Relatório de experiência
Oficina de perna de pau
“Fazer da queda um passo de dança, do medo uma escada (...)”
(Fernando Sabino)
Talvez tenha sido nossa
experiência mais metafórica ao longo da aventura da Nosconosco. Digo metafórica
porque aprendemos uma série de lições no ar que levamos e quisemos levar para a
vida em terra firme. Já no início das aulas eu previ isso, de alguma forma.
Lembro-me de dizer aos colegas ao descer da perna pela primeira vez: agora
parece que eu sou outro. Ao fim do processo, tive a certeza de que eu era
outro, assim como eram outros os meus colegas, alguns já mais cheios de
coragem, outros já menos cheios de medo. Mas é melhor recomeçar esse relato do
início, mesmo que as coisas venham, meses depois, um pouco em desordem.
Foi com grande empolgação que
soubemos da ideia de fazermos oficinas diversas durante o tempo em que a Célia
estaria ocupada no Proiniciar. Queríamos tudo: dança, circo, teatro, novas
experiências, novos rostos, outros caminhos. A notícia de que começaríamos uma
oficina de perna de pau não foi bem recebida por todos. Eu, particularmente,
adorei. Tenho predileção por qualquer coisa ligada a circo, e, apesar do jeito
travado, ainda acho que tenho vontade de arriscar. Outros, porém, assumiram o
próprio temor. Mas seria inevitável.
Uma semana antes do começo da
oficina, uma notícia ruim: a Luana deixaria o grupo. Mesmo assim, a Célia
sugeriu que ela ao menos fizesse a oficina com os membros restantes. Ela
aceitou e, por isso, sua falta não foi sentida de forma tão forte quanto a dos
outros, muito embora lembrássemos de vez em quando que ela não estaria conosco
no ano seguinte.
Começamos as aulas. Os
professores em princípio seriam dois argentinos. Um deles eu já conhecia da
época em que frequentei o hoje extinto Centro Integrado de Circo, na Fundição
Progresso. Fizemos um bom aquecimento e subimos na perna, quatro por vez.
O primeiro movimento básico era
o de levantar as pernas. Ficamos segurando uma pilastra, apenas treinando o
movimento. Saulo e Pauline, mais abusados, conseguiram se apoiar na corda de
segurança que os professores trouxeram, e o Saulo já conseguia andar poucos
passos sozinho. Só consegui ir para a corda nos últimos momentos, mas mesmo
assim considerei um grande avanço.
No segundo encontro, apenas um
professor estava presente, o Eugênio. Não teríamos corda também, pois ele não
sabia como montar o equipamento. Estranhamos, assim como estranhamos o
alongamento excessivamente longo que ele deu. Mas aceitamos, e logo depois
estávamos na perna. Fizemos avanços, mas foi somente na terceira aula que senti
que engatei no andar e tive minha evolução mais proeminente, graças a uma dica
do Saulo.
O segredo era não ter medo de
cair. Assim sendo, experimentei me jogar uma vez. Isso fez uma enorme
diferença. Sabendo que não haveria maiores perigos na queda - afinal eu tinha
uma joelheira me protegendo - foi muito mais fácil arriscar. Aliás, essa é a
grande palavra da perna de pau, ao menos quando se está aprendendo: arriscar. O
aprendizado fica muito mais fácil quando você mesmo impõe seus objetivos, como
por exemplo: hoje vou andar sem a corda, hoje vou andar para trás, hoje vou
sambar, hoje vou brincar.
Além disso, a segunda dica para
um bom aprendizado na perna eu descobri por mim mesmo: ritmo. Cantar uma música
de ritmo marcado nos ajudava, e muito, a manter o equilíbrio. Incontáveis as
vezes que repetimos “Marcha, Soldado”. É claro que, com um pouco mais de
segurança, já cantávamos e brincávamos com músicas diferentes. Até dançávamos
funk!
Ao longo das aulas, que foram
todas ministradas apenas pelo Eugênio, os desafios autoimpostos foram
aumentando. Talvez o maior deles tenha sido descer as escadas. Ainda assim, a
dica valia de forma igual: era preciso arriscar. E foi assim que as evoluções
foram acontecendo. Até mesmo os que tinham mais medo andaram - fiquei tão
orgulhoso de ver Aline e Fernanda se equilibrando sozinhas!
Houve um momento em que
pensamos que o Eugênio já não era mais tão necessário. Embora ele fosse um bom
apoiador, já tínhamos desenvolvido alguma autonomia, e ele já não nos ensinava
nada de novo. Aparentemente, o que tínhamos de aprender viria de nós mesmos, a
partir da necessidade. Um bom exemplo disso é que aprendemos a sambar, a
brincar de dançar outros ritmos, a nos equilibrar (ainda mal, devido à falta de
treino) numa perna só...
No último dia, o desafio final.
Ora, se passamos por toda a oficina visando ao teatro, seria impossível
terminá-la sem se dedicar minimamente a ele. A missão: decorar um pequeníssimo
texto, de livre escolha, dentro da peça Romeu e Julieta e declamá-lo sobre a
perna. Meu desafio seria um pouco maior: além disso, eu deveria tocar acordeão!
Escolhemos adereços e tivemos
dois dias para decorar os trechos.
Foi quase um desastre, apesar
da Célia dizer que havia alguma coisa no que foi feito.
Fizemos um cortejo com pessoas
sobre a perna e fora dela, em revezamento. Segundo a Célia, ainda nos sentíamos
demasiadamente inseguros para dar um texto. Os que se saíram melhor dentre nós
foram Fernanda e Saulo. Vale destacar a coragem da Aline, que, ainda que
insegura, se soltou do seu acompanhante e deu seu texto. Foi uma vitória
pessoal para ela.
Meu problema apontado foi a
falta de intenção. Aparentemente, acabei cotidiano demais dando a fala: “Um
músico”, nas palavras da Célia.
Sentimos falta de mais tempo
para andar e explorar nossas possibilidades. Penso que o tempo que não
praticamos nessas férias nos fará falta, mesmo que a perna seja como a
bicicleta.
Ao fim da oficina, eu já podia
me dizer seguro sobre a perna. Consegui tocar, consegui dar algum texto e
consegui ficar parado (o que mais conseguiu fazê-lo, segundo a Célia). De tudo,
fica a vontade de sempre continuar nos ares, e, mais ainda, a relação que
criamos com nossos próprios medos. Olhados de cima, eles já nem pareciam tão grandes
assim.
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