segunda-feira, 27 de maio de 2013

Fernanda Corleone / 2013.1

 Iniciamos com o trabalho corporal, depois o trabalho corporal junto com as melodias de cantigas de roda , cirandas... e demos inicio dessa forma. Primeiro numa sala que não era “nossa”, depois de toda a expectativa, a “nossa” sala ficou pronta e conseguimos  voltar a usa-la, ufa!
E nesse meio tempo a Célia definiu que ator/atriz iria ter qual personagem, nós ainda continuamos trabalhando com esses princípios, agora mais focado, cada um em seu personagem.
O grupo desse espetáculo ficou fechado em nada mais, nada menos que... nós 7! Aline Deyques, Márcia Cazer, Victor Ribeiro, Ludo Lopes, Pauline Suarez, Saulo Rocha e eu.
Depois A Célia ainda nos comunicou que os colegas Rodrigo e Camila que trabalham como bolsistas no Procenium iriam se unir a nós com apoio musical e afins, ficamos muito felizes, bem vindos aos dois e obrigada!!!
Até agora, estamos marcando as primeiras cenas e vejo uma grande possibilidade de um ótimo espetáculo vindo por aí. Acho que a pressão é maior do que todos poderiam imaginar, mas creio no potencial de trabalho e na paixão desse grupo.


Fernanda Corleone.

Saulo Rocha / 2013.1

Rio de Janeiro, 25 de abril de 2013.

Processo Romeu e Julieta – Diário de Bordo I

                Ontem foi o terceiro dia de ensaio já com marcação de cena, todos reunidos e Romeu e Julieta na perna-de-pau. Sinto como se fosse a primeira vez que monto um espetáculo do zero e de certa forma é mesmo.
Tenho medo. Não estou no tom, mas ao mesmo tempo começo a ver uma possibilidade de caminho. A necessidade de estudar é mais latente do que nunca. Descobrir Shakespeare; fazer uma imersão em seu tempo e ler outros de seus textos teatrais se tornou tão fundamental quanto encontrar a postura; desenvolver a voz e pensar como Romeu.
                Sinto um espécie de responsabilidade em montar Romeu e Julieta e parece que carrego o peso de uma bagagem que ainda não me é familiar. Preciso me relacionar mais com a história de amor mais famosa do mundo. Ao mesmo tempo, preciso me descobrir como ator. Desafiar-me, testar meus conhecimentos, perder meus medos do erro e do ridículo.
                Amar é ridículo e aqui amo multiplamente. Amo ao Teatro, amo o fazer coletivo, amo atuar, amo o amor e suas histórias. Agora penso que preciso assumir os riscos desse amor. Encontrar o equilíbrio em meio a tanto desequilíbrio.
                De ordem prática, quero, no mínimo, aprender bem a perna-de-pau, entender melhor sobre a biografia de Shakespeare e estudar mais o texto de Romeu e Julieta.
                Tudo que posso saber, falar sobre ou intuir é apenas meu ponto de vista. No teatro (e na vida) não há verdades absolutas e nesse instante não estou em condições de enxergar uma verdade com clareza a respeito do processo de montagem, do meu processo criativo. Às vezes me acho num outro ritmo do grupo. Por vezes mais lento, por vezes mais acelerado. A sensação de muita informação simultânea e pouco espaço interno vazio para digerir, agir e decidir.
Andar de perna-de-pau, decorar texto, protagonizar, entender e montar Shakespeare e cantar. Tudo isso parece a reunião dos maiores tabus do meu processo artístico num só fazer teatral. Tem sido difícil, doloroso, mas altamente edificante.
Já passei pela fase do desânimo, da vontade de desistir, de me achar incapaz. Mas no “vai ou racha” ou decidi ir. Fui. Agora não vou e não quero abandonar o navio nem nadar para morrer na praia. Só me resta tentar o meu melhor!
Estudar. Tentar. Praticar. Insistir. Resistir. Amar, como eu e como Romeu.

Saulo Gomes Rocha

Victor Ribeiro / 2013.1

18/04/13
Foi nossa segunda semana de trabalho focado em Romeu e Julieta. Nas semanas anteriores, trabalhamos alguns pontos de teoria, lendo um texto de um discípulo do Grotowski, mas tivemos de interromper o trabalho diversas vezes, seja por razões médicas, pessoais ou mesmo por feriados e feriadões esporádicos. Tenho a impressão de que passamos os primeiros meses de trabalho sem “engrenar” de verdade.
Senti nesse tempo muita falta de um trabalho de corpo. Ao retornarmos, todos nós notamos nossa dureza e imprecisão, causados pela falta de uma rotina de treinamentos. Reparamos que não trabalhávamos algo corporal desde há muito tempo, já que nosso trabalho se voltara para o Clown.
Nesse tempo, a falta de um espaço nosso nos desanimou. Como a sala de dança em que costumamos ficar estava em obras, sobrou-nos a sala 3 do Centro Cultural da UERJ, a qual apelidamos de “Sala da Nancy” por ser ela a suposta “dona” do lugar, já que ela foi quem conseguiu os recursos para sua construção.
Antes de começarmos o trabalho de fato, há algumas semanas fizemos uma seleção para os personagens. A partir de apresentações que preparáramos, ficou definido que Saulo seria Romeu, Pauline seria Julieta, Aline seria a Ama, eu seria o Corifeu e Márcia, Fernanda e Luiz, o coro. Foi a partir desses personagens que nosso trabalho se iniciou na semana passada.
Fomos orientados a trabalhar com formas (como em Arlequim) que nos remetessem a esses papéis. Construímos em média três formas, cada um, e demos um texto em gromelô. O pessoal da companhia apontou que eu me saíra muito bem. Eu mesmo me senti satisfeito com o trabalho que apresentei, pois ele saíra aparentemente do jeito que eu imaginava. E eu até tinha uma explicação para isso: o uso do gromelô. O que fiz, nesse trabalho, foi imaginar um pequeno texto (semelhante ao que já tinha lido de Romeu e Julieta) e improvisar o gromelô a partir disso. Essa estratégia guarda relação com textos que lemos há tempos, e que indicavam que improvisar de nada adianta sem que se tenha uma linha de estrutura. Ora, ao imaginar um texto, meu gromelô ganhava intenção (já que eu sabia o que  queria dizer), ritmo (já que não se tornava um monte de sílabas aleatórias) e uma estrutura fixa (útil caso eu precisasse repetir a improvisação. É claro que as palavras, se é que se pode chamar os sons que emiti de palavras, é claro que elas não seriam as mesmas. Mas a intenção seria a mesma, e isso fez toda a diferença.
As formas que criei também não eram de todo ruins. Guardavam alguma relação com o trabalho da Simone (o Corifeu da primeira montagem de Romeu), mas eu sentia que ainda tinham um toque meu. O único problema era não deixar esse toque se transformar num vício. O trabalho de ator é, antes de tudo, desconstruir. Tenho certeza de que tenho formas “clichê” no meu corpo, mas às vezes vejo isso até mesmo no pessoal da companhia. Não poucas vezes nós mesmos externamos isso. Luiz parece ter dificuldade em sair da Rainha de Alice; Marcinha, do Humpty Dumpty de Alice e do seu palhaço Pipi.
Ainda na semana passada, levamos o texto inicial de Romeu e Julieta decorado, e organizamos um esboço da entrada. Foi nesse momento que me deparei com minha primeira grande dificuldade: conjugar atuação e música no acordeão. Andar, tocar, cantar e olhar pareciam atividades de execução simultânea impossível. Célia me alertou para que eu “deixasse de ser músico e passasse a ser ator”. Lembrei-me da crítica que recebi, a mesma, exatamente, no momento do cortejo ao fim do trabalho com a perna-de-pau. Preciso atentar para esse ponto. Preciso tomar cuidado.
Repetimos e limpamos a estrutura nesta semana, e de um modo geral nos safamos, apesar de uma ou outra dificuldade (Aline não conseguia gritar do mesmo jeito da primeira vez, Saulo e Pauline ainda não conseguiam se manter na perna-de-pau, eu não conseguia repetir exatamente o que fizera nas primeiras vezes...). Ao menos meu treinamento caseiro valeu a pena: já conseguia me preocupar muito menos com tocar o acordeão do que com a atuação.
Hoje nos reunimos na sala da Célia, para discutir questões do texto, que teve acréscimos e mudanças. Nosso texto é escrito quase simultaneamente à construção. Embora conheçamos a peça e seu enredo (e seu final, é claro), estamos recebendo o texto a prestações. Ouvimos músicas do Quinteto Armorial, cantamos as cantigas “Se essa rua fosse minha” e “Alecrim” e ainda sugerimos outras músicas. Precisamos nos afastar de nossa fonte inspiradora, o Romeu e Julieta do Grupo Galpão. Sendo as músicas um dos pontos fortes do espetáculo, é nossa missão procurar uma trilha sonora que não remeta tanto ao trabalho daquele grupo, mas que também se relacione com nossa montagem. Preferencialmente, devemos procurar obras que não sejam tarifadas pelo ECAD, cuja função nos foi explicada hoje. Roubo violento.
Aproveitei um pouco do tempo para afinar com o Rodrigo (nosso mais novo músico, junto da Camila) a primeira música do espetáculo. Acho que vamos fazer um trabalho bonito. Talvez, se tivéssemos melhores cantores, criaríamos uma entrada mais forte. Mas será que isso será possível mesmo com atores que não cantam tão bem assim? A própria Célia falou: não somos cantores. Somos atores que estão usando a música para contar uma história. Isso é diferente.
Ao final do encontro, recebemos o texto modificado, enfim, e o lemos. Foi-me apontado que eu deveria também abandonar ao máximo a voz do último personagem que fiz (Paulo, em “Senhora dos afogados”), e que a fala, embora versificada, não deveria ser dita desta forma. Será um grande desafio para mim achar um bom ritmo para esse narrador.
Nossa palavra-chave é: subtexto. Precisamos dele para dar uma intenção boa para cada fala. E nosso subtexto mais imediato é o de que estamos contando uma história.
Há trabalho demais pela frente.

25/04
Por conta do feriado de São Jorge, não nos reunimos na segunda.
Hoje eu estava inspirado. À tarde, tinha lido toda a parte do relatório - melhor, tinha devorado toda a parte do relatório - do Galpão sobre a montagem de Romeu e Julieta. Havia tantas passagens que repercutiam em mim, sobretudo as que se relacionavam às dificuldades dos atores! Sei que não sou parâmetro de universalidade para nada, mas acabei acreditando (por ver espalhadas por atores tantas dificuldades que acredito serem as minhas) que são problemas de todos. Mas o que mais me chamou atenção foi a forma como o diretor, Gabriel Vilela, teria apontado esses problemas: medo. Medo de errar, medo de arriscar. “Enlouqueça, Inês!”, e parecia que ele estava gritando para mim. Às vezes acho que o teatro é isso: enlouquecer para não embrutecer na vida real. A Célia sempre diz que teatro não é terapia. Eu discordo. Não tem como não ser. Impossível não mexer no mais de dentro da gente e não achar que se faz algum bem - e algum mal, em alguma medida. Atentei também para as partes em que o Gabriel se direcionava ao ator que fazia o narrador da história, meu personagem na nossa montagem. Do que ficou, guardei o momento em que ele dizia que o narrador deve contar a história “como quem a conta aos amigos, na mesa do bar”. Junto dos conselhos da Célia (“não recite; conte”), acho que comecei a entender um pouco mais do meu corifeu.
Havia também tantas passagens bonitas sobre a compreensão do texto. Inicialmente, eu concordava com a Célia quando dizia que o Romeu era um adolescente idiota. Achava que, de fato, a precipitação dele e da Julieta eram uma grande bobagem e que os dois eram umas crianças. Talvez não sejam. Talvez o Romeu seja uma antítese do que a gente tem vivido, de um amor que não tem (e lá vem a palavra de novo): medo. Que se joga, se precipita. Todas essas reflexões, e mais alguns vídeos que vi do trabalho que pode ser feito em teatro, tudo isso me deixou muito animado. Fora o cansaço do dia, fui para o ensaio muito feliz. É bom estar feliz com o que se faz.
No ensaio, a Célia chegou um pouco atrasada, o que nos permitiu passar nossos textos e nos mexer um pouco para entrar no clima. Quando ela chegou, recebemos rapidamente as orientações do que fazer (deveríamos trabalhar individualmente ou em grupos nossos textos até então). Antes disso, ouvimos as músicas do baile e do Romeu.
Começamos o trabalho individual, mas ela pediu que passássemos o texto em grupo, para darmos as intenções dele antes de trabalhar o corpo. O resultado não foi como gostaríamos, mas ... passou. Nas palavras da própria Célia: “uma merda”. Por alguma razão, senti que não desanimamos, como geralmente acontece.
Ao trabalharmos o corpo, senti alguma dificuldade em associar a intenção do texto com o corpo. A falta do adereço que eu vou usar (o guarda-chuva), mas consegui encontrar algum caminho. O que preciso agora é adaptar o que fiz às novas realidades que forem se inserindo (adereços, mudanças, caminhares) e não perder o que já tenho. Essa deve ser a parte mais difícil do nosso trabalho: guardar.
Estou com medo (mais uma vez, o medo?) das responsabilidades que venho ganhando. Ao mesmo tempo, sinto-me confiante e preparado para assumi-las. Estou, junto com o Rodrigo, o estagiário-músico do grupo, encarregado da parte musical (ajudando a escolher músicas e tendo que aprendê-las e tocá-las ao vivo). Para se ter uma ideia, só entre o ensaio de hoje e o próximo tenho que aprender a cantar uma música, aprender a tocar uma outra e recuperar a prática com a escaleta. Isso sem contar decorar o texto, falá-lo com a intenção correta, cuidar da movimentação corporal, os três trabalhos nada fáceis. Mas é um trabalho bom. Há responsabilidades muito gostosas de se assumir.

Estou confiante, mas sem acreditar que serei perfeito. Não preciso ser perfeito; preciso ser louco o suficiente para encontrar caminhos interessantes e racional o bastante para me lembrar deles. Questão de manter a cabeça fria, aceitar os erros (e acolhê-los!), compreender as mudanças e incorporá-las o máximo o possível. Morrer pelo trabalho. Estou ansioso pelos próximos ensaios.

Pauline Suarez / 2013.1

   Após a oficina de perna de pau feita no final do ano de 2012 com o objetivo de utilizarmos a técnica no espetáculo “Romeu e Julieta” que montaríamos no ano seguinte. Fizemos uma pequena apresentação de uma fala do personagem que gostaríamos de interpretar para a Célia, utilizando a perna de pau e também com um adereço. Escolhi então a Julieta.  Naquele momento não tivemos nenhuma resposta da Célia sobre a escolha dos personagens, mas deu para perceber que ela já tinha a ideia de alguns personagens, na minha opinião, a Fernanda deu o melhor texto da Ama, e se ela continuasse não perdesse aquele momento e trabalhasse nele com certeza seria uma ótima Ama.
Como de costume, antes de iniciarmos qualquer montagem e trabalho físico, começamos a estudar a teoria, ler tudo sobre Shakespeare, sua vida, suas peças. Cada um pesquisou na sua casa e depois lemos os textos uns dos outros. O trabalho foi importante para conhecermos mais sobre o autor que apesar de muito famoso por todos, muitas outras coisas aprendi.
Depois de muitas aulas estudando a teoria no Procenium, pois também não tínhamos ainda um local para fazer a oficina, já que a sala de dança aonde trabalhávamos estava em obra, começamos a utilizar a sala da COART. Em um segundo momento, apresentamos novamente uma fala da personagem que gostaríamos de interpretar, mas dessa vez não usamos qualquer adaptação e sim a adaptação que a Célia e o Roberto já tinham feito para a  Nosconosco em outra época, que a maioria de nós não tinha vivenciado.  Desta vez, apenas aqueles que tinham o desejo de interpretar Romeu ou Julieta usariam a perna de pau, foi também necessário escolher algum figurino no Procenium. Apenas eu tinha o desejo de interpretar Julieta, mas mesmo assim não achei que seria fácil. Após essa apresentação a Célia já tinha decidido a maioria dos personagens. E eu tinha conseguido o papel da Julieta, mas sabia que tinha que correr atrás disso também.
Antes de começarmos a trabalhar em cima do texto original de Shakespeare, fizemos alguns exercícios utilizando músicas folclóricas, esse estilo de música seria utilizado no espetáculo. Os exercícios tinham o objetivo de usarmos o corpo, através de movimentos que junto com a música contaria uma história. Ao longo das aulas, utilizamos mais de uma música e ao final cada um levou a sua máscara neutra para usá-la no exercício. A máscara ajudaria então o corpo a contar a história, sem utilizar o rosto.
Voltamos a utilizar a sala de dança e de lá a trabalhar com o texto original de Romeu e Julieta. A Célia começou a trabalhar em uma nova adaptação e aos poucos nos dar as primeiras cenas e falas. A cena da entrada ficou belíssima! Com a música “Se essa rua fosse minha”, cantada pelos atores ao som do acordeão. Eu e o Saulo (Romeu) entramos de perna de pau. Após a entrada a Julieta sai de cena.

No último encontro (24 de abril) assisti a cena, pois a Julieta ainda não tinha entrado novamente. 

sexta-feira, 5 de abril de 2013

Marcia Cazer / 2012


 Iniciamos os trabalhos no dia 06 de fevereiro com os seguintes objetivos:
1 – Terminar o espetáculo de palhaço;
2 – Começar um processo de pesquisa para um novo espetáculo da COMEDIA DELL’ARTE;
3 – Pensar um espetáculo adulto;
4 – Nos inscrever no Festival de Congonhas, MG (PROFEST).
Iniciamos lendo o texto “A Loucura de Isabela” (Flamínio Scala). Célia pediu pra pesquisarmos textos, imagens, vídeos nas bibliotecas sobre a Comedia dell’Arte e trazer na última semana de março.
Depois fizemos exercícios, alongamentos, acordar o corpo, abertura dos canais, Paulo Coelho, aquecimento. Nosso corpo lembrou a maior parte dos movimentos.
Esse  ano trabalharemos mais um dia, que é a segunda-feira.
Notícia triste foi a saída da Juliana, que fez um discurso agradecendo a todos, porém precisava de tempo pra terminar a faculdade.

Os Clowns Bailarinos
Nessas primeiras semanas fizemos bastantes exercícios e limpamos as cenas do espetáculo de palhaço.
Em março fizemos uma mesa de leitura e cada um defendeu um texto para apresentar (CANOVACCI).
Em abril entregamos as pesquisas sobre a comédia dell’arte e Célia ficou muito feliz, pois cada um aprofundou em um assunto: música, texto, máscaras, figurinos. Ela levou os materiais para reproduzir para todos.
Em 21 de maio passamos o espetáculo de palhaço completo, porém a Célia disse que estava sem ritmo e automático. Era preciso se tornar mais orgânico.
Em 30 de maio passamos todo o espetáculo com figurino, porém sem maquiagem. A Célia disse que às vezes perdemos nosso palhaço em cena.
De 1 a 3 de junho fomos apresentar o espetáculo “Os Clowns Bailarinos” no PROFEST (Festival de Congonhas, MG).
O Espetáculo  demorou  para começar, o som não estava bom, mas estreamos. Depois dois jurados vieram conversar conosco no camarim. Disseram que o espetáculo estava bonito, porém muito rápido; que o rosto dos atores já denunciava as ações antes delas acontecerem; que poderíamos aproveitar mais a plateia. Em termos da organização do festival, falhou em vários aspectos: luz, som, pessoal, atropelamento dos espetáculos, critérios do júri não muito claros, mas valeu como experiência. A Célia elogiou o trabalho de Saulo e Lucas, hoje nossos melhores clowns.
Em 13 de junho, Célia coloca na roda a ideia de trabalharmos o projeto da Comédia dell’Arte dom diferentes oficinas: canto, circo, danças populares. Ficamos de procurar profissionais para o orçamento. A Célia propôs que o Lucas dirigisse uma leitura dramatizada, falou da vontade de fazer um espetáculo com um cortejo e algumas paradas para cenas.
Em 27 de junho, estreamos oficialmente no Teatrão “Os Clowns Bailarinos” para aproximadamente 500 alunos da rede pública. Que diferença de MG! A qualidade da energia da plateia que reagia a tudo, atentos a todas as ações. A troca foi incrível!
“A gente não tem a dimensão do alcance de um bom espetáculo” (Victor)
Todos  ficamos muito felizes e mais a vontade no palco e improvisamos mais. Foi ótimo! Saímos energizados.
Lucas propôs a leitura do texto “Senhora dos Afogados” (Nelson Rodrigues), pediu pra pesquisarmos músicas de domínio público relacionadas ao mar. Como o teatrão está em obras, iremos estudar a teoria de Nelson Rodrigues.

Nelson Rodrigues
Em 9 de julho, iniciamos os trabalhos sob a orientação de Lucas Matos para a leitura dramatizada de “Senhora dos Afogados”.
Em 12 de julho, tivemos mais uma perda: Luiza sai da companhia para assumir o comando de greve em Brasília. Célia comunica que não fará a Avó. Lucas repensa os papeis e põe Luana como Moema e eu como Avó.
Em 16 de julho, passamos todo o primeiro ato. Fomos divididos em 3 grupos: sonoplastia, vizinhos e mulheres. As falas estão um pouco sem intenção e a velha precisa ser mais agressiva e insana.
Em 18 de julho, fizemos exercícios de respiração e sonorização com a vibração de partes diferentes do corpo. Começamos a trabalhar variações nas falas, no texto e deu certo, encontrei uma voz mais grave para a Avó.
O primeiro ato completo deu 15 minutos. A sonoplastia criou coisas boas: chegada, tambor e mar, o almoço marcado com a batida de talheres. Victor entrou com a fala do Paulo hoje. Passamos o primeiro ato duas vezes. O exercício anterior melhorou muito nosso desempenho, resolvemos fazer sempre. O Lucas cobrou a pesquisa sobre a vida de Nelson Rodrigues, músicas folclóricas sobre mar e poesias.
Em 6 de agosto, cheguei 30 minutos antes para fazer exercícios com o Lucas de tonalidades de voz para melhorar a Avó. Várias tentativas: mais agudo, mais grave, mediano, lento, mais rápido. O que funcionou foi o mais grave e mais rápido, mas às vezes perco a intenção. Passamos o primeiro ato duas vezes.
Em 8 de agosto, cheguei cedo para ensaiar a voz da Avó com a Célia. Ela pediu pra eu buscar uma voz rouca, colocando um movimento com as mãos e funcionou.
Em 13 de agosto, fizemos uma roda pra discutirmos se íamos ou não nos apresentar na Semana de Nelson Rodrigues, na COART. Por fim, percebemos que não iria dar tempo de estar tudo pronto e não queríamos apresentar o trabalho de qualquer forma. Preferimos apresentar na UERJ sem Muros, pois teríamos mais tempo.
Em 20 de agosto, cantamos parabéns pra Célia e Lucas colocou que seriam 3 músicas: entrada, meio e saída. Ele também aceitou minha sugestão: “É Doce Morrer no Mar” (Dorival Caymmi) e pediu pra eu ouvir “Sargaço Mar” (Caymmi).
Em 29 de agosto, começamos a criar as ações físicas para o texto: entrada das lavadeiras ao som do acordeon tocado pelo Victor (É Doce Morrer no Mar...). Aline, Luana e eu entramos, sentamos, esfregando a roupa e lendo a primeira parte do texto. Ficou bonito!
Em 5 de outubro houve a apresentação de “Os Clowns Bailarinos” no Teatro da UERJ, às 14h. Chegamos às 8h, arrumamos o palco e passamos a luz, o som e as ações, até 13:40h. Tínhamos 20 minutos para se arrumar e maquiar. Ao final do espetáculo, fomos falar com o público (alunos da rede pública), limpar tudo e guardar todo o material cênico. O espetáculo não ficou tão bom quanto o primeiro, modificamos algumas marcas, por conta da saída da Luiza. O professor Roberto veio hoje e quem nos avaliou foi a professora Cássia Frade. Fomos 80% hoje. Fiquei irritada, pois estava muito tempo sem comer, desde as 8h.
Em 17 de outubro aconteceu a apresentação da leitura de “Senhora dos Afogados” de Nelson Rodrigues, na sala 03 da COART, às 18h. Chegamos às 11h fizemos uma instalação no cenário, com textos datilografados na parede, livros pendurados e no chão, papel celofane nas lâmpadas e tule roxo, preto e azul, mais uma máquina de escrever antiga e um rádio. O cenário ficou lindíssimo! Às 16h paramos, tivemos 20 minutos para comer. Voltamos passamos tudo com a sala escura.
A leitura foi com energia, não erramos tanto o texto, mas ainda estamos inseguros. Porém, a concentração estava boa, dava para sentir pela proximidade com o público. Ao final a professora de Dança, Maria Lúcia, veio conversar comigo e disse que ficou surpresa, pois esperava ouvir apenas uma leitura comum do texto de Nelson Rodrigues, que devíamos arriscar mais e fazer textos adultos, pois estamos amadurecendo. Disse também que percebeu a ritualística característica do grupo em todos os espetáculos, nas ações ao tocar os instrumentos. Fiquei contente com o resultado, nos superamos mais uma vez!
Em 22 de outubro, fizemos uma avaliação do espetáculo. Vimos a filmagem da apresentação e cada um colocou uma impressão sobre a leitura. Eu disse que é muito difícil ver uma boa montagem de Nelson (até hoje só vi uma, a do Armazém), mas a nossa ficou respeitável, com muita dignidade. Célia, Lucas e Saulo colocaram que o texto ainda não está fluindo bem.
Em 24 de outubro, a Companhia sofre uma grande perda: Lucas deixa de participar, pois foi convidado pelo grupo Moitará para uma montagem.

Oficina de Perna-de-pau
Em 7 de novembro, iniciamos a oficina de perna-de-pau com alongamento. Trabalhamos em duplas, um  segura e o outro anda com a perna. Nesse primeiro dia Pauline e Saulo se saíram muito bem, enquanto Fernanda e Aline tiveram mais dificuldades. O professor disse que fui bem e que só preciso perder o medo e deu a dica de cair sempre para frente, pois os joelhos estão protegidos.
Em 12 de dezembro, último dia da oficina de perna-de-pau, de três em três, sobre as pernas, fizemos um cortejo cantando a música “Flor, Minha Flor”. Depois cada um do trio falava um trecho que tinha no texto de Romeu e Julieta, fazendo um personagem com um adereço.
Eugênio disse que ficou muito feliz por trabalhar conosco.
É a primeira vez que estamos sozinhos na perna-de-pau, segurando um instrumento e falando o texto. Acho que vamos melhorar. Já estamos todos andando na perna-de-pau, praticamente sem ajuda.

Conclusão
Esse ano, fiquei  muito feliz com o projeto! Adoro fazer o espetáculo: “Os Clowns Bailarinos”, a Pipi, minha palhaça, é um presente para mim! Realmente, quando esse processo começou, não acreditava que iria conseguir ter minha palhaça e achei que iria acabar fazendo a sonoplastia ou outra coisa para ajudar, porém os exercícios foram fazendo com que chegássemos lá  e  um dia, em um exercício coletivo, ela nasceu. Me  lembro  que era uma cena corrida e ela ficava parada enquanto todo mundo se desesperava para alcançar a chegada. Ela ficou sozinha se achando a maior. Ver meus colegas, na roda desse dia, falando e rindo dela, dizendo que ela era boa, foi um presente para mim. Ela é muito levada e assanhada, faz coisas que socialmente a “Marcia” não faria e me fez sentir muito feliz com o retorno das crianças que vem falar com ela, após os espetáculos. Fico pensando, onde será que o teatro vai me levar? É sempre um grande desafio! Esse ano, em uma semana, tive que aprender a andar de patins para uma cena. Em dois meses aprendi a andar na perna-de-pau.A construção da minha palhaça foi dolorida no começo mas depois foi um grande presente.Só posso agradecer ao projeto na pessoa da professora: Maricélia Bispo e do professor:Roberto Dória pelo respeito ao teatro,pelo investimento no humano,no lírico por acreditar em nós sempre,por nos desafiar e brigar com os outros e conosco pelo nosso melhor.Obrigado Mestres!!!
 Que possamos sempre mergulhar nos bons braços do teatro e que ele nos leve a criar e compartilhar um mundo melhor...

sexta-feira, 25 de janeiro de 2013

Saulo Rocha / 2010


07/06/2010

Primeiro Trabalho com Venda nos Olhos

Chego atrasado e a Ilana já iniciou o trabalho de voz. No aquecimento, formaram-se duplas em que um conduzia o parceiro, utilizando apenas um dedo. Esse, por sua vez, estava de olhos fechados e atento ao leve toque de dedos que o conduzia. Seguem os habituais exercícios de respiração, dicção e ritmo. Ao fim de uma hora que passa voando, a aula de voz termina.
            No começo do trabalho de teatro acordamos o corpo. Noto que o grupo já possui certa autonomia no aquecimento e “abertura dos canais” que nos auxilia na concentração e percepção. De qualquer forma, Maricélia fica atenta e corrige um ou outro pontualmente. Percebo que nessa etapa a interferência tem sido menor.

Desafio
            O encontro de hoje propõe o início do trabalho com máscaras, utilizando apenas uma venda nos olhos. A proposta é simples na teoria e complexa na execução como todo bom exercício de teatro. Devemos, segundo as palavras da Maricélia, vendar os olhos ritualisticamente; parar em um ponto da sala em posição fetal; iniciar sem pressa a exploração do espaço com o corpo todo e ao encontrar um colega não fugir, mas explorar com toque.
            Ao fim da explicação, ainda no ritmo acelerado da correria trabalho-teatro me sentia desconcentrado e o fato de não saber o que esperar me fazia sentir incapaz de vivenciar o processo sem agir de forma mecânica apenas cumprindo o que foi exigido. Isso porque tenho sido muito racional.
            Depois que achei o meu ponto na sala e assumi posição fetal confortável, o primeiro pensamento mais nítido que me ocorreu foi a indicação de não ter pressa. Juntei essa máxima ao que havíamos aprendido sobre respiração na aula de voz anterior e esse virou meu principal foco.
Na medida em que os pensamentos foram cessando, a consciência de cada pequena parte do corpo crescia. Junto com ela, uma sensação de total comunhão com o ambiente. Ao mesmo tempo em que tudo era novo e percebido de um novo ângulo, tudo era familiar, confortável.
            Aos poucos senti uma energia acumulada no corpo que parecia guiada pela venda e me levava à ação. Prossegui deitado, mas em movimento, utilizando todo corpo para perceber o espaço, em movimento leve e não controlado pela outrora excessiva racionalidade.
            Em algum momento percebo a melodia de uma música e ela também soa familiar, adequada e integrada ao ambiente, como todo o resto.
            Estou em movimento sempre pelos cantos, não porque me atenho ao referencial da parede, mas porque estou realmente envolvido na exploração da superfície que se alterna entre o frio e liso do espelho com a aspereza e aspecto empoeirado do tijolo.
            No meio do meu caminho, esbarro com uma perna humana e isso não causa surpresa, sinto a perna como parte do ambiente, como elemento que dele pertence e não como organismo externo, alheio.
            Esse encontro faz ter consciência da amplitude do espaço, que abrigava diversas viagens individuais com conforto. Isso me dá impulso para me deslocar, ainda deitado, para o centro da sala em gestos amplos e seguindo a melodia. Incrivelmente não esbarro com ninguém e quando sinto o primeiro se aproximar, recebemos o comando de abrir os olhos e voltar para roda. Em suma, voltar para o mundo real numa viagem que, conforme colocado pela professora, é uma viagem em que ninguém sai indiferente, imune.
            Concordo em silêncio e com a mesma dificuldade que tive para embarcar na viagem inicialmente, retorno ao mundo real, certo de que algo em mim se modifica para melhor. Assim como cada vivência como essa que o teatro proporciona.

quarta-feira, 23 de janeiro de 2013

Aline Deyques / 2012


Oficina Perna de Pau

E depois da experiência de “Os Clowns Bailarinos” e da leitura dramatizada de “Senhora dos Afogados” veio à oficina de Perna de Pau, da qual eu queria muito, porém só consigo definir essa oficina para mim em duas palavra: MEDO e INSEGURANÇA.
Não sabia que seria tão difícil para eu subir em uma perna de pau, sim eu estava querendo muito a oficina, mas quando subi naquelas novas pernas, as minhas antigas pernas ficaram bambas, a minha visão ofuscou e a única coisa que sentia era um pânico imenso de cair. Sempre tive problemas com alturas, mas achei que depois de ter vindo estudar na UERJ, mais precisamente no 11° andar eu tinha melhorado um pouco, mas vi que ainda não estava totalmente curada.
Tinha muito medo e ainda tenho, não estou totalmente segura. Foram 10 encontros e eu só consegui dar alguns passos sem uma pessoa me segurando no último dia, isso de certa forma foi extremamente frustrante, pois queria estar andando como todos os meus colegas, mas não consegui, ao mesmo tempo senti que andar no último dia, me mostrou que se eu seguir tentando eu irei conseguir um dia...
Fiquei muito feliz de ver todos andando e de ver a Fernanda andando que assim como eu, no primeiro dia, também estava histérica.
No meu caso ainda a ajuda do Saulo me ajudou muito a poder andar com mais segurança, ele foi muito bom instrutor, também não tirando o mérito do Martin, que também em todo tempo foi muito atenciososo.
No último dia, eu nem estava nervosa com o texto de “Romeu e Julieta” que eu iria falar, tanto que nem consegui decorá-lo, eu mais nervosa em ter que ficar na perna de pau e não sabia se iria conseguir caminhar... Ainda precisei de apoio, mas quando a Célia deu o grito : “ANDA”, dai me senti obrigada a enfrentar o meu medo e dar um único passo, não sabia como voltar depois, me segurei na Fernanda e consegui me equilibrar, voltando ao meu lugar...Isso me deixou emocionada, na realidade, nem sei por quê, pois minha obrigação era caminhar muito mais, mas enfim, o meu medo,  a minha insegurança ainda é maior. Sou muito desastrada e isso me dá motivos para não confiar em mim.
Mas enfim, como sempre digo tudo o que eu passo na Nosconosco é muito enriquecedor, quem sabe eu consiga me equilibrar e “caminhar com novas pernas” no que virá de agora em diante...

Victor Ribeiro / 2012


Relatório de experiência
Oficina de perna de pau
“Fazer da queda um passo de dança, do medo uma escada (...)”
(Fernando Sabino)

Talvez tenha sido nossa experiência mais metafórica ao longo da aventura da Nosconosco. Digo metafórica porque aprendemos uma série de lições no ar que levamos e quisemos levar para a vida em terra firme. Já no início das aulas eu previ isso, de alguma forma. Lembro-me de dizer aos colegas ao descer da perna pela primeira vez: agora parece que eu sou outro. Ao fim do processo, tive a certeza de que eu era outro, assim como eram outros os meus colegas, alguns já mais cheios de coragem, outros já menos cheios de medo. Mas é melhor recomeçar esse relato do início, mesmo que as coisas venham, meses depois, um pouco em desordem.
Foi com grande empolgação que soubemos da ideia de fazermos oficinas diversas durante o tempo em que a Célia estaria ocupada no Proiniciar. Queríamos tudo: dança, circo, teatro, novas experiências, novos rostos, outros caminhos. A notícia de que começaríamos uma oficina de perna de pau não foi bem recebida por todos. Eu, particularmente, adorei. Tenho predileção por qualquer coisa ligada a circo, e, apesar do jeito travado, ainda acho que tenho vontade de arriscar. Outros, porém, assumiram o próprio temor. Mas seria inevitável.
Uma semana antes do começo da oficina, uma notícia ruim: a Luana deixaria o grupo. Mesmo assim, a Célia sugeriu que ela ao menos fizesse a oficina com os membros restantes. Ela aceitou e, por isso, sua falta não foi sentida de forma tão forte quanto a dos outros, muito embora lembrássemos de vez em quando que ela não estaria conosco no ano seguinte.
Começamos as aulas. Os professores em princípio seriam dois argentinos. Um deles eu já conhecia da época em que frequentei o hoje extinto Centro Integrado de Circo, na Fundição Progresso. Fizemos um bom aquecimento e subimos na perna, quatro por vez.
O primeiro movimento básico era o de levantar as pernas. Ficamos segurando uma pilastra, apenas treinando o movimento. Saulo e Pauline, mais abusados, conseguiram se apoiar na corda de segurança que os professores trouxeram, e o Saulo já conseguia andar poucos passos sozinho. Só consegui ir para a corda nos últimos momentos, mas mesmo assim considerei um grande avanço.
No segundo encontro, apenas um professor estava presente, o Eugênio. Não teríamos corda também, pois ele não sabia como montar o equipamento. Estranhamos, assim como estranhamos o alongamento excessivamente longo que ele deu. Mas aceitamos, e logo depois estávamos na perna. Fizemos avanços, mas foi somente na terceira aula que senti que engatei no andar e tive minha evolução mais proeminente, graças a uma dica do Saulo.
O segredo era não ter medo de cair. Assim sendo, experimentei me jogar uma vez. Isso fez uma enorme diferença. Sabendo que não haveria maiores perigos na queda - afinal eu tinha uma joelheira me protegendo - foi muito mais fácil arriscar. Aliás, essa é a grande palavra da perna de pau, ao menos quando se está aprendendo: arriscar. O aprendizado fica muito mais fácil quando você mesmo impõe seus objetivos, como por exemplo: hoje vou andar sem a corda, hoje vou andar para trás, hoje vou sambar, hoje vou brincar.
Além disso, a segunda dica para um bom aprendizado na perna eu descobri por mim mesmo: ritmo. Cantar uma música de ritmo marcado nos ajudava, e muito, a manter o equilíbrio. Incontáveis as vezes que repetimos “Marcha, Soldado”. É claro que, com um pouco mais de segurança, já cantávamos e brincávamos com músicas diferentes. Até dançávamos funk!
Ao longo das aulas, que foram todas ministradas apenas pelo Eugênio, os desafios autoimpostos foram aumentando. Talvez o maior deles tenha sido descer as escadas. Ainda assim, a dica valia de forma igual: era preciso arriscar. E foi assim que as evoluções foram acontecendo. Até mesmo os que tinham mais medo andaram - fiquei tão orgulhoso de ver Aline e Fernanda se equilibrando sozinhas!
Houve um momento em que pensamos que o Eugênio já não era mais tão necessário. Embora ele fosse um bom apoiador, já tínhamos desenvolvido alguma autonomia, e ele já não nos ensinava nada de novo. Aparentemente, o que tínhamos de aprender viria de nós mesmos, a partir da necessidade. Um bom exemplo disso é que aprendemos a sambar, a brincar de dançar outros ritmos, a nos equilibrar (ainda mal, devido à falta de treino) numa perna só...
No último dia, o desafio final. Ora, se passamos por toda a oficina visando ao teatro, seria impossível terminá-la sem se dedicar minimamente a ele. A missão: decorar um pequeníssimo texto, de livre escolha, dentro da peça Romeu e Julieta e declamá-lo sobre a perna. Meu desafio seria um pouco maior: além disso, eu deveria tocar acordeão!
Escolhemos adereços e tivemos dois dias para decorar os trechos.
Foi quase um desastre, apesar da Célia dizer que havia alguma coisa no que foi feito.
Fizemos um cortejo com pessoas sobre a perna e fora dela, em revezamento. Segundo a Célia, ainda nos sentíamos demasiadamente inseguros para dar um texto. Os que se saíram melhor dentre nós foram Fernanda e Saulo. Vale destacar a coragem da Aline, que, ainda que insegura, se soltou do seu acompanhante e deu seu texto. Foi uma vitória pessoal para ela.
Meu problema apontado foi a falta de intenção. Aparentemente, acabei cotidiano demais dando a fala: “Um músico”, nas palavras da Célia.
Sentimos falta de mais tempo para andar e explorar nossas possibilidades. Penso que o tempo que não praticamos nessas férias nos fará falta, mesmo que a perna seja como a bicicleta.
Ao fim da oficina, eu já podia me dizer seguro sobre a perna. Consegui tocar, consegui dar algum texto e consegui ficar parado (o que mais conseguiu fazê-lo, segundo a Célia). De tudo, fica a vontade de sempre continuar nos ares, e, mais ainda, a relação que criamos com nossos próprios medos. Olhados de cima, eles já nem pareciam tão grandes assim.

Victor Ribeiro / 2012


Foi aproximadamente na metade de 2012 que recebemos a notícia: ensaiaríamos uma peça dirigida por um de nós. Lembro-me agora com alguma dificuldade das palavras de Célia: “A Nosconosco sempre se propôs a ser uma escola de formação de atores que transitassem entre diversos ramos do teatro - inclusive a direção. É por essa razão que, conversando com o Roberto, decidi permitir ao Lucas dirigir uma leitura dramatizada com vocês”.
Não era a primeira vez. Soubemos que, havia alguns anos, a mesma tentativa fora feita, sem sucesso, com o Bruno Bessa, que assinaria a direção de A Capital Federal, de Artur Azevedo. Célia nos informou que, no meio do caminho, Bruno desistira, e ela precisou tomar as rédeas do trabalho. O que seria feito agora era uma nova aposta alta. Tendo em vista a longa carreira do Lucas na companhia, 10 anos, ela decidira dar-lhe essa chance, essa prova de confiança.
Ficamos todos empolgados. O texto seria de escolha livre, então tudo podia acontecer. O que sairia daquela cabeça? Que tipo de texto leríamos? Iríamos gostar dele? Seria chato? Bom? Como era o Lucas como diretor? Em todo caso, seria uma maneira de nos dedicarmos a outros projetos que não o teatro para crianças, como é a tradição da companhia.
Na semana seguinte, soubemos: em virtude do ano de Nelson Rodrigues, o texto que faríamos seria “Senhora dos Afogados’. Nossa primeira missão era ler o texto e procurar o que fosse necessário sobre a vida do autor - enfim, deveríamos nos informar sobre o terreno em que estávamos pisando.
Outra surpresa boa nos aguardava: Célia informou que estaria disposta a trabalhar junto conosco, atuando. As novidades eram deliciosamente animadoras.
Fomos informados de que, como na Capital, o trabalho de leitura dramatizada, para que tivesse a cara da Nosconosco, não se restringiria a uma leitura fria: haveria figurino, cenário, movimentação, sonorização. O trabalho prometia.
Chegamos ao dia da leitura com o texto , ansiosos para ouvir as vozes que sairiam do papel. Todos ficamos surpresos com a leitura da Avó pela Célia, e tivemos a certeza de que, ao menos um papel estaria definido.
Foi logo na primeira leitura que imaginei que a mim caberia o papel de Paulo. Havia três homens na peça: o pai, o noivo, e o filho. Por questões de biótipo e de voz, bem como o perfil do próprio personagem - um jovem entre 16 e 18 anos -, não me surpreendi quando recebi o papel. Era o começo de um desafio, como em qualquer experiência teatral.
Nosso processo de trabalho se daria da seguinte forma: começaríamos montando cena por cena, criando vozes e montando uma espécie de sonoridade para os personagens, bem como a sonorização de cada cena, da qual se encarregaria o grupo que não estivesse em cena.
Cada um deveria buscar a própria musicalidade de seu personagem. Lembro-me bem do conselho do Lucas: o Paulo deve ter uma voz melodiosa, afastada, como se não vivesse nesse mundo. Foi um ponto de partida - problemático para mim, mas ainda assim um ponto.
À medida que líamos, as dificuldades surgiam. Tivemos diversos problemas de desatenção e dispersão - algo sempre reclamado pela Célia. Por vezes o trabalho se tornava maçante devido ao excesso de voltas e repetições por conta de erros bobos: via-se isso nos olhos de cada um de nós. Somou-se a isso nossa falta de espaço: ensaiar a leitura na sala do programa era extremamente ruim para um grupo acostumado com a sala de dança. Mais para frente, a necessidade de um espaço maior nos levou a ensaiarmos no hall do décimo andar, durante a greve, o que também nos cansava em excesso por conta das dispersões e da acústica horrorosa.
O primeiro momento crítico se deu com a saída da Luíza, a quem inicialmente fora atribuído o papel da personagem principal da peça, Moema. Sua saída catalisou diversas alterações, as quais também nos atordoaram no começo, mas com as quais aprendemos a lidar: Célia se retirou igualmente da peça e o coro outrora imaginado foi reduzido para duas vizinhas - que se saíram, aliás, bastante bem no que se propuseram a fazer, sobretudo a Fernanda, que me surpreendeu positivamente. Foi Luana quem se tornou Moema.
A pouco menos de dois meses de nossa (única) apresentação, ainda não tínhamos o espetáculo pronto. Quando chegamos à etapa de movimentação, as dificuldades aumentaram. Se já era difícil para nós deixar constante nossa voz para um personagem (numerosas foram as vezes que Célia e Lucas apontaram que nos perdíamos na leitura e voltávamos a ter uma voz cotidiana), o problema se agravou quando precisamos nos mexer e nos posicionar.
Houve um momento em que nos encontrávamos desanimados, parecendo querer desistir. O resultado não parecia bom o bastante.
Insistir, nesse momento, foi essencial. Nessa etapa, frequentemente me lembrava de um antigo grupo em que participara, e cujo resultado fora nulo devido à falta de cara-de-pau dos integrantes de ter fé no próprio trabalho. Caio Fenando Abreu diz: “Tem coisa mais autodestrutiva do que insistir sem fé nenhuma?”. Eu respondia, em segredo: tem sim - não querer encontrar a própria fé. No meu íntimo, ir até o cabo do processo era uma questão de orgulho.
A uma semana da apresentação, na Semana de Nelson Rodrigues da COARTE, UERJ, experimentando os figurinos e a incluindo da trilha sonora a ser tocada no acordeon (escolhida por nós através de canções de Dorival Caymmi), nosso ânimo foi renovado: algo de bom sairia dali! Éramos capazes, de fato, de produzir algo interessante!
Foi também nessa época que ouvi do Lucas coisas que pretendo guardar comigo para sempre, um novo entendimento do que seja o teatro e o ensaio: “Ensaiar não é fazer tudo certinho, sempre. É criar também seu próprio repertório de improviso para o caso de imprevistos”; e ainda, “Façam tudo com o coração leve. A tragédia não deve ter o coração pesado”.
No dia da apresentação, estresse habitual, acrescido de reclamações de falta de organização na divisão do trabalho. Por não nos organizarmos direito, acabamos sem tempo de comer, e mesmo de nos arrumarmos, o que ampliou nosso nervosismo.
O espaço de apresentação era limitado. Todos concordamos que o trabalho ficaria muito mais interessante se apresentado num palco, e não numa sala. Descaracterizamos o máximo que pudemos o espaço - criando uma ambientação até interessante - e nos jogamos.
Ao fim, não penso que tenhamos feito um mau trabalho.Tivemos, eu e Luana, até mesmo oportunidade de por em prática uma improvisação por conta de um erro grotesco nosso de marcação, que acabou passando sem problemas. Saímos todos satisfeitos, e isso já é um grande passo, se considerarmos nosso estado de desânimo na metade do processo. Ouvimos elogios de pessoas próximas, de pessoas não tão próximas, e até mesmo de outras, surpresas por não esperarem esse tipo de trabalho adulto no seio da Nosconosco.
Queríamos mais. Queríamos mais tempo para ensaiar, mais tempo para criar, para nos prepararmos. Queríamos um teatro para apresentar. Queríamos iluminação.
Infelizmente, nossas ambições foram frustradas com a saída do Lucas, semanas depois do término do trabalho.
Ainda assim, penso que ao menos teremos uma boa recordação de uma experiência nova e, no fim, animadora. Conseguimos começar e terminar um processo, quase sozinhos; e isso valeu tudo.

Aline Deyques / 2012


Leitura dramatizada de “Senhora dos Afogados”

Depois da experiência “Clowns Bailarinos” surge como proposta a peça “Senhora dos Afogados”, o que particularmente achei muito bom, pois gosto de Nelson Rodrigues, e já havia tido uma experiência com o texto de Nelson em uma outra companhia de teatro que fiz parte, mas nunca consegui apresentar devido a desorganização da companhia.
Gostei desde o início das propostas sugeridas e também achei muito legal estar sendo dirigida pelo Lucas, tendo a supervisão da Célia. O Lucas sempre foi um companheiro de grupo e muito amigo de todos nós.
Talvez a questão de termos a imagem dele como amigo tenha atrapalhado um pouco no andamento, devido às conversasse piadas, mas, no entanto, mesmo com todos os contratempos, conseguimos terminar o trabalho.
Bom voltando à questão da peça, foi muito bom ter feito a personagem Dona Eduarda, gostei muito, além de outros momentos muito interessantes da montagem como, por exemplo: às criações de cena, de voz na leitura e a introdução dos instrumentos.
Era muito divertido fazer isso e também assim como em “Clowns Bailarinos”, acredito que devido a esses momentos nós crescemos como grupo e como atores e atrizes, claro que ainda a minha percepção musical é horrível, mas devido a isso, aprendi a prestar mais atenção em instrumentos e seus sons e a controlar um ritmo para poder dar a fala.
            Fazer “Senhora dos Afogados”, como tudo que tenho feito na Nosconosco, me trouxe mais uma vez uma maturidade como atriz e uma experiência nova que vai ficar sempre marcada, desde os problemas tidos como a conquista de apresentar a peça, foi muito bom e de todos os trabalhos foi o que mais me senti a vontade fazendo, talvez por já ter tido a experiência anterior na outra companhia da qual fazia parte.

Victor Ribeiro / 2012


Relato de experiência de duas apresentações de Clown
(Congonhas do Campo, MG e Teatro Odylo Costa, filho, RJ)
“Meu rosto está
maquiado, limpo de
toda singularidade,
tornado vazio
para refletir
os pensamentos
agora mutáveis
como voz e gesto”
(Bertolt Brecht)

PROFESTeatro

Para muitos de nós, era a primeira viagem no seio de uma companhia. À exceção de Lucas, Márcia, Luiz e Luiza, os atores que fizeram Alice em Ponta Grossa, não havíamos experimentado a sensação de atuar em um festival.
As condições eram adversas. A peça estava ainda sem um final definido e, por diversos problemas, não conseguíamos montá-lo. Seria praticamente uma estreia, já que nossa última apresentação de “Os clowns bailarinos” não passara de um ensaio aberto: assumíramos que a peça ainda estava em montagem, mas quisemos exibi-la na “UERJ sem muros” de 2011.
Os problemas eram diversos, e passavam por diversas cenas: Anulamos a cena da troca de roupa ao som do “Bolero” de Ravel, depois de tentar modificá-la várias vezes; tínhamos problemas de marcação na troca de roupa das meninas; encontramos dificuldades imensas na cena do balé das meninas, que ainda estavam muito inseguras com os patins e também esqueciam marcações de vez em quando, preocupadas; passamos também diversas vezes a cena do suicídio; tivemos dificuldades no momento da elaboração do final...
Já é normal sabermos que, em qualquer ensaio que se pretenda geral e no qual devamos passar toda a peça, uma única vez, corrida, nunca conseguimos fazê-lo. Há sempre tanto a se modificar e trabalhar que uma passagem direta é praticamente impossível. Por conta disso, não conseguimos fazer um ensaio geral antes da viagem, o que nos deixou um pouco inseguros.
Combinamos nossa chegada ao programa às 6h, para arrumarmos os cenários, descermos tudo e sairmos às 7h. É claro que não conseguimos. Ao chegarmos na UERJ, não havia elevadores que pudessem nos levar. Para piorar, eu não encontrava minha saia rosa, essencial para a cena do “pas de quatre”. Alguém disse: só pode estar na mala de alguém - se não estiver, azar; resolvemos na hora. Só fui encontrá-la a poucos minutos da apresentação, no momento de nossa arrumação.
Os problemas foram ficando ainda mais tensos. Nosso ônibus só saiu da UERJ às 8h30 da manhã, um atraso que, somado ao fato de não podermos entrar na cidade histórica com o veículo de dois andares, nos fez ficar sem almoço. Nossa apresentação seria às 16h. Chegamos na cidade às 15h.
Ao chegarmos, a desorganização do festival foi flagrante. Já suspeitávamos que uma coisa boa não sairia de um festival cujas peças se davam em sequência e nos mesmo teatro. Onde estava o tempo para os outros grupos se prepararem? Montarem sua luz? Tivemos uma péssima impressão. É claro que saímos do Rio já assim. Lembro-me do Saulo comentando a fala de uma amiga, que dissera que o festival era roubada. No entanto, estávamos quase todos tão animados com a perspectiva de uma viagem em grupo que penso que aceitaríamos qualquer coisa.
Mais indícios de desorganização: os atrasos dos espetáculos anteriores jogaram nossa apresentação para as 17h. Ao menos teríamos tempo para alguma arrumação.
A bagunça não parava por aí. Ao chegarmos na cidade, o festival não disponibilizava um carro para levarmos o material para o teatro - que, diga-se, também não era grande coisa.
Tínhamos a barriga colada nas costas de fome, mas ela quase se perdeu no meio de tanta coisa a fazer.
O camarim onde nos jogaram era horroroso. Havia material de outros espetáculos entulhado num canto, iluminação parca, um banheiro estranho... tudo jogava contra o festival.
(Um dado interessante: ao ver o material de uma peça guardado naquele camarim-depósito, a Célia comentou: “essa é a peça que vai ganhar o espetáculo”. Dito e feito.)
Conseguimos nos arrumar e nos concentrar, na medida do possível, ainda com o sentimento de grupo. Fizemos nossa roda de concentração, gritamo-nos um bom “merda” e nos jogamos no palco.
Saímos aliviados. Nossa maior alegria foi ter ouvido de um jurado que ele reconhecia que havia uma pesquisa em linguagem de clown. Nas palavras do Lucas, foi muito bom ter sido visto de “igual para igual”, ainda mais vindo de um jurado que detonara sem pena uma peça ruim logo antes de nossa. Ao menos os jurados pareciam sérios, no meio daquele caos. Arrumamos as coisas e fomos embora, meio corridos porque outro grupo se apresentaria logo depois de nós.
Diferente dos outros grupos, por iniciativa da Célia, ficaríamos num hotel, e não num alojamento. Foi uma das melhores coisas que poderíamos ter feito: as instalações também não pareciam das melhores e houve dificuldades no primeiro dia na distribuição das comidas, pelo que soubemos. Voltamos ao hotel e fomos a um restaurante comer (muito!), agora com tempo e cabeça para aproveitar a cidade.
No dia seguinte, tivemos uma roda de conversa com os jurados (que se atrasaram mais de uma hora por não haver quem os buscasse) e com outros atores. Dali, as coisas mais interessantes foram: (1) conhecer os atores de uma companhia familiar (Teatro Circense Andança), de Petrópolis, a qual parecia ter um trabalho lindo e que, é claro, levou a maior parte dos prêmios, infantis e adultos; (2) a discussão travada entre Saulo, Luiza e outros atores sobre formas de sobrevivência financeira em companhias de teatro; e (3) um dos atores do Teatro Circense Andança ter reconhecido o Roberto quase 20 anos depois, por ter visto Arlequim num festival, com direito a vários elogios.
Não chegamos a travar contato com muitos grupos. A estrutura do festival não dava espaço para que os atores vissem os atores. De lá, as únicas peças a que assistimos foram: uma peça de formandos de um curso de teatro (Manicômicos) de São João Del Rey - que parecia ter um bom trabalho de corpo, mas um áudio, uma trilha sonora, um enredo e uma marcação péssimos; e um grupo (se bem me lembro) da Unirio de onde se destacava uma atriz que fazia um papel masculino. Não à toa ela ganhou o papel de melhor atriz coadjuvante. Merecidíssimo.
No último dia, soubemos que nosso único prêmio do festival foi uma indicação para melhor maquiagem. Francamente, esperávamos mais. A questão, sobre a qual refletimos mais tarde, foi uma conjunção de detalhes. Primeiramente, a Célia nos inscreveu como teatro adulto. Tendo em vista a qualidade de algumas peças a que assistimos, tivemos certeza de que levaríamos algo mais se fôssemos concorrer como teatro infantil. Além disso, a qualidade do trabalho que supúnhamos ter a companhia Teatro Circense Andança, dadas as falas e o próprio perfil do grupo, não deixava dúvidas de que eles mereciam muitos dos prêmios, se comparada às demais companhias nas categorias.
Embora não esperássemos grande coisa em termos de premiação, saímos um pouco decepcionados. Não ficamos até o fim da cerimônia.
Resta no fim que, para uma primeira apresentação em festival, comportamo-nos bastante bem. Chegamos ao Rio exaustos (eu trabalharia no dia seguinte, segunda-feira!), mas orgulhosos e cientes de termos feito um bom trabalho e levado um pouquinho de nós e da nossa experiência em teatro para aquela cidade.

UERJ SEM MUROS

A energia era a melhor que tivéramos até então. Apresentando-nos no segundo maior teatro do Rio de Janeiro e tendo uma plateia de mais de 600 crianças, vindas de projeto-escola, muitas pela primeira vez num teatro, nosso resultado não podia ser diferente: foi nossa melhor apresentação como palhaços.
A estrutura intimidava. Como fazer aparecer nossos clowns num teatro tão grande? Daríamos conta dessa tarefa?
Houve inúmeras mudanças de marcação devido ao novo espaço e à ausência da Luiza. A principal delas era uma limitação do palco com as malas que alterava, em consequência, toda a entrada e alguns detalhes das outras cenas.
Houve grandes estresses. Nossa maior questão foi alguma desorganização no momento de arrumar os cenários. Por conta de atrasos do pessoal da iluminação, também ficamos com tempo reduzido para almoço (o que tem se tornado um hábito ruim para nós). Mais ainda, a saída da Luiza nos deixou um pouco apreensivo quanto ao futuro de determinadas cenas, sobretudo a do balé final e a da faxina. Além disso, no fim, acabamos enrolados para organizar e subir o material, o que gerou algumas broncas também. Atrasamo-nos um pouco para entrar em cena. Mesmo assim, tivemos a melhor recepção de todas.
Mal entramos na plateia, as crianças já gargalhavam. O público estava aberto, e isso era bom. A cada gag que fazíamos, ouvíamos uma recepção forte, mesmo às que nem considerávamos tanto.
Fiquei particularmente orgulhoso pela atuação dos meus colegas. Fernanda e Saulo têm se destacado muito positivamente nos trabalhos de clown, e isso é nítido, sobretudo na recepção do público. O Luiz também sabe se comportar bastante bem - o que tenho notado desde a saída para  a feira da FAPERJ.
Quanto a mim mesmo, ainda penso que tenho algumas dificuldades. Não sei de onde elas vêm. Talvez não me sinta muito à vontade com a minha criação da cena do suicídio. Na cena do balé, recebemos eu e Aline críticas da Célia, porque sem a Luiza a cena não funcionava. Parecia não haver brilho como antigamente (lembro-me que também foi com muito custo que encontramos a dupla certa para esse momento do espetáculo, e só depois de muitas combinações chegamos a um resultado satisfatório de uma disputa entre Luiza e eu, que fez todos rirem um bocado). Penso que essas dificuldades pessoais só vão se resolver depois de muita leitura e trabalho.
Mesmo com todos os problemas, desde os que só nós sabemos - como erros de marcação - até os que ficaram mais evidentes - como o final da cena da coxia -, saímos extremamente satisfeitos, todos. Se no trabalho do festival ainda ficamos divididos entre achar o resultado geral não tão satisfatório devido às carências de organização e achar um bom espetáculo apesar dela, dessa vez fomos unanimes em afirmar que foi nosso espetáculo mais interessante.
Tendo um resultado tão bom, animamo-nos ainda mais a entrar em cartaz. Contudo, novos projetos e os desfalques que tivemos tornaram praticamente impossível essa retomada. Sem Luiza e Lucas será um bocado difícil botar a casa na rua. Mas não podemos dizer que não quisemos.

Victor Ribeiro / 2012


06/02/2012

Sendo o primeiro encontro de 2012, sinto-me mais à vontade para (re)começar a escrever os relatórios, que tanto nos foram cobrados no ano passado, e tanto foram negligenciados por mim e pelos meus colegas.
Nosso ano, foi observado, parece ter “começado mal”. Muitos atrasos (meu, inclusive), uma ausência, a princípio injustificada.
Logo no início da reunião, recebemos a notícia de que a Juliana deixaria o grupo. Foi apontado pela Célia, após a partida da Ju, que esta realmente parecia se afastar gradualmente do teatro, desde o processo de máscara, momento que coincidiu com sua entrada na universidade rural.
Foram postos na mesa os planos do ano. Tendo recebido o edital FAPERJ, montaremos a peça de Commedia dell’Arte. Diferentemente da nossa primeira tentativa, dessa vez tentaremos nos munir de material teórico o suficiente, porque “para fazer commedia dell’arte, é preciso amar a commedia del’arte”, palavras da própria Célia. Para tanto, recebemos uma parte do livro A loucura de Isabella, de Flaminio Scala, e começamos sua leitura.
Não quero me estender sobre esse assunto no momento, mas houve passagens que me chamaram a atenção e que valem a pena ser mencionadas. Destaco a que diz que a máscara é uma forma de encontrar uma falsidade que parece mais expressiva do que a realidade - o que achei bonito de ler; a que afirma que muito do que se compreende da commedia hoje em dia mitifica em demasia o que parece ter sido, de fato, esse tipo de teatro; e, evidentemente, a passagem que nos mostra que o nome commedia dell’arte, ao contrário do que eu pensava, não tem nenhum sentido estético, e sim prático: arte, em italiano antigo, designa ofício, sendo os grupos desse tipo de teatro - se é que posso dizer isso, visto que essa denominação vem depois do surgimento do fenômeno - os primeiros a fazer do teatro profissão.
Voltando ao planejamento do ano, daremos prosseguimento (já na próxima reunião) ao trabalho de clown. Ele parece ter sido posto em segundo plano pela Célia, que parece mais empolgada com o projeto da commedia. Mas vamos terminá-lo, sim, até para termos uma experiência mais concreta em montagem antes de atacar as Venturas e desventuras da bela Isabella.
Comentários e leituras feitos, aquecemos o corpo e começamos os exercícios que tanto nos faziam falta - ao menos a mim. Fizemos um aquecimento individual (para o qual eu quis trazer os movimentos da aula experimental de dança contemporânea que fizera semanas antes, e que me ajudaram) e abrimos os canais do corpo, segundo a técnica oriental. Então, começamos os trabalhos corporais mais, digamos, pesados.
Destaco aqui que, se a Luiza posteriormente afirmou que imaginava que voltaria pior do que realmente voltara, meu caso foi seu inverso: eu achava que voltaria bem melhor. Cansei-me em demasia, tanto que passei mal e acabei tendo que me ausentar por ter sentido um forte enjoo.
Nossos exercícios consistiram em: andar em roda, com cada um propondo um caminhar diferente, a ser copiado pelos outros. Houve formas que me pareceram interessantes (dentre as quais destaco a da Luiza, a do Lucas e a do Saulo).
Depois, fizemos um exercício de diagonal, semelhante ao primeiro, mas que, agora, deveria incluir um salto. Como venho tentado há muito tempo, tentei esvaziar o máximo a cabeça para não racionalizar demais o momento de propor o movimento. Penso que consegui algo nesse sentido, mas senti que ele se assemelhava (demais para o que eu gostaria) ao primeiro, no sentido de deixar determinadas partes do corpo tensas. Tenho tentado sabotar-me nesse aspecto, e espero conseguir, propondo formas que não sejam óbvias para mim.
Foi nesse momento que passei mal. Acabei saindo e não peguei as últimas formas. Lembro-me de ter achado muitas das propostas muito cotidianas, como se estivéssemos desconcentrados. Para um primeiro dia, talvez isso seja esperado.
Tendo em vista o cansaço geral, a Célia decidiu fazer um exercício ainda de proposta, mas mais leve. Em roda, de frente para o grupo, cada um proporia um movimento leve, “de descanso”, para ser copiado.
O último exercício era o de tentarmos bater palma juntos. Ficamos um minuto inteiro sem propor nada, o que me angustiou de certa forma. Era como se todos nós tivéssemos receio de alguma coisa, medo de, não sei, tomar a iniciativa. A “energia” - foi esse o nome dado - não circulou, de modo que não houve palmas: só silêncio e um grande cansaço.
Ao fim, ouvimos as amenidades (a conquista do DRT definitivo do Lucas) e partimos, com a promessa de que leríamos alguma coisa do texto-base para o próximo encontro, e de que nos comprometeríamos a começar a procura do material de commedia dell’arte. Temo que não seja capaz de achar algo interessante, haja vista todos os meus compromissos paralelos ao grupo, mas penso que não devo preocupar-me por antecipação: dar-se-á um jeito.

08/02/2012

Começamos com dez minutos de atraso, o que foi até comemorado, visto que nossos últimos encontros chegavam a ter demoras de meia hora para começarem.
Depois da conversa inicial, e de saber o planejamento do dia, fizemos um aquecimento rápido, incluindo abertura dos canais (com adição de um novo exercício de controle da força abdominal) e um pouco do exercício cabeça-ombro-coluna-bunda, especialmente um dos meus preferidos.
Pusemos o nariz de palhaço. Queria deixar registrado aqui o quanto eu senti falta disso. Demorei um pouco para conseguir vestir a máscara, talvez um pouco com receio de não conseguir reviver o meu clown. Acho que consegui.
O que sinto, ao pôr o nariz, é algo como uma alegria tão grande, uma espécie de liberdade. Se, normalmente, tenho medo de parecer estúpido, o nariz de palhaço é o momento de deixar fluir toda minha imbecilidade acumulada. Não queria fazer do teatro terapia, mas penso que é difícil quando tratamos de algo tão íntimo quanto nossas fragilidades e medos. Parece-me que, cada vez que estou com o nariz, a frase que lemos uma vez sobre ele se mostra cada vez mais forte: é a menor máscara do mundo, de fato, mas ao mesmo tempo a que mais revela.
Imagino que, quando me permiti ser idiota (algo a que todos se negam na vida dita real), obtive uma mudança significativa na minha relação com o meu palhaço. Sinto que, talvez, o que tenha me feito falta seja essa liberdade.
E foi com essa liberdade que me diverti no ensaio de hoje. A ideia era percorrermos toda a peça, até onde tínhamos material. Como sempre, não conseguimos isso, devido às inúmeras paradas.
Elas aconteciam porque a ideia da Célia era diminuirmos a quantidade de movimento. Concordo com ela nesse aspecto. Os melhores clowns que vi, até então, eram aqueles que executavam ações precisas.
Com isso na cabeça, passamos as cenas da chegada até o final do carro.

13/02/2012

Começamos hoje sem maiores atrasos, a não ser o do Saulo. Nosso dia foi de aquecimento forte, com direito a quase todos os exercícios corporais a que estávamos acostumados, com inclusão de um novo que não consegui fazer - o que não me preocupa de fato: ninguém consegue fazê-lo de primeira. Trata-se do exercício de controlar a descida pelo umbigo.
Vestimos o nariz depois do cabeça-ombro-coluna-bunda.
Por algum motivo, me senti muito mais disperso do que os últimos encontros. Penso que por estar com a cabeça cheia, acabei não conseguindo me concentrar nos ensaios - um pouco mais no aquecimento, mas nosso trabalho não é aquecer.
Mesmo assim, participei das cenas. Começamos do ônibus, onde tentamos inserir sem sucesso a sugestão que eu dera no último encontro. Depois de repetir várias vezes a saída depois do acidente, fizemos a entrada dos meninos para a mudança de roupa. Evidentemente isso ficou prejudicado por não termos nem o figurino, nem a música de base.
Já nessas cenas eu me sentia disperso, mas consegui resolver (principalmente por não ser exatamente o foco da ação). Meu problema, creio eu, ficou mais forte na cena seguinte, a do suicídio.
Não gostei muito do nosso resultado, mas acho que isso se resolverá no próximo encontro, quando teremos um final definido.
Tivemos também uma pequena discussão acerca da atitude da Fernanda, que viajou para a Bahia hoje (segunda), e não estará conosco na quarta.
O fato nos suscitou um questionamento sobre a postura que temos em relação ao grupo, que envolve nossas prioridades e o compromisso que assumimos com o teatro. É certo que já não é novidade para nenhum de nós que o teatro, para quase todos ali, não é nosso principal meio de subsistência. Não vivemos dele: no máximo vivemos com ele, o quanto podemos.
Abdicamos de muitas coisas para estarmos ali, agora duas vezes por semana. É desconfortável saber que o trabalho que temos...

Aline Deyques / 2011 - 2012


“Clowns Bailarinos”

Quando comecei a fazer teatro e pensar em ser uma atriz (ou pelo menos uma tentativa de ser...) nunca tinha me passado pela cabeça em ser uma clown.
Eu assumo que tenho muita dificuldade em estar com uma máscara... é um tanto difícil para mim, mas tento superar essa dificuldade e quanto a construção da peça “Os clowns Bailarinos” isso em muitos momentos se torna evidente. Porém de certa forma tentei fazer o melhor. Por não ter feito um diário e por já ter se passado um período longo das construções das cenas, no momento não tenho muitas lembranças de como foram feitas e o que me acrescentava cada dia, mas o que me recordo muito bem é que quando comecei eu era uma “clown” extremamente insegura e medrosa e hoje posso dizer que já amadureci um pouco, mas ainda não muito...ainda continuo a insegura e medrosa de sempre. Mas claro que muitos momentos servirão para eu melhorar entre eles estão os momentos junto com os meus colegas de teatro, que a cada final de ensaio, quando eu saia me sentindo a pior do mundo, me incentivava e dizia para eu continuar, as nossas apresentações em especial a apresentação feita no projeto escola em 2012, que no final as crianças vieram nos abraçar, falar com a gente e passar uma energia boa daquele sobre o trabalho que fizemos foi muito bonito e também a apresentação em Congonhas, que por todas as dificuldades que tivemos, como grupo, conseguimos enfrentar tudo isso e subirmos ao palco e logo após a apresentação ainda sermos elogiados pelo jurados. 
Todas essas experiências serviram de crescimento para mim e sinto que para todo o grupo.  Infelizmente como disse não tenho muitas lembranças sobre as construções, mas o que me marcou está ai e essa experiência para mim foi de grande importância para os outros trabalhos que estamos realizando.

Victor Ribeiro / 2011


Relatório das atividades do dia 23/02

            Nosso encontro, diferente dos outros, começou pela confecção das máscaras. Pauline e eu, bolsistas do programa, chegamos muito mais cedo do que os outros para nosso trabalho, e vimos que todas as bexigas haviam murchado, deixando apenas os moldes de jornal. No entanto, isto não atrapalhou em nada o processo, uma vez que todos haviam feito pelo menos uma camada de jornal, podendo continuar trabalhando sobre ela sem o menor problema. Evidentemente, havia máscaras um pouco mais rígidas que as outras: uns haviam conseguido fazer mais camadas do que outros.
            Alguns de nós, cujos balões haviam estourado na semana anterior, trouxeram seus moldes de casa, e puderam já começar a inserir detalhes nas máscaras, tais como narizes e boca. O restante de nós, eu inclusive, preferiu reforçar as camadas – em certos casos, bastava ver as máscaras contra a luz que se evidenciava a pobreza de jornal em algumas partes, o que poderia prejudicar a rigidez do objeto.
            Passado isso, nos dedicamos à leitura do texto da semana: “A Commedia Dell’Arte no Studio de Meyerhold: um trabalho sobre o corpo”, de Beatrice Picon-Vallin. Sem nenhum comentário precedente, começamos a leitura.
            A primeira parada significante que fizemos foi no trecho em que um aluno do Studio afirma que “o propósito [do trabalho] era ‘partir da Commedia dell’Arte, não de voltar a ela’”. Foi-nos interessante reparar como essa posição é recorrente nos trabalhos com Commedia dell’Arte, uma vez que este não era o primeiro texto em que figurava uma afirmação desse tipo. A grande vontade, então, dos grupos de teatro, assim como a nossa, era e é a de tomar este ou aquele elemento da Commedia para construir uma determinada pratica teatral mais voltada para o trabalho de corpo. Até porque, e isto também fez parte de nossa discussão, não se sabe até onde conseguiríamos recuperar a Commedia dell’Arte original, sobretudo porque ela corresponderia muito especificamente a uma certa época, com personagens-tipo de uma certa região (no caso, a Itália). Porém, a pergunta continua: por que nenhum grupo “se atreve” a retomar a Commedia dell’Arte?
            Lembramo-nos ainda da experiência do grupo Moitará, que a partir da Commedia dell’Arte, construiu em um espetáculo o que se poderia chamar de uma “Comédia da Arte’: se aproveitou de tipos característicos do Brasil para confeccionar máscaras”.
            No texto de Picon-Vallin, sentimos uma enorme de dificuldade de compreender certas passagens, principalmente devido à nossa ignorância acerca dos autores russos mencionados. Por exemplo, há um trecho em que a autora fala da vontade do Studio de Meyerhold de despertar o “teatro amnésico”, ou mesmo as inúmeras referências feitas pela autora à revista “O amor das três laranjas”, da qual nunca tínhamos nem mesmo ouvido falar, não sabendo portanto nem mesmo do que tratava. Nem mesmo os tópicos enumerados por Meyerhold sobre os princípios que definem o jogo e a composição cênica fizeram muito sentido para mim. Atribuo isso a nunca ter visto em teatro nada que se assemelhasse a essa prática.
            Mas nossa discussão mais acalorada, por assim dizer, não se deu no campo do texto de Picon-Vallin.  Se houve um dia em que mais conversamos e discutimos algo, dentro daquele grupo de 16 pessoas, definitivamente foi este. O que fizemos desta vez foi menos uma discussão sobre o teatro em si, e mais sobre a nossa própria condição de grupo teatral.
            Isso começou com um comentário feito por nossa diretora, em que ela se alegrava por ter, depois de pelo menos 10 anos, um grupo que “retornava inteiro das férias”, isto é, que não desistia no meio do caminho. A partir disso, ela disse se animar a construir algo, mesmo sabendo que nosso grupo estava ali “só de passagem”. O que ela quis dizer, na verdade, foi que tinha claro em sua cabeça que todos ali tinham outras prioridades que não o teatro e, bastava que uma delas se apertasse para que o teatro saísse prejudicado.
            Falamos então do quanto o “sair do grupo” era danoso a qualquer tipo de trabalho e rememoramos alguns casos ocorridos no passado, em que alguns componentes deixaram o grupo em meio a processos importantes. A discussão que se deu a partir daí foi a seguinte: o que é se comprometer com um grupo? Afinal, houve casos em que os componentes que saíram afirmaram que queriam apenas “experimentar uma temporada” ou “experimentar um festival”, sem necessariamente se importar com todo o processo – ou seja: assim que passar a experiência desejada, abandonar o grupo, não importando o quanto a peça precisasse ser reapresentada.
            Disso, pulamos para o problema das substituições no teatro em que fazíamos em nosso grupo. Segundo a diretora, cada personagem é construído de forma a se adaptar ao ator que o faz (apesar do contrário também ocorrer), de modo que as substituições acabam por ser falhas: não funcionam tão bem quanto com os atores originais.
            Lucas nos lembrou, num certo momento, o quão angustiante é para um ator (e mais ainda para um não-ator) passar mais tempo em processo de montagem de uma peça do que efetivamente fazendo a peça. É claro para nós, no entanto, que para produzirmos algo de qualidade, era necessário um longo tempo de preparo e montagem – como foi o caso da peça Karavançarai, interpretada pela companhia anos atrás, em que foram 2 anos de preparo para apenas duas apresentações (belíssimas, segundo aqueles dentre nós que as assistiram), novamente devido a desistências.
            A conclusão a que chego, no fim, é que o que se tem a fazer é estabelecer um certo contrato com o teatro. Se começamos um processo de montagem, se aceitamos o desafio, é preciso que fiquemos nele até o final, principalmente quando sabemos os problemas que desistências desse tipo acarretam. Eu, pelo menos, já tomei minha decisão quanto a isso.

Ludo Lopes / 2010 à 2012


  Oficina de Máscara de Clown
Desde o primeiro momento em que ficamos sabendo faríamos a oficina de máscara de clown, fiquei super animado e contando os dias para o início. Isso não é algo para surpreender aqueles que me conhecem desde a infância. Não mesmo! Sempre gostei da figura do palhaço, sempre gostei das brincadeiras do palhaço, sempre fui apaixonado por esses bufões. Me lembro até hoje de uma festa de aniversário feita pra mim com o tema palhaço e mais ainda de uma fantasia de carnaval elaborada por minha mãe – um macacão com aquele quadriculado peculiar do Arlequim, nas cores branca, azul e amarela; com pompons pendurados do peito ao umbigo e nos sapatos; um babado no pescoço um chapéu coco azul e o rosto maquiado. Enfim, o palhaço sempre foi uma figura presente e adorada em minha vida.
Quando iniciamos os exercícios da oficina, não senti muita facilidade em usar o nariz, fisicamente falando – não conseguia respirar bem. Mas, foi tranquilo. Pra mim o maior problema foi outro: quando punha o nariz, percebia que naquele momento não podia mostrar o eu que costumo apresentar no dia-a-dia, no cotidiano. Percebia nitidamente que deveria mostrar justamente o eu que costumava tentar esconder, mas que estava sempre lá. Mostrar minhas imperfeições e meu ridículo! Como isso me era muito custoso, tentava dar vida ao nariz vermelho com “gracinhas” e, é claro, nunca funcionava.
Os dias de oficina foram se passando e aos poucos fui deixando a máscara diária cair pra dar lugar à menor máscara, porem mais complicada de usar, a máscara de clown, o nariz de palhaço. Fui ficando cada vez mais evidente, mais “nu”. Sim, pois quando acentuamos nossos características que tentamos esconder, nos mostramos como somos de verdade. É certo que o clown expande, exagera, repete o que em nós faz os outros sorrirem, porém é sempre a nossa essência que é evidenciada no trabalho clownesco.
Não sei se estou certo, mas tive a impressão de que fui o mais animado com a montagem do clown. Tive um grande cuidado na escolha do figurino. Pensei em cada detalhe e fiz algumas ligações à minha fantasia de infância: o quadriculado da minha calça não é o mesmo, mas está lá, o chapéu coco azul é idêntico ao que usei aos 4 anos. Desenhei o figurino antecipadamente para passar alguns dias procurando aquilo que me veio à mente. Adoro o meu figurino, acho que ele combina perfeitamente com o Pimenta (nome que dei ao meu palhaço ao lembrar de outra história da minha infância, o dia em que confundi pimenta com pitanga e enfiei uma na boca – risos).
Minha maquiagem, embora eu tivesse ideia do que eu queria fazer, foi feita de supetão. Como todos sabem tenho uma memória podre e, no dia de criar minha maquiagem, que foi em uma incursão no CAp UERJ, uma de nossas atividades para fechar a oficina, deixei o espelho em casa. Só pra variar! Como havia poucos espelhos, tive que me maquiar quase que intuitivamente e, óbvio, não ficou muito bem como eu queria. Primeiro que ficou forte demais e eu queria uma maquiagem mais leve e, segundo, fiz um retângulo nas bochechas, quando na verdade queria um triângulo. Mas o dia com as crianças e os adolescentes foi ótimo! Tive uma receptividade muito grande e percebi que o Pimenta funcionava. O mais legal foi perceber que além de funcionar, eu consegui segurar o estado clownesco o que é muito difícil.
Nossa segunda atividade para fechar este ciclo foi um “Palhaço Oculto” em um restaurante. Nossa! Foi espetacular perceber como o palhaço encanta não só as crianças e os adolescentes, mas também os adultos. Estes voltavam a ser criança quando conversavam com um de nós. Viramos uma atração do dia no restaurante. Quem tirou o Pimenta foi o Sinésio, palhaço vivido pelo ator Lucas Matos e que admiro aos montes! Isso me deixou muito contente! O presente para o Pimenta não poderia ser outro: SAL, muito sal para temperar. Tinha sal refinado, grosso, saleiros antigos e até sal líquido! Muito original. Adorei!
Ainda há muito que se crescer em meu trabalho de clown, mas fico muito contente sempre que dou lugar para o Pimenta! Vejo que do início do trabalho pra cá, já tive muito crescimento e, assim, percebo que o Pimenta, longe de ser um personagem, uma figura acabada, pronta, ele é uma parte de mim que juntamente comigo vai se transformando com o passar do tempo e da minha história.

  Processo de montagem do espetáculo “Os Clowns Bailarinos”
O trabalho de clown me dá muito prazer! Por esta razão achei que seria fácil uma montagem de espetáculo clownesco. Me enganei profundamente! As dificuldades são outras, mas existem. E como existem!
Tá certo que o meu clown, o Pimenta, torna minha péssima memória em evidência ainda maior, embora goste de mandar. Isso faz com que ele seja um líder retardado e desastrado. Até aí, tudo bem. O pior foi se deparar com o fato de que o espetáculo de clown, como qualquer outro, é marcado. E pra entender a necessidade de controlar o “retardamento” do pimenta e lembrar as coisas todas que eu tinha de fazer durante o espetáculo? Mas esse não era um problema só meu. Quase todos nós nos deparamos com essa novidade, exceto o Lucas que já havia vivido uma experiência de montagem de espetáculo de clown.
Como o espetáculo fala de um grupo de clowns bailarinos montando uma apresentação de “O Lago dos Cisnes”, algumas cenas foram de dança e uma delas me ajudou nesse processo de controlar o Pimenta e não ser controlado. A cena do Pas de quatre me ajudou a entender isso perfeitamente, pois se não controlasse o Pimenta, não iria ser possível marcá-la. É uma cena de coreografia.
Bom, o espetáculo tinha que sair, então tivemos de entender como fazer isso na prática. E conseguimos, alguns mais que os outros, mas o espetáculo saiu e ficou muito bonito! Ao final, tínhamos um espetáculo engraçado, gracioso e com qualidade estética. “Os Clowns Bailarinos” é um bom espetáculo, principalmente por chegar e tocar a criança sem pieguices. Por esta mesma razão encanta adultos de todas as idades.

  PROFEST (Festival Nacional de Teatro de Congonhas do Campo – MG)
Fiquei muito feliz quando a Célia nos comunicou que havíamos sido aceitos no PROFEST para defender o espetáculo “Os Clowns Bailarinos”.
Tivemos que preparar tudo como se o espetáculo já estivesse pronto, embora ainda não tínhamos  marcado quase um terço do espetáculo. Foi uma correria só, mas como a gente, da Nósconosco, sempre diz “a Célia sempre dá um jeito”. Ela conseguiu finalizar as marcações do espetáculo a tempo. Mas, é claro que a cena final ficou pra decidirmos no teatro, em Congonhas do Campo. Se isso não acontecesse, não seria a Célia nossa diretora. Não é por incapacidade dela. Ela sempre pensa em várias maneiras, mas todas dependem de uma série de possibilidades.
Nos dias que antecederam nossa viagem, a Célia achou melhor reservarmos hotel pra Companhia. Fizemos isso. Alugamos um ônibus muito bom. Nem acho que era tão necessário assim, apesar de ter adorado o conforto por ele proporcionado. Minas não é tão longe assim! Separamos todo o material utilizado no espetáculo e fiquei impressionado com a quantidade de adereços, objetos e figurinos que o espetáculo produziu! Parecia pouca coisa, porém quando tudo ficou aglomerado pudemos perceber o volume que fazia.
Ao chegar em Congonhas percebemos o quão pequena era a cidade. Era uma cidadezinha organizada, mas as ruas eram muito estreitas e começamos a ter problemas assim que chegamos. Além da estreiteza das ruas, havia uma obra bem no centro do lugar e nosso ônibus não poderia nos levar até o hotel, nos deixando com todo aquele volume de material cênico há umas três ou quatro quadras do hotel. Isso se soma ao fato que chegamos lá com um tempo maior do que esperávamos e ainda ao fato de que iríamos nos apresentar naquela mesma tarde. Só tínhamos umas duas horas pra levarmos o material para o teatro, voltar no hotel pra fazer o check-in no hotel, despejarmos as malas nos quartos, e irmos para o teatro pra conhecermos o espaço do palco e prepararmos as coisas. Descobrimos que a programação estava atrasada e que não teríamos tempo para ensaiar. Sendo assim, pode se fazer a pergunta “e a comida, quando entra na história?”. Não, não tinha tempo pra isso! Entramos no palco sem se alimentar, mas conseguimos fazer o que podia ser feito, dadas as condições: O espaço não era o esperado, o som deu problema e a iluminação teve que ser improvisada, já que não tivemos tempo pra preparar a nossa.
Assim que terminou o espetáculo, tivemos uma conversa com os jurados do festival. Estávamos apreensivos com o que iríamos ouvir, mas sabíamos que não tinha sido nosso melhor dia. Eles fizeram muitas críticas, umas boas e outras ruins. Falaram que faltou triangulação na comunicação entre os clowns e a plateia, disse que em alguns momentos passamos da medida na graciosidade, enfraquecendo a graça do clown, entre outras coisas. Ficamos um pouco tristes, mas sabíamos que tínhamos esses problemas. Mas pra mim, repito, falo isso por mim, tudo isso foi menor do que o que eles disseram de bom. Entre outras coisas, falaram da nossa capacidade de manter o estado clownesco durante todo o espetáculo e da evidente pesquisa feita para que o espetáculo fosse montado.
Voltamos para o hotel exaustos, mas tive a nítida sensação de dever cumprido. Tomamos banho, tiramos uma breve soneca e fomos jantar. A organização ofereceu uma festa junina que de junina não tinha nada e, por isso, preferimos voltar para o hotel, já que somente nós, os cariocas, estávamos caracterizados de caipiras. No dia seguinte fomos almoçar no refeitório disponibilizado pela equipe e constatamos de vez a incapacidade de organização. Os grupos e companhias de teatro que contaram com o alojamento oferecido pela organização não conseguiu dormir direito, não havia transporte para levá-los até o alojamento, que era uma escola funcionando normalmente, o que adiou ainda mais o descanso dos atores, pois tiveram que esperar o término das aulas. Enfim, muita desorganização e uma comunicação pífia. A única coisa legal nesse dia foi a roda de debate criada depois do almoço. Tivemos contato com vários grupos de teatro, inclusive a Companhia de Teatro Andança (muito bons!).
À noite ficamos para a premiação. Como prevíramos, não fomos premiados em nada. Também, a Célia nos inscreveu como espetáculo adulto e aí fica difícil, né? Mas foi de propósito, já que na época ela estava pensando em começar a nos preparar para linguagem de teatro adulto. E, como era de se esperar, a Companhia Andança foi um sucesso, merecidamente!

  PROJETO PALCO DAS ESCOLAS (OS CLOWNS BAILARINOS)
A apresentação de “Os Clowns Bailarinos”, no projeto Palco das Escolas da COART, aconteceu no dia 27 de junho de 2012, no Teatro Odylo Costa, filho.
Foi um dia penoso para todos nós. Foi tudo muito corrido, por conta do horário inicial da peça, não deu tempo de passarmos a iluminação, muito menos de ensaiarmos, também não deu tempo de nos alimentarmos e até para nos prepararmos pra entrar em cena foi um “Deus nos acuda”. Alguns de nós já estavam exaustos antes mesmo de começar o espetáculo. Sendo assim, tinha tudo pra dar merda!
Surpreendentemente, esta foi a apresentação na qual mais me diverti. Adorei o clima da plateia! A cada cena pude perceber um canal de comunicação com o público e isso, num trabalho de clown, é excepcional. Esta, pra mim, foi de longe a melhor apresentação de “Os Clowns Bailarinos”, o que me levou a refletir algo que a Célia, baseada em teóricos de teatro, sempre diz: o ator só funciona bem na exaustão.
Depois da apresentação, pudemos sair e entrar em contato com o público. Foi super legal perceber como as pessoas gostaram do trabalho e, principalmente, perceber o quanto as crianças se identificaram conosco, enquanto clown!

  Oficina de Perna-de-pau
Eu estava há muito tempo esperando por essa oficina. Sempre achei espetaculares as pessoas que andavam de perna-de-pau.
No primeiro dia da oficina, o grupo foi apresentado aos oficineiros: o Martin e o Eugênio. Na verdade, nosso oficineiro foi o Eugênio, pois o primeiro só veio na primeira aula.
Eu fiquei muito empolgado com a perna-de-pau, mas como fomos divididos em duplas e eu fiquei com Victor, acabei deixando pra subir pra andar depois dele. Era muito difícil ajudar quem estava sobre a perna-de-pau, pois precisávamos ficar com os braços levantados por muito tempo. De fato, no dia seguinte, a musculatura que mais estava dolorida era aquela envolvida com a ajuda ao parceiro na perna-de-pau.
Eu sempre imaginei que fosse difícil se equilibrar sobre a perna-de-pau, mas só pude perceber a verdadeira dificuldade ao utilizá-la pela primeira vez. Todo o seu centro de equilíbrio corporal é modificado. É preciso se adaptar a isso percebendo novas linhas e maneiras de equilíbrio, entendendo o mecanismo das passadas, se deixando levar por um ritmo diferente no andar, etc. Como foi custoso levantar os joelhos para andar da maneira correta, a todo instante era preciso que o Martin e o Eugênio me lembrassem disso. Durante muito tempo fiquei exercitando as passadas e o ritmo do andar me segurando na pilastra, depois comecei a andar de fato agarrado à mão do Victor e por fim arrisquei algumas passadas sem a ajuda do Victor, porém me segurando à corda de segurança.
Na segunda aula, Eugênio teve um problema com a corda de segurança e não conseguiu esticá-la. Por esta razão, fomos obrigados a nos desvencilhar da ideia da corda de segurança. Agora posso perceber que essa falta da corda nos foi positivo, pois, já na segunda aula alguns de nós já estávamos andando sem a ajuda das pessoas. Nesta aula também, Eugênio nos mostrou a maneira correta de se cair de perna-de-pau. Tal demonstração foi muito importante. Pudemos perceber qual o mecanismo corporal para que a queda não fosse dolorida. Assim, perdi um pouco mais do medo. Talvez por isso, algumas aulas depois, tive uma queda feia. Não cai de maneira perfeita, mas não me machuquei. Em minha segunda queda, cai como se deveria: nem barulho houve.
Fiquei muito contente quando começamos a andar sem problemas. Percebi que ao perdermos o medo, a perna-de-pau deixava de ser um objeto separado de nosso corpo e, psicologicamente falando, se unia a nós. Era uma extensão das nossas próprias pernas.
Quando começamos a aprender a descer e subir escadas, senti uma dificuldade enorme, mas na aula seguinte eu já estava bem melhor.
Foi bom ter feito esta oficina! Ela mexeu, entre outras coisas, com meus medos. Hoje me sinto muito mais corajoso do que antes.