quarta-feira, 23 de janeiro de 2013

Victor Ribeiro / 2011


Relatório das atividades do dia 23/02

            Nosso encontro, diferente dos outros, começou pela confecção das máscaras. Pauline e eu, bolsistas do programa, chegamos muito mais cedo do que os outros para nosso trabalho, e vimos que todas as bexigas haviam murchado, deixando apenas os moldes de jornal. No entanto, isto não atrapalhou em nada o processo, uma vez que todos haviam feito pelo menos uma camada de jornal, podendo continuar trabalhando sobre ela sem o menor problema. Evidentemente, havia máscaras um pouco mais rígidas que as outras: uns haviam conseguido fazer mais camadas do que outros.
            Alguns de nós, cujos balões haviam estourado na semana anterior, trouxeram seus moldes de casa, e puderam já começar a inserir detalhes nas máscaras, tais como narizes e boca. O restante de nós, eu inclusive, preferiu reforçar as camadas – em certos casos, bastava ver as máscaras contra a luz que se evidenciava a pobreza de jornal em algumas partes, o que poderia prejudicar a rigidez do objeto.
            Passado isso, nos dedicamos à leitura do texto da semana: “A Commedia Dell’Arte no Studio de Meyerhold: um trabalho sobre o corpo”, de Beatrice Picon-Vallin. Sem nenhum comentário precedente, começamos a leitura.
            A primeira parada significante que fizemos foi no trecho em que um aluno do Studio afirma que “o propósito [do trabalho] era ‘partir da Commedia dell’Arte, não de voltar a ela’”. Foi-nos interessante reparar como essa posição é recorrente nos trabalhos com Commedia dell’Arte, uma vez que este não era o primeiro texto em que figurava uma afirmação desse tipo. A grande vontade, então, dos grupos de teatro, assim como a nossa, era e é a de tomar este ou aquele elemento da Commedia para construir uma determinada pratica teatral mais voltada para o trabalho de corpo. Até porque, e isto também fez parte de nossa discussão, não se sabe até onde conseguiríamos recuperar a Commedia dell’Arte original, sobretudo porque ela corresponderia muito especificamente a uma certa época, com personagens-tipo de uma certa região (no caso, a Itália). Porém, a pergunta continua: por que nenhum grupo “se atreve” a retomar a Commedia dell’Arte?
            Lembramo-nos ainda da experiência do grupo Moitará, que a partir da Commedia dell’Arte, construiu em um espetáculo o que se poderia chamar de uma “Comédia da Arte’: se aproveitou de tipos característicos do Brasil para confeccionar máscaras”.
            No texto de Picon-Vallin, sentimos uma enorme de dificuldade de compreender certas passagens, principalmente devido à nossa ignorância acerca dos autores russos mencionados. Por exemplo, há um trecho em que a autora fala da vontade do Studio de Meyerhold de despertar o “teatro amnésico”, ou mesmo as inúmeras referências feitas pela autora à revista “O amor das três laranjas”, da qual nunca tínhamos nem mesmo ouvido falar, não sabendo portanto nem mesmo do que tratava. Nem mesmo os tópicos enumerados por Meyerhold sobre os princípios que definem o jogo e a composição cênica fizeram muito sentido para mim. Atribuo isso a nunca ter visto em teatro nada que se assemelhasse a essa prática.
            Mas nossa discussão mais acalorada, por assim dizer, não se deu no campo do texto de Picon-Vallin.  Se houve um dia em que mais conversamos e discutimos algo, dentro daquele grupo de 16 pessoas, definitivamente foi este. O que fizemos desta vez foi menos uma discussão sobre o teatro em si, e mais sobre a nossa própria condição de grupo teatral.
            Isso começou com um comentário feito por nossa diretora, em que ela se alegrava por ter, depois de pelo menos 10 anos, um grupo que “retornava inteiro das férias”, isto é, que não desistia no meio do caminho. A partir disso, ela disse se animar a construir algo, mesmo sabendo que nosso grupo estava ali “só de passagem”. O que ela quis dizer, na verdade, foi que tinha claro em sua cabeça que todos ali tinham outras prioridades que não o teatro e, bastava que uma delas se apertasse para que o teatro saísse prejudicado.
            Falamos então do quanto o “sair do grupo” era danoso a qualquer tipo de trabalho e rememoramos alguns casos ocorridos no passado, em que alguns componentes deixaram o grupo em meio a processos importantes. A discussão que se deu a partir daí foi a seguinte: o que é se comprometer com um grupo? Afinal, houve casos em que os componentes que saíram afirmaram que queriam apenas “experimentar uma temporada” ou “experimentar um festival”, sem necessariamente se importar com todo o processo – ou seja: assim que passar a experiência desejada, abandonar o grupo, não importando o quanto a peça precisasse ser reapresentada.
            Disso, pulamos para o problema das substituições no teatro em que fazíamos em nosso grupo. Segundo a diretora, cada personagem é construído de forma a se adaptar ao ator que o faz (apesar do contrário também ocorrer), de modo que as substituições acabam por ser falhas: não funcionam tão bem quanto com os atores originais.
            Lucas nos lembrou, num certo momento, o quão angustiante é para um ator (e mais ainda para um não-ator) passar mais tempo em processo de montagem de uma peça do que efetivamente fazendo a peça. É claro para nós, no entanto, que para produzirmos algo de qualidade, era necessário um longo tempo de preparo e montagem – como foi o caso da peça Karavançarai, interpretada pela companhia anos atrás, em que foram 2 anos de preparo para apenas duas apresentações (belíssimas, segundo aqueles dentre nós que as assistiram), novamente devido a desistências.
            A conclusão a que chego, no fim, é que o que se tem a fazer é estabelecer um certo contrato com o teatro. Se começamos um processo de montagem, se aceitamos o desafio, é preciso que fiquemos nele até o final, principalmente quando sabemos os problemas que desistências desse tipo acarretam. Eu, pelo menos, já tomei minha decisão quanto a isso.

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