quarta-feira, 23 de janeiro de 2013
Victor Ribeiro / 2012
06/02/2012
Sendo o primeiro encontro de 2012, sinto-me mais à vontade para (re)começar a escrever os relatórios, que tanto nos foram cobrados no ano passado, e tanto foram negligenciados por mim e pelos meus colegas.
Nosso ano, foi observado, parece ter “começado mal”. Muitos atrasos (meu, inclusive), uma ausência, a princípio injustificada.
Logo no início da reunião, recebemos a notícia de que a Juliana deixaria o grupo. Foi apontado pela Célia, após a partida da Ju, que esta realmente parecia se afastar gradualmente do teatro, desde o processo de máscara, momento que coincidiu com sua entrada na universidade rural.
Foram postos na mesa os planos do ano. Tendo recebido o edital FAPERJ, montaremos a peça de Commedia dell’Arte. Diferentemente da nossa primeira tentativa, dessa vez tentaremos nos munir de material teórico o suficiente, porque “para fazer commedia dell’arte, é preciso amar a commedia del’arte”, palavras da própria Célia. Para tanto, recebemos uma parte do livro A loucura de Isabella, de Flaminio Scala, e começamos sua leitura.
Não quero me estender sobre esse assunto no momento, mas houve passagens que me chamaram a atenção e que valem a pena ser mencionadas. Destaco a que diz que a máscara é uma forma de encontrar uma falsidade que parece mais expressiva do que a realidade - o que achei bonito de ler; a que afirma que muito do que se compreende da commedia hoje em dia mitifica em demasia o que parece ter sido, de fato, esse tipo de teatro; e, evidentemente, a passagem que nos mostra que o nome commedia dell’arte, ao contrário do que eu pensava, não tem nenhum sentido estético, e sim prático: arte, em italiano antigo, designa ofício, sendo os grupos desse tipo de teatro - se é que posso dizer isso, visto que essa denominação vem depois do surgimento do fenômeno - os primeiros a fazer do teatro profissão.
Voltando ao planejamento do ano, daremos prosseguimento (já na próxima reunião) ao trabalho de clown. Ele parece ter sido posto em segundo plano pela Célia, que parece mais empolgada com o projeto da commedia. Mas vamos terminá-lo, sim, até para termos uma experiência mais concreta em montagem antes de atacar as Venturas e desventuras da bela Isabella.
Comentários e leituras feitos, aquecemos o corpo e começamos os exercícios que tanto nos faziam falta - ao menos a mim. Fizemos um aquecimento individual (para o qual eu quis trazer os movimentos da aula experimental de dança contemporânea que fizera semanas antes, e que me ajudaram) e abrimos os canais do corpo, segundo a técnica oriental. Então, começamos os trabalhos corporais mais, digamos, pesados.
Destaco aqui que, se a Luiza posteriormente afirmou que imaginava que voltaria pior do que realmente voltara, meu caso foi seu inverso: eu achava que voltaria bem melhor. Cansei-me em demasia, tanto que passei mal e acabei tendo que me ausentar por ter sentido um forte enjoo.
Nossos exercícios consistiram em: andar em roda, com cada um propondo um caminhar diferente, a ser copiado pelos outros. Houve formas que me pareceram interessantes (dentre as quais destaco a da Luiza, a do Lucas e a do Saulo).
Depois, fizemos um exercício de diagonal, semelhante ao primeiro, mas que, agora, deveria incluir um salto. Como venho tentado há muito tempo, tentei esvaziar o máximo a cabeça para não racionalizar demais o momento de propor o movimento. Penso que consegui algo nesse sentido, mas senti que ele se assemelhava (demais para o que eu gostaria) ao primeiro, no sentido de deixar determinadas partes do corpo tensas. Tenho tentado sabotar-me nesse aspecto, e espero conseguir, propondo formas que não sejam óbvias para mim.
Foi nesse momento que passei mal. Acabei saindo e não peguei as últimas formas. Lembro-me de ter achado muitas das propostas muito cotidianas, como se estivéssemos desconcentrados. Para um primeiro dia, talvez isso seja esperado.
Tendo em vista o cansaço geral, a Célia decidiu fazer um exercício ainda de proposta, mas mais leve. Em roda, de frente para o grupo, cada um proporia um movimento leve, “de descanso”, para ser copiado.
O último exercício era o de tentarmos bater palma juntos. Ficamos um minuto inteiro sem propor nada, o que me angustiou de certa forma. Era como se todos nós tivéssemos receio de alguma coisa, medo de, não sei, tomar a iniciativa. A “energia” - foi esse o nome dado - não circulou, de modo que não houve palmas: só silêncio e um grande cansaço.
Ao fim, ouvimos as amenidades (a conquista do DRT definitivo do Lucas) e partimos, com a promessa de que leríamos alguma coisa do texto-base para o próximo encontro, e de que nos comprometeríamos a começar a procura do material de commedia dell’arte. Temo que não seja capaz de achar algo interessante, haja vista todos os meus compromissos paralelos ao grupo, mas penso que não devo preocupar-me por antecipação: dar-se-á um jeito.
08/02/2012
Começamos com dez minutos de atraso, o que foi até comemorado, visto que nossos últimos encontros chegavam a ter demoras de meia hora para começarem.
Depois da conversa inicial, e de saber o planejamento do dia, fizemos um aquecimento rápido, incluindo abertura dos canais (com adição de um novo exercício de controle da força abdominal) e um pouco do exercício cabeça-ombro-coluna-bunda, especialmente um dos meus preferidos.
Pusemos o nariz de palhaço. Queria deixar registrado aqui o quanto eu senti falta disso. Demorei um pouco para conseguir vestir a máscara, talvez um pouco com receio de não conseguir reviver o meu clown. Acho que consegui.
O que sinto, ao pôr o nariz, é algo como uma alegria tão grande, uma espécie de liberdade. Se, normalmente, tenho medo de parecer estúpido, o nariz de palhaço é o momento de deixar fluir toda minha imbecilidade acumulada. Não queria fazer do teatro terapia, mas penso que é difícil quando tratamos de algo tão íntimo quanto nossas fragilidades e medos. Parece-me que, cada vez que estou com o nariz, a frase que lemos uma vez sobre ele se mostra cada vez mais forte: é a menor máscara do mundo, de fato, mas ao mesmo tempo a que mais revela.
Imagino que, quando me permiti ser idiota (algo a que todos se negam na vida dita real), obtive uma mudança significativa na minha relação com o meu palhaço. Sinto que, talvez, o que tenha me feito falta seja essa liberdade.
E foi com essa liberdade que me diverti no ensaio de hoje. A ideia era percorrermos toda a peça, até onde tínhamos material. Como sempre, não conseguimos isso, devido às inúmeras paradas.
Elas aconteciam porque a ideia da Célia era diminuirmos a quantidade de movimento. Concordo com ela nesse aspecto. Os melhores clowns que vi, até então, eram aqueles que executavam ações precisas.
Com isso na cabeça, passamos as cenas da chegada até o final do carro.
13/02/2012
Começamos hoje sem maiores atrasos, a não ser o do Saulo. Nosso dia foi de aquecimento forte, com direito a quase todos os exercícios corporais a que estávamos acostumados, com inclusão de um novo que não consegui fazer - o que não me preocupa de fato: ninguém consegue fazê-lo de primeira. Trata-se do exercício de controlar a descida pelo umbigo.
Vestimos o nariz depois do cabeça-ombro-coluna-bunda.
Por algum motivo, me senti muito mais disperso do que os últimos encontros. Penso que por estar com a cabeça cheia, acabei não conseguindo me concentrar nos ensaios - um pouco mais no aquecimento, mas nosso trabalho não é aquecer.
Mesmo assim, participei das cenas. Começamos do ônibus, onde tentamos inserir sem sucesso a sugestão que eu dera no último encontro. Depois de repetir várias vezes a saída depois do acidente, fizemos a entrada dos meninos para a mudança de roupa. Evidentemente isso ficou prejudicado por não termos nem o figurino, nem a música de base.
Já nessas cenas eu me sentia disperso, mas consegui resolver (principalmente por não ser exatamente o foco da ação). Meu problema, creio eu, ficou mais forte na cena seguinte, a do suicídio.
Não gostei muito do nosso resultado, mas acho que isso se resolverá no próximo encontro, quando teremos um final definido.
Tivemos também uma pequena discussão acerca da atitude da Fernanda, que viajou para a Bahia hoje (segunda), e não estará conosco na quarta.
O fato nos suscitou um questionamento sobre a postura que temos em relação ao grupo, que envolve nossas prioridades e o compromisso que assumimos com o teatro. É certo que já não é novidade para nenhum de nós que o teatro, para quase todos ali, não é nosso principal meio de subsistência. Não vivemos dele: no máximo vivemos com ele, o quanto podemos.
Abdicamos de muitas coisas para estarmos ali, agora duas vezes por semana. É desconfortável saber que o trabalho que temos...
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