quarta-feira, 23 de janeiro de 2013

Ludo Lopes / 2010 à 2012


  Oficina de Máscara de Clown
Desde o primeiro momento em que ficamos sabendo faríamos a oficina de máscara de clown, fiquei super animado e contando os dias para o início. Isso não é algo para surpreender aqueles que me conhecem desde a infância. Não mesmo! Sempre gostei da figura do palhaço, sempre gostei das brincadeiras do palhaço, sempre fui apaixonado por esses bufões. Me lembro até hoje de uma festa de aniversário feita pra mim com o tema palhaço e mais ainda de uma fantasia de carnaval elaborada por minha mãe – um macacão com aquele quadriculado peculiar do Arlequim, nas cores branca, azul e amarela; com pompons pendurados do peito ao umbigo e nos sapatos; um babado no pescoço um chapéu coco azul e o rosto maquiado. Enfim, o palhaço sempre foi uma figura presente e adorada em minha vida.
Quando iniciamos os exercícios da oficina, não senti muita facilidade em usar o nariz, fisicamente falando – não conseguia respirar bem. Mas, foi tranquilo. Pra mim o maior problema foi outro: quando punha o nariz, percebia que naquele momento não podia mostrar o eu que costumo apresentar no dia-a-dia, no cotidiano. Percebia nitidamente que deveria mostrar justamente o eu que costumava tentar esconder, mas que estava sempre lá. Mostrar minhas imperfeições e meu ridículo! Como isso me era muito custoso, tentava dar vida ao nariz vermelho com “gracinhas” e, é claro, nunca funcionava.
Os dias de oficina foram se passando e aos poucos fui deixando a máscara diária cair pra dar lugar à menor máscara, porem mais complicada de usar, a máscara de clown, o nariz de palhaço. Fui ficando cada vez mais evidente, mais “nu”. Sim, pois quando acentuamos nossos características que tentamos esconder, nos mostramos como somos de verdade. É certo que o clown expande, exagera, repete o que em nós faz os outros sorrirem, porém é sempre a nossa essência que é evidenciada no trabalho clownesco.
Não sei se estou certo, mas tive a impressão de que fui o mais animado com a montagem do clown. Tive um grande cuidado na escolha do figurino. Pensei em cada detalhe e fiz algumas ligações à minha fantasia de infância: o quadriculado da minha calça não é o mesmo, mas está lá, o chapéu coco azul é idêntico ao que usei aos 4 anos. Desenhei o figurino antecipadamente para passar alguns dias procurando aquilo que me veio à mente. Adoro o meu figurino, acho que ele combina perfeitamente com o Pimenta (nome que dei ao meu palhaço ao lembrar de outra história da minha infância, o dia em que confundi pimenta com pitanga e enfiei uma na boca – risos).
Minha maquiagem, embora eu tivesse ideia do que eu queria fazer, foi feita de supetão. Como todos sabem tenho uma memória podre e, no dia de criar minha maquiagem, que foi em uma incursão no CAp UERJ, uma de nossas atividades para fechar a oficina, deixei o espelho em casa. Só pra variar! Como havia poucos espelhos, tive que me maquiar quase que intuitivamente e, óbvio, não ficou muito bem como eu queria. Primeiro que ficou forte demais e eu queria uma maquiagem mais leve e, segundo, fiz um retângulo nas bochechas, quando na verdade queria um triângulo. Mas o dia com as crianças e os adolescentes foi ótimo! Tive uma receptividade muito grande e percebi que o Pimenta funcionava. O mais legal foi perceber que além de funcionar, eu consegui segurar o estado clownesco o que é muito difícil.
Nossa segunda atividade para fechar este ciclo foi um “Palhaço Oculto” em um restaurante. Nossa! Foi espetacular perceber como o palhaço encanta não só as crianças e os adolescentes, mas também os adultos. Estes voltavam a ser criança quando conversavam com um de nós. Viramos uma atração do dia no restaurante. Quem tirou o Pimenta foi o Sinésio, palhaço vivido pelo ator Lucas Matos e que admiro aos montes! Isso me deixou muito contente! O presente para o Pimenta não poderia ser outro: SAL, muito sal para temperar. Tinha sal refinado, grosso, saleiros antigos e até sal líquido! Muito original. Adorei!
Ainda há muito que se crescer em meu trabalho de clown, mas fico muito contente sempre que dou lugar para o Pimenta! Vejo que do início do trabalho pra cá, já tive muito crescimento e, assim, percebo que o Pimenta, longe de ser um personagem, uma figura acabada, pronta, ele é uma parte de mim que juntamente comigo vai se transformando com o passar do tempo e da minha história.

  Processo de montagem do espetáculo “Os Clowns Bailarinos”
O trabalho de clown me dá muito prazer! Por esta razão achei que seria fácil uma montagem de espetáculo clownesco. Me enganei profundamente! As dificuldades são outras, mas existem. E como existem!
Tá certo que o meu clown, o Pimenta, torna minha péssima memória em evidência ainda maior, embora goste de mandar. Isso faz com que ele seja um líder retardado e desastrado. Até aí, tudo bem. O pior foi se deparar com o fato de que o espetáculo de clown, como qualquer outro, é marcado. E pra entender a necessidade de controlar o “retardamento” do pimenta e lembrar as coisas todas que eu tinha de fazer durante o espetáculo? Mas esse não era um problema só meu. Quase todos nós nos deparamos com essa novidade, exceto o Lucas que já havia vivido uma experiência de montagem de espetáculo de clown.
Como o espetáculo fala de um grupo de clowns bailarinos montando uma apresentação de “O Lago dos Cisnes”, algumas cenas foram de dança e uma delas me ajudou nesse processo de controlar o Pimenta e não ser controlado. A cena do Pas de quatre me ajudou a entender isso perfeitamente, pois se não controlasse o Pimenta, não iria ser possível marcá-la. É uma cena de coreografia.
Bom, o espetáculo tinha que sair, então tivemos de entender como fazer isso na prática. E conseguimos, alguns mais que os outros, mas o espetáculo saiu e ficou muito bonito! Ao final, tínhamos um espetáculo engraçado, gracioso e com qualidade estética. “Os Clowns Bailarinos” é um bom espetáculo, principalmente por chegar e tocar a criança sem pieguices. Por esta mesma razão encanta adultos de todas as idades.

  PROFEST (Festival Nacional de Teatro de Congonhas do Campo – MG)
Fiquei muito feliz quando a Célia nos comunicou que havíamos sido aceitos no PROFEST para defender o espetáculo “Os Clowns Bailarinos”.
Tivemos que preparar tudo como se o espetáculo já estivesse pronto, embora ainda não tínhamos  marcado quase um terço do espetáculo. Foi uma correria só, mas como a gente, da Nósconosco, sempre diz “a Célia sempre dá um jeito”. Ela conseguiu finalizar as marcações do espetáculo a tempo. Mas, é claro que a cena final ficou pra decidirmos no teatro, em Congonhas do Campo. Se isso não acontecesse, não seria a Célia nossa diretora. Não é por incapacidade dela. Ela sempre pensa em várias maneiras, mas todas dependem de uma série de possibilidades.
Nos dias que antecederam nossa viagem, a Célia achou melhor reservarmos hotel pra Companhia. Fizemos isso. Alugamos um ônibus muito bom. Nem acho que era tão necessário assim, apesar de ter adorado o conforto por ele proporcionado. Minas não é tão longe assim! Separamos todo o material utilizado no espetáculo e fiquei impressionado com a quantidade de adereços, objetos e figurinos que o espetáculo produziu! Parecia pouca coisa, porém quando tudo ficou aglomerado pudemos perceber o volume que fazia.
Ao chegar em Congonhas percebemos o quão pequena era a cidade. Era uma cidadezinha organizada, mas as ruas eram muito estreitas e começamos a ter problemas assim que chegamos. Além da estreiteza das ruas, havia uma obra bem no centro do lugar e nosso ônibus não poderia nos levar até o hotel, nos deixando com todo aquele volume de material cênico há umas três ou quatro quadras do hotel. Isso se soma ao fato que chegamos lá com um tempo maior do que esperávamos e ainda ao fato de que iríamos nos apresentar naquela mesma tarde. Só tínhamos umas duas horas pra levarmos o material para o teatro, voltar no hotel pra fazer o check-in no hotel, despejarmos as malas nos quartos, e irmos para o teatro pra conhecermos o espaço do palco e prepararmos as coisas. Descobrimos que a programação estava atrasada e que não teríamos tempo para ensaiar. Sendo assim, pode se fazer a pergunta “e a comida, quando entra na história?”. Não, não tinha tempo pra isso! Entramos no palco sem se alimentar, mas conseguimos fazer o que podia ser feito, dadas as condições: O espaço não era o esperado, o som deu problema e a iluminação teve que ser improvisada, já que não tivemos tempo pra preparar a nossa.
Assim que terminou o espetáculo, tivemos uma conversa com os jurados do festival. Estávamos apreensivos com o que iríamos ouvir, mas sabíamos que não tinha sido nosso melhor dia. Eles fizeram muitas críticas, umas boas e outras ruins. Falaram que faltou triangulação na comunicação entre os clowns e a plateia, disse que em alguns momentos passamos da medida na graciosidade, enfraquecendo a graça do clown, entre outras coisas. Ficamos um pouco tristes, mas sabíamos que tínhamos esses problemas. Mas pra mim, repito, falo isso por mim, tudo isso foi menor do que o que eles disseram de bom. Entre outras coisas, falaram da nossa capacidade de manter o estado clownesco durante todo o espetáculo e da evidente pesquisa feita para que o espetáculo fosse montado.
Voltamos para o hotel exaustos, mas tive a nítida sensação de dever cumprido. Tomamos banho, tiramos uma breve soneca e fomos jantar. A organização ofereceu uma festa junina que de junina não tinha nada e, por isso, preferimos voltar para o hotel, já que somente nós, os cariocas, estávamos caracterizados de caipiras. No dia seguinte fomos almoçar no refeitório disponibilizado pela equipe e constatamos de vez a incapacidade de organização. Os grupos e companhias de teatro que contaram com o alojamento oferecido pela organização não conseguiu dormir direito, não havia transporte para levá-los até o alojamento, que era uma escola funcionando normalmente, o que adiou ainda mais o descanso dos atores, pois tiveram que esperar o término das aulas. Enfim, muita desorganização e uma comunicação pífia. A única coisa legal nesse dia foi a roda de debate criada depois do almoço. Tivemos contato com vários grupos de teatro, inclusive a Companhia de Teatro Andança (muito bons!).
À noite ficamos para a premiação. Como prevíramos, não fomos premiados em nada. Também, a Célia nos inscreveu como espetáculo adulto e aí fica difícil, né? Mas foi de propósito, já que na época ela estava pensando em começar a nos preparar para linguagem de teatro adulto. E, como era de se esperar, a Companhia Andança foi um sucesso, merecidamente!

  PROJETO PALCO DAS ESCOLAS (OS CLOWNS BAILARINOS)
A apresentação de “Os Clowns Bailarinos”, no projeto Palco das Escolas da COART, aconteceu no dia 27 de junho de 2012, no Teatro Odylo Costa, filho.
Foi um dia penoso para todos nós. Foi tudo muito corrido, por conta do horário inicial da peça, não deu tempo de passarmos a iluminação, muito menos de ensaiarmos, também não deu tempo de nos alimentarmos e até para nos prepararmos pra entrar em cena foi um “Deus nos acuda”. Alguns de nós já estavam exaustos antes mesmo de começar o espetáculo. Sendo assim, tinha tudo pra dar merda!
Surpreendentemente, esta foi a apresentação na qual mais me diverti. Adorei o clima da plateia! A cada cena pude perceber um canal de comunicação com o público e isso, num trabalho de clown, é excepcional. Esta, pra mim, foi de longe a melhor apresentação de “Os Clowns Bailarinos”, o que me levou a refletir algo que a Célia, baseada em teóricos de teatro, sempre diz: o ator só funciona bem na exaustão.
Depois da apresentação, pudemos sair e entrar em contato com o público. Foi super legal perceber como as pessoas gostaram do trabalho e, principalmente, perceber o quanto as crianças se identificaram conosco, enquanto clown!

  Oficina de Perna-de-pau
Eu estava há muito tempo esperando por essa oficina. Sempre achei espetaculares as pessoas que andavam de perna-de-pau.
No primeiro dia da oficina, o grupo foi apresentado aos oficineiros: o Martin e o Eugênio. Na verdade, nosso oficineiro foi o Eugênio, pois o primeiro só veio na primeira aula.
Eu fiquei muito empolgado com a perna-de-pau, mas como fomos divididos em duplas e eu fiquei com Victor, acabei deixando pra subir pra andar depois dele. Era muito difícil ajudar quem estava sobre a perna-de-pau, pois precisávamos ficar com os braços levantados por muito tempo. De fato, no dia seguinte, a musculatura que mais estava dolorida era aquela envolvida com a ajuda ao parceiro na perna-de-pau.
Eu sempre imaginei que fosse difícil se equilibrar sobre a perna-de-pau, mas só pude perceber a verdadeira dificuldade ao utilizá-la pela primeira vez. Todo o seu centro de equilíbrio corporal é modificado. É preciso se adaptar a isso percebendo novas linhas e maneiras de equilíbrio, entendendo o mecanismo das passadas, se deixando levar por um ritmo diferente no andar, etc. Como foi custoso levantar os joelhos para andar da maneira correta, a todo instante era preciso que o Martin e o Eugênio me lembrassem disso. Durante muito tempo fiquei exercitando as passadas e o ritmo do andar me segurando na pilastra, depois comecei a andar de fato agarrado à mão do Victor e por fim arrisquei algumas passadas sem a ajuda do Victor, porém me segurando à corda de segurança.
Na segunda aula, Eugênio teve um problema com a corda de segurança e não conseguiu esticá-la. Por esta razão, fomos obrigados a nos desvencilhar da ideia da corda de segurança. Agora posso perceber que essa falta da corda nos foi positivo, pois, já na segunda aula alguns de nós já estávamos andando sem a ajuda das pessoas. Nesta aula também, Eugênio nos mostrou a maneira correta de se cair de perna-de-pau. Tal demonstração foi muito importante. Pudemos perceber qual o mecanismo corporal para que a queda não fosse dolorida. Assim, perdi um pouco mais do medo. Talvez por isso, algumas aulas depois, tive uma queda feia. Não cai de maneira perfeita, mas não me machuquei. Em minha segunda queda, cai como se deveria: nem barulho houve.
Fiquei muito contente quando começamos a andar sem problemas. Percebi que ao perdermos o medo, a perna-de-pau deixava de ser um objeto separado de nosso corpo e, psicologicamente falando, se unia a nós. Era uma extensão das nossas próprias pernas.
Quando começamos a aprender a descer e subir escadas, senti uma dificuldade enorme, mas na aula seguinte eu já estava bem melhor.
Foi bom ter feito esta oficina! Ela mexeu, entre outras coisas, com meus medos. Hoje me sinto muito mais corajoso do que antes.

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