sexta-feira, 25 de janeiro de 2013

Saulo Rocha / 2010


07/06/2010

Primeiro Trabalho com Venda nos Olhos

Chego atrasado e a Ilana já iniciou o trabalho de voz. No aquecimento, formaram-se duplas em que um conduzia o parceiro, utilizando apenas um dedo. Esse, por sua vez, estava de olhos fechados e atento ao leve toque de dedos que o conduzia. Seguem os habituais exercícios de respiração, dicção e ritmo. Ao fim de uma hora que passa voando, a aula de voz termina.
            No começo do trabalho de teatro acordamos o corpo. Noto que o grupo já possui certa autonomia no aquecimento e “abertura dos canais” que nos auxilia na concentração e percepção. De qualquer forma, Maricélia fica atenta e corrige um ou outro pontualmente. Percebo que nessa etapa a interferência tem sido menor.

Desafio
            O encontro de hoje propõe o início do trabalho com máscaras, utilizando apenas uma venda nos olhos. A proposta é simples na teoria e complexa na execução como todo bom exercício de teatro. Devemos, segundo as palavras da Maricélia, vendar os olhos ritualisticamente; parar em um ponto da sala em posição fetal; iniciar sem pressa a exploração do espaço com o corpo todo e ao encontrar um colega não fugir, mas explorar com toque.
            Ao fim da explicação, ainda no ritmo acelerado da correria trabalho-teatro me sentia desconcentrado e o fato de não saber o que esperar me fazia sentir incapaz de vivenciar o processo sem agir de forma mecânica apenas cumprindo o que foi exigido. Isso porque tenho sido muito racional.
            Depois que achei o meu ponto na sala e assumi posição fetal confortável, o primeiro pensamento mais nítido que me ocorreu foi a indicação de não ter pressa. Juntei essa máxima ao que havíamos aprendido sobre respiração na aula de voz anterior e esse virou meu principal foco.
Na medida em que os pensamentos foram cessando, a consciência de cada pequena parte do corpo crescia. Junto com ela, uma sensação de total comunhão com o ambiente. Ao mesmo tempo em que tudo era novo e percebido de um novo ângulo, tudo era familiar, confortável.
            Aos poucos senti uma energia acumulada no corpo que parecia guiada pela venda e me levava à ação. Prossegui deitado, mas em movimento, utilizando todo corpo para perceber o espaço, em movimento leve e não controlado pela outrora excessiva racionalidade.
            Em algum momento percebo a melodia de uma música e ela também soa familiar, adequada e integrada ao ambiente, como todo o resto.
            Estou em movimento sempre pelos cantos, não porque me atenho ao referencial da parede, mas porque estou realmente envolvido na exploração da superfície que se alterna entre o frio e liso do espelho com a aspereza e aspecto empoeirado do tijolo.
            No meio do meu caminho, esbarro com uma perna humana e isso não causa surpresa, sinto a perna como parte do ambiente, como elemento que dele pertence e não como organismo externo, alheio.
            Esse encontro faz ter consciência da amplitude do espaço, que abrigava diversas viagens individuais com conforto. Isso me dá impulso para me deslocar, ainda deitado, para o centro da sala em gestos amplos e seguindo a melodia. Incrivelmente não esbarro com ninguém e quando sinto o primeiro se aproximar, recebemos o comando de abrir os olhos e voltar para roda. Em suma, voltar para o mundo real numa viagem que, conforme colocado pela professora, é uma viagem em que ninguém sai indiferente, imune.
            Concordo em silêncio e com a mesma dificuldade que tive para embarcar na viagem inicialmente, retorno ao mundo real, certo de que algo em mim se modifica para melhor. Assim como cada vivência como essa que o teatro proporciona.

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