que efetivamente fazendo a peça. É claro para nós, no entanto, que para produzirmos algo de qualidade, era necessário um longo tempo de preparo e montagem – como foi o caso da peça Karavançarai, interpretada pela companhia anos atrás, em que foram 2 anos de preparo para apenas duas apresentações (belíssimas, segundo aqueles dentre nós que as assistiram), novamente devido a desistências.
            A conclusão a que chego, no fim, é que o que se tem a fazer é estabelecer um certo contrato com o teatro. Se começamos um processo de montagem, se aceitamos o desafio, é preciso que fiquemos nele até o final, principalmente quando sabemos os problemas que desistências desse tipo acarretam. Eu, pelo menos, já tomei minha decisão quanto a isso.