Foi aproximadamente na metade de 2012 que recebemos a
notícia: ensaiaríamos uma peça dirigida por um de nós. Lembro-me agora com
alguma dificuldade das palavras de Célia: “A Nosconosco sempre se propôs a ser
uma escola de formação de atores que transitassem entre diversos ramos do
teatro - inclusive a direção. É por essa razão que, conversando com o Roberto,
decidi permitir ao Lucas dirigir uma leitura dramatizada com vocês”.
Não era a primeira vez. Soubemos que, havia alguns anos, a
mesma tentativa fora feita, sem sucesso, com o Bruno Bessa, que assinaria a
direção de A Capital Federal, de Artur Azevedo. Célia nos informou que, no meio
do caminho, Bruno desistira, e ela precisou tomar as rédeas do trabalho. O que
seria feito agora era uma nova aposta alta. Tendo em vista a longa carreira do
Lucas na companhia, 10 anos, ela decidira dar-lhe essa chance, essa prova de
confiança.
Ficamos todos empolgados. O texto seria de escolha livre,
então tudo podia acontecer. O que sairia daquela cabeça? Que tipo de texto
leríamos? Iríamos gostar dele? Seria chato? Bom? Como era o Lucas como diretor?
Em todo caso, seria uma maneira de nos dedicarmos a outros projetos que não o
teatro para crianças, como é a tradição da companhia.
Na semana seguinte, soubemos: em virtude do ano de Nelson
Rodrigues, o texto que faríamos seria “Senhora dos Afogados’. Nossa primeira
missão era ler o texto e procurar o que fosse necessário sobre a vida do autor
- enfim, deveríamos nos informar sobre o terreno em que estávamos pisando.
Outra surpresa boa nos aguardava: Célia informou que estaria
disposta a trabalhar junto conosco, atuando. As novidades eram deliciosamente
animadoras.
Fomos informados de que, como na Capital, o trabalho de
leitura dramatizada, para que tivesse a cara da Nosconosco, não se restringiria
a uma leitura fria: haveria figurino, cenário, movimentação, sonorização. O
trabalho prometia.
Chegamos ao dia da leitura com o texto , ansiosos para ouvir
as vozes que sairiam do papel. Todos ficamos surpresos com a leitura da Avó
pela Célia, e tivemos a certeza de que, ao menos um papel estaria definido.
Foi logo na primeira leitura que imaginei que a mim caberia
o papel de Paulo. Havia três homens na peça: o pai, o noivo, e o filho. Por
questões de biótipo e de voz, bem como o perfil do próprio personagem - um
jovem entre 16 e 18 anos -, não me surpreendi quando recebi o papel. Era o
começo de um desafio, como em qualquer experiência teatral.
Nosso processo de trabalho se daria da seguinte forma:
começaríamos montando cena por cena, criando vozes e montando uma espécie de
sonoridade para os personagens, bem como a sonorização de cada cena, da qual se
encarregaria o grupo que não estivesse em cena.
Cada um deveria buscar a própria musicalidade de seu
personagem. Lembro-me bem do conselho do Lucas: o Paulo deve ter uma voz
melodiosa, afastada, como se não vivesse nesse mundo. Foi um ponto de partida -
problemático para mim, mas ainda assim um ponto.
À medida que líamos, as dificuldades surgiam. Tivemos
diversos problemas de desatenção e dispersão - algo sempre reclamado pela
Célia. Por vezes o trabalho se tornava maçante devido ao excesso de voltas e
repetições por conta de erros bobos: via-se isso nos olhos de cada um de nós.
Somou-se a isso nossa falta de espaço: ensaiar a leitura na sala do programa
era extremamente ruim para um grupo acostumado com a sala de dança. Mais para
frente, a necessidade de um espaço maior nos levou a ensaiarmos no hall do
décimo andar, durante a greve, o que também nos cansava em excesso por conta
das dispersões e da acústica horrorosa.
O primeiro momento crítico se deu com a saída da Luíza, a
quem inicialmente fora atribuído o papel da personagem principal da peça,
Moema. Sua saída catalisou diversas alterações, as quais também nos atordoaram
no começo, mas com as quais aprendemos a lidar: Célia se retirou igualmente da
peça e o coro outrora imaginado foi reduzido para duas vizinhas - que se saíram,
aliás, bastante bem no que se propuseram a fazer, sobretudo a Fernanda, que me
surpreendeu positivamente. Foi Luana quem se tornou Moema.
A pouco menos de dois meses de nossa (única) apresentação,
ainda não tínhamos o espetáculo pronto. Quando chegamos à etapa de movimentação,
as dificuldades aumentaram. Se já era difícil para nós deixar constante nossa
voz para um personagem (numerosas foram as vezes que Célia e Lucas apontaram
que nos perdíamos na leitura e voltávamos a ter uma voz cotidiana), o problema
se agravou quando precisamos nos mexer e nos posicionar.
Houve um momento em que nos encontrávamos desanimados,
parecendo querer desistir. O resultado não parecia bom o bastante.
Insistir, nesse momento, foi essencial. Nessa etapa,
frequentemente me lembrava de um antigo grupo em que participara, e cujo
resultado fora nulo devido à falta de cara-de-pau dos integrantes de ter fé no
próprio trabalho. Caio Fenando Abreu diz: “Tem coisa mais autodestrutiva do que
insistir sem fé nenhuma?”. Eu respondia, em segredo: tem sim - não querer
encontrar a própria fé. No meu íntimo, ir até o cabo do processo era uma
questão de orgulho.
A uma semana da apresentação, na Semana de Nelson Rodrigues
da COARTE, UERJ, experimentando os figurinos e a incluindo da trilha sonora a
ser tocada no acordeon (escolhida por nós através de canções de Dorival
Caymmi), nosso ânimo foi renovado: algo de bom sairia dali! Éramos capazes, de
fato, de produzir algo interessante!
Foi também nessa época que ouvi do Lucas coisas que pretendo
guardar comigo para sempre, um novo entendimento do que seja o teatro e o
ensaio: “Ensaiar não é fazer tudo certinho, sempre. É criar também seu próprio
repertório de improviso para o caso de imprevistos”; e ainda, “Façam tudo com o
coração leve. A tragédia não deve ter o coração pesado”.
No dia da apresentação, estresse habitual, acrescido de
reclamações de falta de organização na divisão do trabalho. Por não nos
organizarmos direito, acabamos sem tempo de comer, e mesmo de nos arrumarmos, o
que ampliou nosso nervosismo.
O espaço de apresentação era limitado. Todos concordamos que
o trabalho ficaria muito mais interessante se apresentado num palco, e não numa
sala. Descaracterizamos o máximo que pudemos o espaço - criando uma ambientação
até interessante - e nos jogamos.
Ao fim, não penso que tenhamos feito um mau
trabalho.Tivemos, eu e Luana, até mesmo oportunidade de por em prática uma
improvisação por conta de um erro grotesco nosso de marcação, que acabou
passando sem problemas. Saímos todos satisfeitos, e isso já é um grande passo,
se considerarmos nosso estado de desânimo na metade do processo. Ouvimos
elogios de pessoas próximas, de pessoas não tão próximas, e até mesmo de outras,
surpresas por não esperarem esse tipo de trabalho adulto no seio da Nosconosco.
Queríamos mais. Queríamos mais tempo para ensaiar, mais
tempo para criar, para nos prepararmos. Queríamos um teatro para apresentar.
Queríamos iluminação.
Infelizmente, nossas ambições foram frustradas com a saída
do Lucas, semanas depois do término do trabalho.
Ainda assim, penso que ao menos teremos uma boa recordação
de uma experiência nova e, no fim, animadora. Conseguimos começar e terminar um
processo, quase sozinhos; e isso valeu tudo.
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