quarta-feira, 23 de janeiro de 2013

Victor Ribeiro / 2012


Relato de experiência de duas apresentações de Clown
(Congonhas do Campo, MG e Teatro Odylo Costa, filho, RJ)
“Meu rosto está
maquiado, limpo de
toda singularidade,
tornado vazio
para refletir
os pensamentos
agora mutáveis
como voz e gesto”
(Bertolt Brecht)

PROFESTeatro

Para muitos de nós, era a primeira viagem no seio de uma companhia. À exceção de Lucas, Márcia, Luiz e Luiza, os atores que fizeram Alice em Ponta Grossa, não havíamos experimentado a sensação de atuar em um festival.
As condições eram adversas. A peça estava ainda sem um final definido e, por diversos problemas, não conseguíamos montá-lo. Seria praticamente uma estreia, já que nossa última apresentação de “Os clowns bailarinos” não passara de um ensaio aberto: assumíramos que a peça ainda estava em montagem, mas quisemos exibi-la na “UERJ sem muros” de 2011.
Os problemas eram diversos, e passavam por diversas cenas: Anulamos a cena da troca de roupa ao som do “Bolero” de Ravel, depois de tentar modificá-la várias vezes; tínhamos problemas de marcação na troca de roupa das meninas; encontramos dificuldades imensas na cena do balé das meninas, que ainda estavam muito inseguras com os patins e também esqueciam marcações de vez em quando, preocupadas; passamos também diversas vezes a cena do suicídio; tivemos dificuldades no momento da elaboração do final...
Já é normal sabermos que, em qualquer ensaio que se pretenda geral e no qual devamos passar toda a peça, uma única vez, corrida, nunca conseguimos fazê-lo. Há sempre tanto a se modificar e trabalhar que uma passagem direta é praticamente impossível. Por conta disso, não conseguimos fazer um ensaio geral antes da viagem, o que nos deixou um pouco inseguros.
Combinamos nossa chegada ao programa às 6h, para arrumarmos os cenários, descermos tudo e sairmos às 7h. É claro que não conseguimos. Ao chegarmos na UERJ, não havia elevadores que pudessem nos levar. Para piorar, eu não encontrava minha saia rosa, essencial para a cena do “pas de quatre”. Alguém disse: só pode estar na mala de alguém - se não estiver, azar; resolvemos na hora. Só fui encontrá-la a poucos minutos da apresentação, no momento de nossa arrumação.
Os problemas foram ficando ainda mais tensos. Nosso ônibus só saiu da UERJ às 8h30 da manhã, um atraso que, somado ao fato de não podermos entrar na cidade histórica com o veículo de dois andares, nos fez ficar sem almoço. Nossa apresentação seria às 16h. Chegamos na cidade às 15h.
Ao chegarmos, a desorganização do festival foi flagrante. Já suspeitávamos que uma coisa boa não sairia de um festival cujas peças se davam em sequência e nos mesmo teatro. Onde estava o tempo para os outros grupos se prepararem? Montarem sua luz? Tivemos uma péssima impressão. É claro que saímos do Rio já assim. Lembro-me do Saulo comentando a fala de uma amiga, que dissera que o festival era roubada. No entanto, estávamos quase todos tão animados com a perspectiva de uma viagem em grupo que penso que aceitaríamos qualquer coisa.
Mais indícios de desorganização: os atrasos dos espetáculos anteriores jogaram nossa apresentação para as 17h. Ao menos teríamos tempo para alguma arrumação.
A bagunça não parava por aí. Ao chegarmos na cidade, o festival não disponibilizava um carro para levarmos o material para o teatro - que, diga-se, também não era grande coisa.
Tínhamos a barriga colada nas costas de fome, mas ela quase se perdeu no meio de tanta coisa a fazer.
O camarim onde nos jogaram era horroroso. Havia material de outros espetáculos entulhado num canto, iluminação parca, um banheiro estranho... tudo jogava contra o festival.
(Um dado interessante: ao ver o material de uma peça guardado naquele camarim-depósito, a Célia comentou: “essa é a peça que vai ganhar o espetáculo”. Dito e feito.)
Conseguimos nos arrumar e nos concentrar, na medida do possível, ainda com o sentimento de grupo. Fizemos nossa roda de concentração, gritamo-nos um bom “merda” e nos jogamos no palco.
Saímos aliviados. Nossa maior alegria foi ter ouvido de um jurado que ele reconhecia que havia uma pesquisa em linguagem de clown. Nas palavras do Lucas, foi muito bom ter sido visto de “igual para igual”, ainda mais vindo de um jurado que detonara sem pena uma peça ruim logo antes de nossa. Ao menos os jurados pareciam sérios, no meio daquele caos. Arrumamos as coisas e fomos embora, meio corridos porque outro grupo se apresentaria logo depois de nós.
Diferente dos outros grupos, por iniciativa da Célia, ficaríamos num hotel, e não num alojamento. Foi uma das melhores coisas que poderíamos ter feito: as instalações também não pareciam das melhores e houve dificuldades no primeiro dia na distribuição das comidas, pelo que soubemos. Voltamos ao hotel e fomos a um restaurante comer (muito!), agora com tempo e cabeça para aproveitar a cidade.
No dia seguinte, tivemos uma roda de conversa com os jurados (que se atrasaram mais de uma hora por não haver quem os buscasse) e com outros atores. Dali, as coisas mais interessantes foram: (1) conhecer os atores de uma companhia familiar (Teatro Circense Andança), de Petrópolis, a qual parecia ter um trabalho lindo e que, é claro, levou a maior parte dos prêmios, infantis e adultos; (2) a discussão travada entre Saulo, Luiza e outros atores sobre formas de sobrevivência financeira em companhias de teatro; e (3) um dos atores do Teatro Circense Andança ter reconhecido o Roberto quase 20 anos depois, por ter visto Arlequim num festival, com direito a vários elogios.
Não chegamos a travar contato com muitos grupos. A estrutura do festival não dava espaço para que os atores vissem os atores. De lá, as únicas peças a que assistimos foram: uma peça de formandos de um curso de teatro (Manicômicos) de São João Del Rey - que parecia ter um bom trabalho de corpo, mas um áudio, uma trilha sonora, um enredo e uma marcação péssimos; e um grupo (se bem me lembro) da Unirio de onde se destacava uma atriz que fazia um papel masculino. Não à toa ela ganhou o papel de melhor atriz coadjuvante. Merecidíssimo.
No último dia, soubemos que nosso único prêmio do festival foi uma indicação para melhor maquiagem. Francamente, esperávamos mais. A questão, sobre a qual refletimos mais tarde, foi uma conjunção de detalhes. Primeiramente, a Célia nos inscreveu como teatro adulto. Tendo em vista a qualidade de algumas peças a que assistimos, tivemos certeza de que levaríamos algo mais se fôssemos concorrer como teatro infantil. Além disso, a qualidade do trabalho que supúnhamos ter a companhia Teatro Circense Andança, dadas as falas e o próprio perfil do grupo, não deixava dúvidas de que eles mereciam muitos dos prêmios, se comparada às demais companhias nas categorias.
Embora não esperássemos grande coisa em termos de premiação, saímos um pouco decepcionados. Não ficamos até o fim da cerimônia.
Resta no fim que, para uma primeira apresentação em festival, comportamo-nos bastante bem. Chegamos ao Rio exaustos (eu trabalharia no dia seguinte, segunda-feira!), mas orgulhosos e cientes de termos feito um bom trabalho e levado um pouquinho de nós e da nossa experiência em teatro para aquela cidade.

UERJ SEM MUROS

A energia era a melhor que tivéramos até então. Apresentando-nos no segundo maior teatro do Rio de Janeiro e tendo uma plateia de mais de 600 crianças, vindas de projeto-escola, muitas pela primeira vez num teatro, nosso resultado não podia ser diferente: foi nossa melhor apresentação como palhaços.
A estrutura intimidava. Como fazer aparecer nossos clowns num teatro tão grande? Daríamos conta dessa tarefa?
Houve inúmeras mudanças de marcação devido ao novo espaço e à ausência da Luiza. A principal delas era uma limitação do palco com as malas que alterava, em consequência, toda a entrada e alguns detalhes das outras cenas.
Houve grandes estresses. Nossa maior questão foi alguma desorganização no momento de arrumar os cenários. Por conta de atrasos do pessoal da iluminação, também ficamos com tempo reduzido para almoço (o que tem se tornado um hábito ruim para nós). Mais ainda, a saída da Luiza nos deixou um pouco apreensivo quanto ao futuro de determinadas cenas, sobretudo a do balé final e a da faxina. Além disso, no fim, acabamos enrolados para organizar e subir o material, o que gerou algumas broncas também. Atrasamo-nos um pouco para entrar em cena. Mesmo assim, tivemos a melhor recepção de todas.
Mal entramos na plateia, as crianças já gargalhavam. O público estava aberto, e isso era bom. A cada gag que fazíamos, ouvíamos uma recepção forte, mesmo às que nem considerávamos tanto.
Fiquei particularmente orgulhoso pela atuação dos meus colegas. Fernanda e Saulo têm se destacado muito positivamente nos trabalhos de clown, e isso é nítido, sobretudo na recepção do público. O Luiz também sabe se comportar bastante bem - o que tenho notado desde a saída para  a feira da FAPERJ.
Quanto a mim mesmo, ainda penso que tenho algumas dificuldades. Não sei de onde elas vêm. Talvez não me sinta muito à vontade com a minha criação da cena do suicídio. Na cena do balé, recebemos eu e Aline críticas da Célia, porque sem a Luiza a cena não funcionava. Parecia não haver brilho como antigamente (lembro-me que também foi com muito custo que encontramos a dupla certa para esse momento do espetáculo, e só depois de muitas combinações chegamos a um resultado satisfatório de uma disputa entre Luiza e eu, que fez todos rirem um bocado). Penso que essas dificuldades pessoais só vão se resolver depois de muita leitura e trabalho.
Mesmo com todos os problemas, desde os que só nós sabemos - como erros de marcação - até os que ficaram mais evidentes - como o final da cena da coxia -, saímos extremamente satisfeitos, todos. Se no trabalho do festival ainda ficamos divididos entre achar o resultado geral não tão satisfatório devido às carências de organização e achar um bom espetáculo apesar dela, dessa vez fomos unanimes em afirmar que foi nosso espetáculo mais interessante.
Tendo um resultado tão bom, animamo-nos ainda mais a entrar em cartaz. Contudo, novos projetos e os desfalques que tivemos tornaram praticamente impossível essa retomada. Sem Luiza e Lucas será um bocado difícil botar a casa na rua. Mas não podemos dizer que não quisemos.

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