quarta-feira, 23 de janeiro de 2013

Victor Ribeiro / 2012


Relatório de experiência
Oficina de perna de pau
“Fazer da queda um passo de dança, do medo uma escada (...)”
(Fernando Sabino)

Talvez tenha sido nossa experiência mais metafórica ao longo da aventura da Nosconosco. Digo metafórica porque aprendemos uma série de lições no ar que levamos e quisemos levar para a vida em terra firme. Já no início das aulas eu previ isso, de alguma forma. Lembro-me de dizer aos colegas ao descer da perna pela primeira vez: agora parece que eu sou outro. Ao fim do processo, tive a certeza de que eu era outro, assim como eram outros os meus colegas, alguns já mais cheios de coragem, outros já menos cheios de medo. Mas é melhor recomeçar esse relato do início, mesmo que as coisas venham, meses depois, um pouco em desordem.
Foi com grande empolgação que soubemos da ideia de fazermos oficinas diversas durante o tempo em que a Célia estaria ocupada no Proiniciar. Queríamos tudo: dança, circo, teatro, novas experiências, novos rostos, outros caminhos. A notícia de que começaríamos uma oficina de perna de pau não foi bem recebida por todos. Eu, particularmente, adorei. Tenho predileção por qualquer coisa ligada a circo, e, apesar do jeito travado, ainda acho que tenho vontade de arriscar. Outros, porém, assumiram o próprio temor. Mas seria inevitável.
Uma semana antes do começo da oficina, uma notícia ruim: a Luana deixaria o grupo. Mesmo assim, a Célia sugeriu que ela ao menos fizesse a oficina com os membros restantes. Ela aceitou e, por isso, sua falta não foi sentida de forma tão forte quanto a dos outros, muito embora lembrássemos de vez em quando que ela não estaria conosco no ano seguinte.
Começamos as aulas. Os professores em princípio seriam dois argentinos. Um deles eu já conhecia da época em que frequentei o hoje extinto Centro Integrado de Circo, na Fundição Progresso. Fizemos um bom aquecimento e subimos na perna, quatro por vez.
O primeiro movimento básico era o de levantar as pernas. Ficamos segurando uma pilastra, apenas treinando o movimento. Saulo e Pauline, mais abusados, conseguiram se apoiar na corda de segurança que os professores trouxeram, e o Saulo já conseguia andar poucos passos sozinho. Só consegui ir para a corda nos últimos momentos, mas mesmo assim considerei um grande avanço.
No segundo encontro, apenas um professor estava presente, o Eugênio. Não teríamos corda também, pois ele não sabia como montar o equipamento. Estranhamos, assim como estranhamos o alongamento excessivamente longo que ele deu. Mas aceitamos, e logo depois estávamos na perna. Fizemos avanços, mas foi somente na terceira aula que senti que engatei no andar e tive minha evolução mais proeminente, graças a uma dica do Saulo.
O segredo era não ter medo de cair. Assim sendo, experimentei me jogar uma vez. Isso fez uma enorme diferença. Sabendo que não haveria maiores perigos na queda - afinal eu tinha uma joelheira me protegendo - foi muito mais fácil arriscar. Aliás, essa é a grande palavra da perna de pau, ao menos quando se está aprendendo: arriscar. O aprendizado fica muito mais fácil quando você mesmo impõe seus objetivos, como por exemplo: hoje vou andar sem a corda, hoje vou andar para trás, hoje vou sambar, hoje vou brincar.
Além disso, a segunda dica para um bom aprendizado na perna eu descobri por mim mesmo: ritmo. Cantar uma música de ritmo marcado nos ajudava, e muito, a manter o equilíbrio. Incontáveis as vezes que repetimos “Marcha, Soldado”. É claro que, com um pouco mais de segurança, já cantávamos e brincávamos com músicas diferentes. Até dançávamos funk!
Ao longo das aulas, que foram todas ministradas apenas pelo Eugênio, os desafios autoimpostos foram aumentando. Talvez o maior deles tenha sido descer as escadas. Ainda assim, a dica valia de forma igual: era preciso arriscar. E foi assim que as evoluções foram acontecendo. Até mesmo os que tinham mais medo andaram - fiquei tão orgulhoso de ver Aline e Fernanda se equilibrando sozinhas!
Houve um momento em que pensamos que o Eugênio já não era mais tão necessário. Embora ele fosse um bom apoiador, já tínhamos desenvolvido alguma autonomia, e ele já não nos ensinava nada de novo. Aparentemente, o que tínhamos de aprender viria de nós mesmos, a partir da necessidade. Um bom exemplo disso é que aprendemos a sambar, a brincar de dançar outros ritmos, a nos equilibrar (ainda mal, devido à falta de treino) numa perna só...
No último dia, o desafio final. Ora, se passamos por toda a oficina visando ao teatro, seria impossível terminá-la sem se dedicar minimamente a ele. A missão: decorar um pequeníssimo texto, de livre escolha, dentro da peça Romeu e Julieta e declamá-lo sobre a perna. Meu desafio seria um pouco maior: além disso, eu deveria tocar acordeão!
Escolhemos adereços e tivemos dois dias para decorar os trechos.
Foi quase um desastre, apesar da Célia dizer que havia alguma coisa no que foi feito.
Fizemos um cortejo com pessoas sobre a perna e fora dela, em revezamento. Segundo a Célia, ainda nos sentíamos demasiadamente inseguros para dar um texto. Os que se saíram melhor dentre nós foram Fernanda e Saulo. Vale destacar a coragem da Aline, que, ainda que insegura, se soltou do seu acompanhante e deu seu texto. Foi uma vitória pessoal para ela.
Meu problema apontado foi a falta de intenção. Aparentemente, acabei cotidiano demais dando a fala: “Um músico”, nas palavras da Célia.
Sentimos falta de mais tempo para andar e explorar nossas possibilidades. Penso que o tempo que não praticamos nessas férias nos fará falta, mesmo que a perna seja como a bicicleta.
Ao fim da oficina, eu já podia me dizer seguro sobre a perna. Consegui tocar, consegui dar algum texto e consegui ficar parado (o que mais conseguiu fazê-lo, segundo a Célia). De tudo, fica a vontade de sempre continuar nos ares, e, mais ainda, a relação que criamos com nossos próprios medos. Olhados de cima, eles já nem pareciam tão grandes assim.

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