Oficina de Máscara de Clown
Desde o primeiro momento em que ficamos sabendo faríamos a oficina de
máscara de clown, fiquei super animado e contando os dias para o início. Isso
não é algo para surpreender aqueles que me conhecem desde a infância. Não
mesmo! Sempre gostei da figura do palhaço, sempre gostei das brincadeiras do
palhaço, sempre fui apaixonado por esses bufões. Me lembro até hoje de uma
festa de aniversário feita pra mim com o tema palhaço e mais ainda de uma
fantasia de carnaval elaborada por minha mãe – um macacão com aquele
quadriculado peculiar do Arlequim, nas cores branca, azul e amarela; com
pompons pendurados do peito ao umbigo e nos sapatos; um babado no pescoço um
chapéu coco azul e o rosto maquiado. Enfim, o palhaço sempre foi uma figura
presente e adorada em minha vida.
Quando iniciamos os exercícios da oficina, não senti muita facilidade
em usar o nariz, fisicamente falando – não conseguia respirar bem. Mas, foi
tranquilo. Pra mim o maior problema foi outro: quando punha o nariz, percebia
que naquele momento não podia mostrar o eu que costumo apresentar no dia-a-dia,
no cotidiano. Percebia nitidamente que deveria mostrar justamente o eu que
costumava tentar esconder, mas que estava sempre lá. Mostrar minhas
imperfeições e meu ridículo! Como isso me era muito custoso, tentava dar vida
ao nariz vermelho com “gracinhas” e, é claro, nunca funcionava.
Os dias de oficina foram se passando e aos poucos fui deixando a
máscara diária cair pra dar lugar à menor máscara, porem mais complicada de
usar, a máscara de clown, o nariz de palhaço. Fui ficando cada vez mais
evidente, mais “nu”. Sim, pois quando acentuamos nossos características que
tentamos esconder, nos mostramos como somos de verdade. É certo que o clown
expande, exagera, repete o que em nós faz os outros sorrirem, porém é sempre a
nossa essência que é evidenciada no trabalho clownesco.
Não sei se estou certo, mas tive a impressão de que fui o mais animado
com a montagem do clown. Tive um grande cuidado na escolha do figurino. Pensei
em cada detalhe e fiz algumas ligações à minha fantasia de infância: o
quadriculado da minha calça não é o mesmo, mas está lá, o chapéu coco azul é
idêntico ao que usei aos 4 anos. Desenhei o figurino antecipadamente para
passar alguns dias procurando aquilo que me veio à mente. Adoro o meu figurino,
acho que ele combina perfeitamente com o Pimenta (nome que dei ao meu palhaço
ao lembrar de outra história da minha infância, o dia em que confundi pimenta
com pitanga e enfiei uma na boca – risos).
Minha maquiagem, embora eu tivesse ideia do que eu queria fazer, foi
feita de supetão. Como todos sabem tenho uma memória podre e, no dia de criar
minha maquiagem, que foi em uma incursão no CAp UERJ, uma de nossas atividades
para fechar a oficina, deixei o espelho em casa. Só pra variar! Como havia
poucos espelhos, tive que me maquiar quase que intuitivamente e, óbvio, não
ficou muito bem como eu queria. Primeiro que ficou forte demais e eu queria uma
maquiagem mais leve e, segundo, fiz um retângulo nas bochechas, quando na
verdade queria um triângulo. Mas o dia com as crianças e os adolescentes foi
ótimo! Tive uma receptividade muito grande e percebi que o Pimenta funcionava.
O mais legal foi perceber que além de funcionar, eu consegui segurar o estado
clownesco o que é muito difícil.
Nossa segunda atividade para fechar este ciclo foi um “Palhaço Oculto”
em um restaurante. Nossa! Foi espetacular perceber como o palhaço encanta não
só as crianças e os adolescentes, mas também os adultos. Estes voltavam a ser
criança quando conversavam com um de nós. Viramos uma atração do dia no
restaurante. Quem tirou o Pimenta foi o Sinésio, palhaço vivido pelo ator Lucas
Matos e que admiro aos montes! Isso me deixou muito contente! O presente para o
Pimenta não poderia ser outro: SAL, muito sal para temperar. Tinha sal
refinado, grosso, saleiros antigos e até sal líquido! Muito original. Adorei!
Ainda há muito que se crescer em meu trabalho de clown, mas fico muito
contente sempre que dou lugar para o Pimenta! Vejo que do início do trabalho
pra cá, já tive muito crescimento e, assim, percebo que o Pimenta, longe de ser
um personagem, uma figura acabada, pronta, ele é uma parte de mim que
juntamente comigo vai se transformando com o passar do tempo e da minha
história.
Processo de montagem do
espetáculo “Os Clowns Bailarinos”
O trabalho de clown me dá muito prazer! Por esta razão achei que seria
fácil uma montagem de espetáculo clownesco. Me enganei profundamente! As
dificuldades são outras, mas existem. E como existem!
Tá certo que o meu clown, o Pimenta, torna minha péssima memória em
evidência ainda maior, embora goste de mandar. Isso faz com que ele seja um
líder retardado e desastrado. Até aí, tudo bem. O pior foi se deparar com o
fato de que o espetáculo de clown, como qualquer outro, é marcado. E pra
entender a necessidade de controlar o “retardamento” do pimenta e lembrar as
coisas todas que eu tinha de fazer durante o espetáculo? Mas esse não era um
problema só meu. Quase todos nós nos deparamos com essa novidade, exceto o
Lucas que já havia vivido uma experiência de montagem de espetáculo de clown.
Como o espetáculo fala de um grupo de clowns bailarinos montando uma
apresentação de “O Lago dos Cisnes”, algumas cenas foram de dança e uma delas
me ajudou nesse processo de controlar o Pimenta e não ser controlado. A cena do
Pas de quatre me ajudou a entender isso perfeitamente, pois se não controlasse
o Pimenta, não iria ser possível marcá-la. É uma cena de coreografia.
Bom, o espetáculo tinha que sair, então tivemos de entender como fazer
isso na prática. E conseguimos, alguns mais que os outros, mas o espetáculo
saiu e ficou muito bonito! Ao final, tínhamos um espetáculo engraçado, gracioso
e com qualidade estética. “Os Clowns Bailarinos” é um bom espetáculo,
principalmente por chegar e tocar a criança sem pieguices. Por esta mesma razão
encanta adultos de todas as idades.
Fiquei muito feliz quando a Célia nos comunicou que havíamos sido
aceitos no PROFEST para defender o espetáculo “Os Clowns Bailarinos”.
Tivemos que preparar tudo como se o espetáculo já estivesse pronto,
embora ainda não tínhamos marcado quase
um terço do espetáculo. Foi uma correria só, mas como a gente, da Nósconosco,
sempre diz “a Célia sempre dá um jeito”. Ela conseguiu finalizar as marcações
do espetáculo a tempo. Mas, é claro que a cena final ficou pra decidirmos no
teatro, em Congonhas do Campo. Se isso não acontecesse, não seria a Célia nossa
diretora. Não é por incapacidade dela. Ela sempre pensa em várias maneiras, mas
todas dependem de uma série de possibilidades.
Nos dias que antecederam nossa viagem, a Célia achou melhor reservarmos
hotel pra Companhia. Fizemos isso. Alugamos um ônibus muito bom. Nem acho que
era tão necessário assim, apesar de ter adorado o conforto por ele
proporcionado. Minas não é tão longe assim! Separamos todo o material utilizado
no espetáculo e fiquei impressionado com a quantidade de adereços, objetos e
figurinos que o espetáculo produziu! Parecia pouca coisa, porém quando tudo
ficou aglomerado pudemos perceber o volume que fazia.
Ao chegar em Congonhas percebemos o quão pequena era a cidade. Era uma cidadezinha
organizada, mas as ruas eram muito estreitas e começamos a ter problemas assim
que chegamos. Além da estreiteza das ruas, havia uma obra bem no centro do
lugar e nosso ônibus não poderia nos levar até o hotel, nos deixando com todo
aquele volume de material cênico há umas três ou quatro quadras do hotel. Isso
se soma ao fato que chegamos lá com um tempo maior do que esperávamos e ainda
ao fato de que iríamos nos apresentar naquela mesma tarde. Só tínhamos umas
duas horas pra levarmos o material para o teatro, voltar no hotel pra fazer o
check-in no hotel, despejarmos as malas nos quartos, e irmos para o teatro pra
conhecermos o espaço do palco e prepararmos as coisas. Descobrimos que a
programação estava atrasada e que não teríamos tempo para ensaiar. Sendo assim,
pode se fazer a pergunta “e a comida, quando entra na história?”. Não, não
tinha tempo pra isso! Entramos no palco sem se alimentar, mas conseguimos fazer
o que podia ser feito, dadas as condições: O espaço não era o esperado, o som
deu problema e a iluminação teve que ser improvisada, já que não tivemos tempo
pra preparar a nossa.
Assim que terminou o espetáculo, tivemos uma conversa com os jurados do
festival. Estávamos apreensivos com o que iríamos ouvir, mas sabíamos que não
tinha sido nosso melhor dia. Eles fizeram muitas críticas, umas boas e outras
ruins. Falaram que faltou triangulação na comunicação entre os clowns e a
plateia, disse que em alguns momentos passamos da medida na graciosidade,
enfraquecendo a graça do clown, entre outras coisas. Ficamos um pouco tristes,
mas sabíamos que tínhamos esses problemas. Mas pra mim, repito, falo isso por
mim, tudo isso foi menor do que o que eles disseram de bom. Entre outras
coisas, falaram da nossa capacidade de manter o estado clownesco durante todo o
espetáculo e da evidente pesquisa feita para que o espetáculo fosse montado.
Voltamos para o hotel exaustos, mas tive a nítida sensação de dever
cumprido. Tomamos banho, tiramos uma breve soneca e fomos jantar. A organização
ofereceu uma festa junina que de junina não tinha nada e, por isso, preferimos
voltar para o hotel, já que somente nós, os cariocas, estávamos caracterizados
de caipiras. No dia seguinte fomos almoçar no refeitório disponibilizado pela
equipe e constatamos de vez a incapacidade de organização. Os grupos e
companhias de teatro que contaram com o alojamento oferecido pela organização
não conseguiu dormir direito, não havia transporte para levá-los até o
alojamento, que era uma escola funcionando normalmente, o que adiou ainda mais
o descanso dos atores, pois tiveram que esperar o término das aulas. Enfim,
muita desorganização e uma comunicação pífia. A única coisa legal nesse dia foi
a roda de debate criada depois do almoço. Tivemos contato com vários grupos de
teatro, inclusive a Companhia de Teatro Andança (muito bons!).
À noite ficamos para a premiação. Como prevíramos, não fomos premiados
em nada. Também, a Célia nos inscreveu como espetáculo adulto e aí fica
difícil, né? Mas foi de propósito, já que na época ela estava pensando em
começar a nos preparar para linguagem de teatro adulto. E, como era de se
esperar, a Companhia Andança foi um sucesso, merecidamente!
PROJETO PALCO DAS ESCOLAS (OS CLOWNS BAILARINOS)
A apresentação de “Os Clowns Bailarinos”, no projeto Palco das Escolas
da COART, aconteceu no dia 27 de junho de 2012, no Teatro Odylo Costa, filho.
Foi um dia penoso para todos nós. Foi tudo muito corrido, por conta do
horário inicial da peça, não deu tempo de passarmos a iluminação, muito menos
de ensaiarmos, também não deu tempo de nos alimentarmos e até para nos
prepararmos pra entrar em cena foi um “Deus nos acuda”. Alguns de nós já
estavam exaustos antes mesmo de começar o espetáculo. Sendo assim, tinha tudo
pra dar merda!
Surpreendentemente, esta foi a apresentação na qual mais me diverti.
Adorei o clima da plateia! A cada cena pude perceber um canal de comunicação
com o público e isso, num trabalho de clown, é excepcional. Esta, pra mim, foi
de longe a melhor apresentação de “Os Clowns Bailarinos”, o que me levou a
refletir algo que a Célia, baseada em teóricos de teatro, sempre diz: o ator só
funciona bem na exaustão.
Depois da apresentação, pudemos sair e entrar em contato com o público.
Foi super legal perceber como as pessoas gostaram do trabalho e,
principalmente, perceber o quanto as crianças se identificaram conosco,
enquanto clown!
Oficina de Perna-de-pau
Eu estava há muito tempo esperando por essa oficina. Sempre achei
espetaculares as pessoas que andavam de perna-de-pau.
No primeiro dia da oficina, o grupo foi apresentado aos oficineiros: o
Martin e o Eugênio. Na verdade, nosso oficineiro foi o Eugênio, pois o primeiro
só veio na primeira aula.
Eu fiquei muito empolgado com a perna-de-pau, mas como fomos divididos
em duplas e eu fiquei com Victor, acabei deixando pra subir pra andar depois
dele. Era muito difícil ajudar quem estava sobre a perna-de-pau, pois
precisávamos ficar com os braços levantados por muito tempo. De fato, no dia
seguinte, a musculatura que mais estava dolorida era aquela envolvida com a
ajuda ao parceiro na perna-de-pau.
Eu sempre imaginei que fosse difícil se equilibrar sobre a perna-de-pau,
mas só pude perceber a verdadeira dificuldade ao utilizá-la pela primeira vez.
Todo o seu centro de equilíbrio corporal é modificado. É preciso se adaptar a
isso percebendo novas linhas e maneiras de equilíbrio, entendendo o mecanismo
das passadas, se deixando levar por um ritmo diferente no andar, etc. Como foi
custoso levantar os joelhos para andar da maneira correta, a todo instante era
preciso que o Martin e o Eugênio me lembrassem disso. Durante muito tempo
fiquei exercitando as passadas e o ritmo do andar me segurando na pilastra,
depois comecei a andar de fato agarrado à mão do Victor e por fim arrisquei
algumas passadas sem a ajuda do Victor, porém me segurando à corda de
segurança.
Na segunda aula, Eugênio teve um problema com a corda de segurança e
não conseguiu esticá-la. Por esta razão, fomos obrigados a nos desvencilhar da ideia
da corda de segurança. Agora posso perceber que essa falta da corda nos foi
positivo, pois, já na segunda aula alguns de nós já estávamos andando sem a
ajuda das pessoas. Nesta aula também, Eugênio nos mostrou a maneira correta de
se cair de perna-de-pau. Tal demonstração foi muito importante. Pudemos
perceber qual o mecanismo corporal para que a queda não fosse dolorida. Assim,
perdi um pouco mais do medo. Talvez por isso, algumas aulas depois, tive uma
queda feia. Não cai de maneira perfeita, mas não me machuquei. Em minha segunda
queda, cai como se deveria: nem barulho houve.
Fiquei muito contente quando começamos a andar sem problemas. Percebi
que ao perdermos o medo, a perna-de-pau deixava de ser um objeto separado de
nosso corpo e, psicologicamente falando, se unia a nós. Era uma extensão das
nossas próprias pernas.
Quando começamos a aprender a descer e subir escadas, senti uma
dificuldade enorme, mas na aula seguinte eu já estava bem melhor.
Foi bom ter feito esta oficina! Ela mexeu, entre outras coisas, com
meus medos. Hoje me sinto muito mais corajoso do que antes.
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